Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

A decepcionante campanha cumprida até agora na temporada pelo Leicester é um caso clássico de anticlímax. Campeão inglês de 2016, o time de Claudio Ranieri vem penando na atual edição da Premier League: perdeu seus últimos cinco jogos e ocupa apenas a 17º colocação, a primeira acima da zona de rebaixamento. Apesar de quase não ter modificado seu elenco, passou a sério candidato à degola. A situação insólita tem tornado recorrente um questionamento: caso os Foxes não escapem da queda, seria o primeiro caso de campeão inglês rebaixado na temporada imediatamente posterior?

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A resposta é não, ainda que tenha ocorrido apenas uma única vez nos quase 130 anos de história da competição. Mas o rebaixamento do Manchester City campeão de 1937, com elenco repleto de jogadores de seleção e ídolos históricos do clube, logo na temporada seguinte, também causou enorme espanto na época. Especialmente por um detalhe bizarro: apesar da penúltima colocação na liga, os Citizens terminaram a temporada com o melhor ataque entre todos os clubes da elite.

Há 80 anos muita coisa era diferente no futebol inglês. Sunderland e Aston Villa, com seis títulos cada, eram os maiores campeões da liga (embora o time de Birmingham estivesse então na segunda divisão). Equipes como Preston, Brentford, Huddersfield e Grimsby, hoje há muitas décadas nas divisões inferiores, competiam na elite, que contava com 22 clubes e na qual apenas os dois últimos eram rebaixados.

Assim como talvez seja difícil crer hoje que, naqueles anos 30, o Manchester City era um clube muito mais promissor que o rival United. Os Red Devils, há mais de duas décadas sem uma grande conquista, tinham sido rebaixados em 1931 e ficaram perto de cair para a terceira divisão em 1934. Pior ainda: sofrendo com dívidas desde o fim da década anterior, estiveram próximos da falência, não fosse o dinheiro injetado no clube pelo empresário e torcedor James W. Gibson, que se tornaria o presidente do clube.

Enquanto isso, o Manchester City treinado por Wilf Wild vinha num ciclo bastante favorável. Em 1933 havia chegado à decisão da FA Cup, perdendo para o Everton. Voltaria no ano seguinte e desta vez seria vitorioso em Wembley diante do Portsmouth. No caminho até aquela final, na sexta fase da copa, a equipe jogaria para 84.659 pessoas em Maine Road na partida contra o Stoke, público recorde até hoje para jogos de clubes ingleses fora de Wembley.

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Por fim, completando o bom período, levaria o primeiro título da liga de sua história em 1936/37. Depois de um começo oscilante nas posições intermediárias, arrancaria de modo tão fulminante a partir do Boxing Day que chegaria ao título com uma rodada de antecedência, ao vencer o Sheffield Wednesday por 4 a 1 em Maine Road no dia 24 de abril.

Os Citizens terminariam aquela campanha três pontos à frente do vice-campeão Charlton e cinco em relação ao Arsenal, terceiro colocado e principal adversário na segunda metade da temporada. Nos últimos 22 jogos, sustentariam uma série invicta com 15 vitórias e sete empates, incluindo duas goleadas sobre o Liverpool (5 a 0 em Anfield e 5 a 1 em Maine Road). Marcariam expressivos 107 gols em 42 partidas. E para completar a alegria de seus torcedores, o rival United acabaria rebaixado para a segunda divisão.

Eram muitos os destaques daquela equipe de força incontestável e armada dentro do esquema WM, amplamente difundido no futebol britânico da época. A começar pelo goleiro Frank Swift, um dos maiores nomes da história do clube na posição. Na defesa, o zagueiro-esquerdo Sam Barkas chegaria a capitanear a seleção inglesa por três jogos no início da temporada seguinte. E o médio-esquerdo Jackie Bray também já era homem de seleção há algum tempo.

