O sucesso do Liverpool é baseado na montagem criteriosa de um forte elenco. Os Reds investiram alto em algumas peças cruciais de seu tabuleiro, mas o nível de desempenho e as conquistas atingidas compensam bastante estas cifras. Jürgen Klopp também fez suas apostas em jogadores que não eram tão valorizados assim, mas que superaram as expectativas e atingiram novas fronteiras a partir de seu rendimento em Anfield. Porém, se há um setor do campo onde o Liverpool precisa agradecer diariamente por seu achado são as laterais. Dentre todos os titulares da equipe campeã inglesa, Trent Alexander-Arnold e Andy Robertson talvez fossem os menos conhecidos do grande público quando chegaram ao elenco principal de Klopp. Neste momento, é possível dizer não apenas que ambos se tornaram o ponto de equilíbrio da equipe, como também que provocam uma revolução na posição.

Olhando na prancheta, o Liverpool é uma equipe bastante homogênea. Para fazer sua campanha arrebatadora na Premier League, os Reds não dependeram particularmente da fase espetacular de um jogador ou de um setor dominante. Logicamente, há aqueles que merecem natural destaque dentro da engrenagem pelo alto nível que apresentam, como Virgil van Dijk ou Jordan Henderson – este, candidatíssimo ao prêmio de melhor da equipe na temporada, por muitíssimos motivos dentro de campo, mas não só por eles. O ataque permanece com jogadores desequilibrantes, a zaga atingiu uma confiabilidade inimaginável há alguns anos, o meio-campo possui diversos nomes prontos à rotação. Mas é nas laterais que posicionam as duas turbinas deste Liverpool a jato.

A crescente do time de Jürgen Klopp nos últimos anos, e por consequência seu sucesso, se vale bastante do trabalho dos laterais. A posição costuma muitas vezes ser relegada nas grandes equipes, sem necessariamente altos investimentos. Em partes, o Liverpool também pensou assim, mas encontrou dois titulares cujo valor não se expressava em suas etiquetas – entre um desenvolvido na própria base e outro trazido a baixo custo de uma equipe rebaixada. Atualmente, muito do tipo de jogo apresentado pelos Reds é dependente do que produzem os seus laterais. Eles não foram as pedras fundamentais na formação do time. Mas dá para dizer que a engrenagem só gira com tanta potência graças à participação de ambos.

Cabe lembrar que, até a ascensão de Alexander-Arnold e a contratação de Robertson, o Liverpool tinha claras dificuldades para achar os verdadeiros donos das duas laterais. Jürgen Klopp contou com alguns nomes por ali, muitos deles sem compensar investimentos maiores. Os dois (teoricamente) donos da posição nos primeiros meses sob as ordens do treinador eram Nathaniel Clyne e Alberto Moreno. Dois jogadores jovens, bem avaliados e que davam a impressão de poder se desenvolver em Anfield. Na prática, dois coadjuvantes que pecavam bastante nas coberturas e não deixaram contribuições marcantes no apoio. Moreno foi o primeiro a perder espaço, mas para que James Milner acabasse improvisado na esquerda. Não existiam especialistas.

A sorte do Liverpool mudou a partir de 2017/18. Alexander-Arnold já participava da equipe principal desde a temporada anterior, mas com poucos minutos entre os titulares. Robertson veio do Hull City por €9 milhões, merecendo destaque apesar do descenso de seu time, após uma carreira que teve seu início no tradicional (mas amador) Queen’s Park da Escócia. Mas ambos ainda não convenceram Klopp de imediato.

No início daquela temporada, Moreno voltou a ocupar o lado esquerdo, até que as lesões promovessem a entrada definitiva de Robertson – para não sair mais. Já pela direita, muitas vezes o comandante preferia de novo o improviso, dando um pouco mais de segurança na marcação com Joe Gómez. Embora visto como um jogador de futuro, Arnold ainda parecia ter fundamentos a melhorar, sobretudo na marcação. Contudo, mostrou-se bem mais pronto do que se pensava e tomou o posto também com o passar das semanas naquela temporada.

A Champions League 2017/18, mesmo com um final frustrante ao Liverpool, acabou sendo nevrálgica ao próprio desenvolvimento da equipe rumo às conquistas que alcançaria nos meses seguintes. E uma das lições tiradas por Klopp naquela reta final de campanha estava exatamente nas laterais. Arnold e Robertson apresentaram seu rendimento em alto nível de exigência, contra adversários de peso. A classificação sobre o Manchester City, nas quartas de final, pode ser considerada um marco no desenvolvimento do setor. Os dois foram brilhantes especialmente nos 3 a 0 da ida, que encaminharam a classificação dentro de Anfield.

