Uma máquina de emendar vitórias, o Cerro conquista o Apertura e interrompe o domínio do Olimpia com uma campanha histórica

Ao longo dos últimos dois anos, o Cerro Porteño conviveu com a hegemonia do Olimpia no Campeonato Paraguaio. A partir do retorno de Roque Santa Cruz, os olimpistas conquistaram quatro edições consecutivas da liga – numa sequência que não viviam desde a virada do século. Após a contratação de Emmanuel Adebayor, os franjeados prometiam ainda mais força ao penta. Entretanto, o rival Cerro Porteño tratou de romper tal domínio no Apertura 2020. O Ciclón virou uma máquina de empilhar vitórias e, de uma campanha até então sem sobressaltos, arrancou ao título na volta da paralisação. A conquista se consumou neste sábado, com uma rodada de antecedência. É o 33° título nacional dos azulgranas, o primeiro desde 2017.

A parada das competições por causa da pandemia teve efeitos diretos sobre o Apertura Paraguaio. O Cerro Porteño entrou na quarentena com seis partidas sem vencer, incluindo também a eliminação nas preliminares da Libertadores diante do Barcelona de Guayaquil. O técnico Chiqui Arce balançava no cargo, mas conseguiu se segurar com mais tempo para trabalhar. E foi então que transformou o desempenho do Ciclón. Até ali, os azulgranas ocupavam a modesta sexta colocação e estavam sete pontos atrás do líder, o Libertad. Deslancharam com a retomada das atividades, a partir de julho.

O Cerro recomeçou a campanha derrotando o próprio Libertad por 2 a 1, o que indicava o início da guinada. Mas não parou por aí: foram 11 triunfos consecutivos, estabelecendo o novo recorde histórico do Campeonato Paraguaio. O mais importante destes veio no fim de agosto, durante o confronto direto com o Olimpia. A esta altura, os olimpistas eram os principais perseguidores e poderiam reduzir a diferença para um ponto com a vitória. A derrota na Olla Azulgrana, contudo, aumentou para sete pontos a vantagem do Ciclón. E nada mais tiraria a taça das mãos do time de Chiqui Arce.

O empate com o Libertad no final de semana passado, que interrompeu a sequência de vitórias, não atrapalhou a tranquilidade do Cerro Porteño na liderança. E o time concluiu a conquista neste sábado, ao receber o River Plate na Olla Azulgrana. Logo aos três minutos, Enzo Giménez abriu o placar. Diego Churín ampliou de pênalti no início do segundo tempo e Alexis Duarte marcou o terceiro já na reta final do jogo. Treinado pelo ex-zagueiro Celso Ayala, o River só descontou a cinco minutos do fim, em pênalti convertido por Silvio Torales. Uma nota de rodapé, diante do troféu entregue aos cerristas.

O título valoriza a história vitoriosa de Arce no Campeonato Paraguaio também como técnico. Nos tempos como lateral, o craque brilhou com três troféus consecutivos vestindo a camisa do Cerro Porteño no início dos anos 1990, antes de se transferir ao Grêmio. Reataria essa trajetória em 2013, quando levou o Clausura com o Ciclón. Mas, depois de uma mudança polêmica ao Olimpia, também levantou a taça com os franjeados em 2015. A reconciliação com os azulgranas não poderia ser mais imponente, reafirmando sua ligação histórica com o clube e aumentando ainda mais sua lenda no Barrio Obrero.

Dentro de campo, entre as principais figuras da conquista, o goleiro Rodrigo Múñoz apareceu muito bem ao longo da retomada. Aos 38 anos, o uruguaio foi por anos ídolo do Libertad, mas trocou de lado em 2019 e se provou decisivo como titular na meta azulgrana. O Cerro sofreu míseros 13 gols em 21 partidas, tomando somente cinco tentos nas 13 rodadas desde a volta da paralisação. Já na frente, se o ataque nem foi tão avassalador assim, Diego Churín marca seu nome pelos sete gols contabilizados – sobretudo por sua importância no clássico contra o Olimpia.

Veteranos como Nelson Haedo Valdez, Julio dos Santos e Martín Cáceres foram coadjuvantes no elenco, pouco utilizados pelo Cerro Porteño ao longo do Apertura. Arce conseguiu injetar juventude, com um bom número de titulares abaixo dos 23 anos – como o lateral Santiago Arzamendia, o zagueiro Alexis Duarte, o volante Mathías Villasanti (capitão aos 23 anos) e o meia Enzo Giménez. Outros garotos ainda ajudaram a compor bem o plantel e entraram frequentemente nas partidas, a exemplo do meia Josué Colmán. E vale destacar ainda o peso da colônia argentina, especialmente pela contribuição dos meio-campistas Claudio Aquino e Federico Carrizo.

A maneira como o Cerro Porteño foi amassado pelo Barcelona na pré-Libertadores dava uma impressão de que o clube precisaria se reconstruir. Esta renovação aconteceu durante a paralisação, com as apostas de Arce. E a impressão é de que este time campeão pode render frutos aos azulgranas, não apenas em termos de resultado, como também em vendas no mercado de transferências. A consistência apresentada pelos cerristas nos últimos dois meses impressiona bastante, entrando para a história com uma conquista tão marcante.