Mas o ponto alto era a fabulosa linha de ataque formada pelo velocíssimo ponta-direita Ernie Toseland, o meia-direita escocês Alec Herd (pai de David Herd, atacante do rival United nos anos 60), o centroavante Fred Tilson, o meia-esquerda irlandês Peter Doherty e o ponta-esquerda Eric Brook (até hoje o maior artilheiro da história do clube, com 177 gols). Em outubro de 1935, quando a Inglaterra bateu a Irlanda em Belfast por 3 a 1 pelo Campeonato Britânico, Bray, Tilson e Brook faziam parte da equipe, tornando o City a base da seleção junto com o Arsenal. Naquele dia, Tilson marcou duas vezes e Brook completou o placar.

man city 1937 - 01

Por tudo isso, quando a nova temporada começou, no fim de agosto de 1937, o City estava entre os favoritos ao título (no caso, o bicampeonato). E nem mesmo o começo oscilante foi tratado com preocupação – afinal, o mesmo havia acontecido na temporada anterior. Na verdade, o desempenho nas primeiras rodadas era até mesmo um pouco superior ao da campanha do título. Mas tudo mudaria no fim do ano.

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Em 27 de novembro, o time derrotou o Grimsby por 3 a 1. Na ocasião, ocupava a décima posição, mas apenas cinco pontos atrás do surpreendente líder Brentford (que tinha um jogo a mais). No entanto, o City perdeu os três jogos que fez em dezembro (incluindo dois contra o próprio Brentford) e completou a má fase sofrendo um 4 a 2 em casa para o Wolverhampton no primeiro dia de 1938, resultado que o colocou na antepenúltima colocação, marcando o começo do flerte com a zona de rebaixamento.

O time ensaiou uma reação em janeiro, obtendo suas duas únicas vitórias fora de casa em toda a campanha. E em grande estilo: 4 a 1 na visita ao Leicester e 7 a 1 sobre o Derby County – em quem os Citizens já haviam aplicado 6 a 1 em Maine Road, em setembro. Mas ao contrário do que havia acontecido na temporada anterior, a segunda metade da campanha foi o que enterrou o City. Entre 16 de fevereiro e 26 de março foram oito jogos com apenas dois pontos ganhos. O time ainda foi atropelado em casa pelo Middlesbrough, numa goleada de 6 a 1.

E, ao final dessa sequência, o que era apenas um flerte com a zona da degola virou namoro firme. O time só voltaria a ensaiar uma nova reação em abril, mas ainda oscilando. Venceu Chelsea (1 a 0) e Charlton (5 a 3) em sequência e chegou a golear por 7 a 1 o West Bromwich Albion, rival direto na briga da parte de baixo da tabela, mas perdeu para o Grimsby e duas vezes para o Bolton.

sam barkas

No dia 30 de abril, num último suspiro, voltou a golear. Fez 6 a 2 no Leeds em Maine Road e subiu para o 17º lugar, colocação em que chegou à última rodada. Curiosamente, somava os mesmos 36 pontos de todos os cinco clubes abaixo dele na tabela. O que o favorecia amplamente era seu excelente desempenho ofensivo, fundamental para a média acima de 1,0 no critério de desempate do “goal average” (divisão dos tentos marcados pelos sofridos).

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Na rodada final, no entanto, o poder de fogo de seu ataque não funcionou. Nem Doherty (autor de 23 gols na liga), nem Brook (que marcara 16), nem Herd (com 12 tentos na conta) anotaram o gol que poderia ter garantido a salvação sem precisar de outros resultados. O time perdeu por 1 a 0 diante do Huddersfield, fora de casa, com o adversário marcando nos minutos finais – embora Doherty tenha sempre jurado que uma bola chutada por ele teria entrado e acertado a estrutura de sustentação da rede, apesar de o árbitro considerar que ela bateu na trave.

Ainda assim havia chance de escapar: bastava que dois dos cinco adversários na briga contra a degola também perdessem. Confiante, o técnico Wilf Wild não se desesperou com o resultado ao apito final no estádio de Leeds Road naquela tarde de 7 de maio. Nos vestiários, porém, foi informado da inacreditável combinação de resultados que havia acabado de ser confirmada.