Se havia uma certa preocupação com a capacidade de marcação de Arnold, o lateral direito colocou Leroy Sané no bolso durante aquela noite. Pareceu um pouco nervoso de início, mas logo sentiu-se confortável e apresentou o leque de qualidades que possui. Aos 19 anos, mostrava-se preparado para tão logo se tornar um dos melhores de sua posição. Já na esquerda, Robertson viveu uma noite incansável e atormentou Kyle Walker, antes de conter Raheem Sterling no segundo tempo. Por seu trabalho intenso, logo se tornava um dos preferidos da torcida. E a volta em Manchester contou com outras apresentações seguras da dupla, principalmente considerando a iniciativa do desesperado City em reverter o resultado.

Aqueles dois embates deixaram bastante claro que Arnold e Robertson não seriam dores de cabeça se precisassem jogar de maneira mais defensiva. Ao mesmo tempo, se sabia o quanto poderiam contribuir ofensivamente ao Liverpool. Aquela caminhada na Champions terminou de maneira traumática em Kiev, sobretudo porque Klopp não parecia contar com uma defesa confiável, entre a falta de um goleiro minimamente constante e de outro zagueiro que acompanhasse Van Dijk a altura. Mas as laterais deixavam de ser uma questão. Pelo contrário, elas se tornariam uma solução ao time de outras formas. Arnold e Robertson cresceram muito nestes últimos dois anos, bem como fizeram o time crescer.

Em várias grandes equipes, é comum ver as laterais “desequilibradas”. Natural que o jogador de um lado tenha mais qualidade que o outro. Assim, libera-se mais um dos alas para aumentar a capacidade de criação por ali. Os exemplos de Daniel Alves e Marcelo, sobretudo em seus sucessos pelos clubes, são cabais. O Liverpool não é assim. Recuando um pouco mais Fabinho para resguardar sua defesa, Klopp aproveita o potencial ofensivo de seus dois laterais sempre, tantas vezes juntos. A dinâmica do jogo passa por ali. São dois grandes responsáveis por abrir as defesas adversárias e criar espaços a outros jogadores.

Arnold e Robertson, afinal, combinam entre si características desejáveis a qualquer jogador da posição. Quando se forma um lateral, normalmente exige-se que ele seja um bom atleta, com fôlego para cobrir uma longa faixa de campo durante os 90 minutos. Ambos cumprem este requisito. Mais do que isso, possuem qualidades que deveriam ser básicas a qualquer lateral e que, hoje em dia, se notam como um trunfo em ambos. Pouquíssimos jogadores da posição são tão técnicos quanto a dupla do Liverpool.

Isso se percebe pela participação na criação, com passes tantas vezes cirúrgicos e visão de jogo acima do comum. Klopp conta com dois verdadeiros armadores nos lados do campo, valorizando um setor onde pouquíssimos se sentem à vontade – seja pelo trabalho árduo pouco reconhecido ou pelos erros mais expostos ao torcedor que grita ao pé do ouvido. Ambos arriscam bastante nas jogadas, confiantes numa equipe que sempre tenta corrigir as perdas de bola imediatamente com sua pressão. O time campeão europeu em 2019 e que brilhou na última Premier League, apesar do vice, já seria moldado por este fator.

A função dos laterais não se resume, em Anfield, a auxiliar os atacantes de lado. Com Arnold e Robertson muitas vezes subindo como pontas ao ataque, os homens de frente do Liverpool ganham novos espaços. O tridente ofensivo pode circular mais, sem ficar tão fixo em uma determinada faixa de campo, e também ganha apoio para avançar em direção ao gol, afunilando ao miolo da área. O fato de tanto Mohamed Salah quanto Sadio Mané atuarem com “pés invertidos” na busca pela finalização é potencializado pela contribuição de ambos os laterais.

As inversões de bola entre os dois laterais também são essenciais para desafogar a equipe na criação pelo meio-campo e romper as marcações adversárias. Além disso, ambos iniciam os contragolpes, seja pelas arrancadas ou mesmo pelos lançamentos verticais, buscando a velocidade dos homens de frente. E há um evidente papel na definição das jogadas. Mesmo sem contarem necessariamente com jogadores altos dentro da área, os Reds aproveitam os cruzamentos e geram constantes chances, inclusive nas bolas paradas. As incumbências dos laterais são múltiplas, além do mero apoio.

Durante a temporada passada, Arnold e Robertson foram os líderes em assistências do Liverpool. Somando todas as competições, 29 gols foram criados com os passes e cruzamentos de ambos os laterais. Juntos, contribuíram mais neste papel que os três atacantes somados. Foram imprescindíveis na engrenagem rumo à conquista da Champions. E na atual temporada, em que os Reds apresentaram um nível competitivo absurdo para manter seu aproveitamento altíssimo na Premier League, os dois seguem com desempenhos parecidos. Desta vez Robertson fica atrás dos atacantes no número de assistências, mas não muito. São oito no total. Em compensação, Arnold mantém a liderança, aumentando ainda mais a precisão de seu jogo com 14 passes para gol. E a dupla também aparece um pouco mais para balançar as redes, com tentos importantes durante a campanha.

O Liverpool de Jürgen Klopp tem um jeito característico de jogar. É um time que, seguindo a cartilha do treinador, adora pressionar os adversários sem trégua para recuperar a bola e constrói suas jogadas com enorme velocidade. Possui um esquema tático normalmente adotado e determinados padrões. Ao mesmo tempo, os Reds conseguem se mostrar como uma formação maleável, que se dá bem contra qualquer tipo de equipe, mantendo características principais. Podem fazer uma grande atuação contra um oponente intenso como o Manchester City ou romper uma defesa fechada de um adversário que luta contra o rebaixamento.

O sucesso não é uma mera questão de encaixe, mas de uma combinação entre inteligência tática, adaptabilidade das peças e alto nível de concentração. Se precisar, o Liverpool joga nos contragolpes, mas também sabe trabalhar com a posse de bola um pouco mais, sem perder a agressividade. Em suma, por mais que os oponentes tenham um plano de jogo, isso tantas vezes não é suficiente para anular as diferentes forças da ofensiva vermelha. Mas, entre estas variações possíveis, as laterais são relativamente constantes. E, de certa maneira, é o trabalho de ambos os jogadores de lado que contribui a esta gama de variações.

Não dá para dizer o quão dependente o Liverpool é de seus laterais ou cravar que não existem outras opções no mercado. Todavia, é muito difícil de imaginar que os Reds atingiriam o mesmo sucesso sem essas duas peças vitais. Ainda que sozinhos não façam o time, o impacto de muitos de seus companheiros e do coletivo como um todo depende dos atributos de Arnold e Robertson. O lateral direito, tanto por sua idade quanto por sua evolução, é jogador para se tornar ícone em Anfield com o passar dos anos. E o mais bacana é notar o entrosamento de ambos também fora do campo, grandes amigos. Um entendimento que se nota em cada partida.

Mesmo com as laterais titulares bem guardadas, é necessário que o Liverpool pense em alternativas para o setor. Nesta Premier League, Arnold somou menos minutos em campo apenas que Van Dijk, enquanto Robertson foi o quarto mais frequente nas partidas, atrás também de Roberto Firmino. Não será simples encontrar outros jogadores que repliquem as virtudes e apresentem a mesma regularidade. Mas é preciso pensar nos laterais cada vez mais como protagonistas, como jogadores priorizados na formação de atletas e no mercado de contratações. Como melhor dupla do mundo no setor, Arnold e Robertson apontam um caminho que começa a ser replicado por outros clubes.

Num futebol onde os espaços são cada vez mais reduzidos, ter dois atletas capazes de criar essas brechas é essencial. Os laterais são chaves nesse processo, como já foram em outros tempos. Isso exige uma potência física, mas também um refinamento técnico, como o apresentado pelos dois homens do Liverpool. Basta notar que alguns dos clubes que melhor têm jogado no mundo ultimamente também vêm dando mais importância e mais destaque ofensivo aos laterais. Um jogo mais escorado no trabalho dos alas possivelmente será uma tendência crescente nos próximos anos. Em partes, o que fazem Arnold e Robertson tem um quê de evolução. É inegável o impacto de ambos.

O futebol pode criar com mais frequência laterais tão capazes? É o que pensa a própria dupla do Liverpool. Parecem conscientes nesta empreitada.“Sou lateral, não pretendo jogar em outra posição. Obviamente, havia o famoso ditado: ‘Ninguém quer crescer para ser um Gary Neville’. Mas espero que eu e Robbo possamos ajudar a mudar a ideia de que nenhuma criança quer ser lateral”, declarou Arnold, no final de 2019, ao ser questionado se o seu rendimento poderia ser ainda maior no meio-campo. O jovem também antevê os rumos que o jogo deve seguir. É um defensor da lateral como uma causa, não como uma casualidade, para que a posição deixe um dia de ser missão indesejada. Eles servem de inspiração.