Para começar, o Birmingham, mesmo jogando como visitante, não teve dificuldade para golear o Leicester por 4 a 1. O Stoke derrotou o Liverpool por 2 a 0 em casa e também ultrapassou o City na tabela. Pelo mesmo placar, o Grimsby bateu o Chelsea. E o Portsmouth passou por cima do Leeds com um tranquilo 4 a 0. Apenas o West Brom, derrotado em Middlesbrough por 4 a 1, não venceu. Faria companhia aos Citizens como a dupla rebaixada.

A inversão de expectativas ao fim da temporada 1937-38 foi realçada pelo fato de o Manchester City, apesar do descenso, ter contado novamente com o ataque mais positivo entre todos os clubes da primeira divisão. Foram 80 gols marcados nos 42 jogos, um a mais que o Everton e três a mais que o campeão Arsenal. A defesa, no entanto, foi a vilã, deixando passar 77 gols, menos apenas que o Derby County e o também condenado West Bromwich Albion. Nem mesmo o fato de as goleadas a favor terem sobrepujado com folga as contra conseguiu salvar o clube. Pela primeira vez (e, ainda hoje, a única), um  time foi rebaixado no Campeonato Inglês com mais gols marcados do que sofridos.

frank swift

A campanha de extremos não para por aí: se por um lado os Citizens tiveram o mesmo número de vitórias (14) que o oitavo colocado Sunderland, também foram os campeões de derrotas – 20, juntamente com o West Brom. A péssima campanha fora de Maine Road (a pior da liga, empatada com a do Portsmouth) também contribuiu decisivamente – e nisso reside uma semelhança daquele Manchester City com o atual Leicester, que ainda não venceu como visitante e soma apenas três pontos nos 39 que disputou fora do King Power Stadium.

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Naquele momento, iniciou-se o estigma por uma “doença” que afetava o Manchester City em seus momentos mais promissores: a chamada Cityite. Uma sensação que o escritor Colin Shindler, autor do livro ‘Como o Manchester City arruinou minha vida’, definiu assim: “Ele nunca entendeu que a Cityite não é uma infecção bactericida que pode ser curada com antibióticos de gerir um clube de maneira profissional. Cityite é uma deficiência de vitaminas com a qual nascemos. Nós podemos tomar suplementos para reforçar nosso sistema imunológico, mas eles não são fortes o suficiente para lidar com doenças como Thankin Shinawatra ou a contratação de Jamie Pollock do Bolton”. A Cityite, ao menos momentaneamente, só veio a se resolver com o período de glórias vivido em Maine Road no final da década de 1960 e com o atual ‘coquetel vitamínico’ providenciado pelo dinheiro de Nasser Al-Khelaïfi.

E a queda do City logo após o título também seria crucial para reordenar a divisão de forças em Manchester. Naquela mesma temporada em que a metade azul da cidade descia de divisão de maneira surpreendente, o United retornava após a queda do ano anterior. A temporada de 1938-39 seria a última completa antes da interrupção do futebol pela Segunda Guerra Mundial. Em 1945, ao fim do conflito, o United recorreria a um ex-jogador do rival dos anos 30, o antigo médio-direito Matt Busby, para comandar a reformulação de seu elenco. Enquanto os Red Devils se tornaram uma das equipes mais fortes do país, o City perdeu muito de seu poderio, tendo dificuldades para se estabilizar na elite.

Os caminhos dos rivais voltariam a se cruzar em 6 de fevereiro de 1958, quando Frank Swift, goleiro daquela equipe do City, seria um dos mortos em consequência do acidente aéreo de Munique o qual dizimou o elenco dos históricos “Busby Babes” do United. Swift, que passara a trabalhar na imprensa esportiva após encerrar a carreira, fazia a cobertura da viagem dos Red Devils para o jornal “News Of The World”.