O Mundial de Clubes de 2000 costuma provocar debates acalorados, mas a competição também suscita boas memórias. E a quem gosta de olhar o futebol além dos grandes centros, o torneio da Fifa garantiu visibilidade a uma das melhores equipes já formadas no futebol mexicano. O Necaxa conquistou títulos importantes ao longo dos anos 1990 e teve a cereja de seu bolo na viagem ao Brasil. Los Rayos fizeram um bom papel no Mundial, arrancando empates contra Manchester United e Real Madrid, além de venderem caro a derrota para o Vasco. Ao final, a terceira colocação se mantém como uma das melhores campanhas de um representante da Concacaf no certame – e foge do histórico decepcionante dos compatriotas a partir de 2005.

Fundado em 1923, como um clube ligado à companhia elétrica local, o Necaxa possui uma história de altos e baixos. Grande força do Campeonato Mexicano nos tempos amadores da década de 1930, com quatro títulos, Los Electricistas encerraram suas atividades em 1943 e retornaram já como profissionais na década de 1950. O time mantinha sua relevância, mas lidava com dificuldades financeiras. Era abraçado por uma diminuta e fanática torcida. Já em 1971, a chegada de um empresário espanhol sanou as dívidas, mas mudou a identidade do repaginado “Atlético Español”. A mudança gerou enorme controvérsia entre os torcedores, embora os mexicanos tenham conquistado sua primeira Concachampions logo depois, em 1975.

Nesta época, a resistência ao Atlético Español costumava fazer uma pontinha na televisão. O humorista Ramón Valdés era um desses doentes pelo clube e transformou a paixão em bordão de ‘Don Ramón’, o Seu Madruga, seu personagem no seriado Chaves. “Yo le voy al Necaxa” era uma maneira de ressaltar a valentia diante dos sofrimentos e uma visão alternativa do mundo, fiel ao clube mesmo com seu desaparecimento. Além disso, as flâmulas do Atlético Español faziam parte da decoração de sua casa. O retorno às origens, ironicamente, aconteceu por intermédio da Televisa – a emissora responsável pelo Chaves. A rede de televisão comprou o clube em 1982 e retomou o nome original de Necaxa.

Após anos lutando contra o rebaixamento no Campeonato Mexicano, o Necaxa restabeleceu sua grandeza na década de 1990. E a história se transformou a partir de 1989. Afinal, Los Rayos deram a sorte de ganhar Álex Aguinaga para seu elenco. Aos 21 anos, o meia do Deportivo Quito se destacou na Copa América disputada no Brasil. O Equador não passou de fase, mas fez uma campanha surpreendente e conseguiu derrotar o Uruguai, além de empatar com a Argentina. Logo, o armador se tornou um nome bastante requisitado no mercado.

Os mexicanos se anteciparam aos movimentos e fizeram a primeira oferta a Aguinaga. Ele, então, se apalavrou com o América. O Milan também se interessou pelo garoto e Fábio Capello, então membro da comissão técnica, tentou levá-lo para os então campeões europeus. Da mesma maneira, o Millonarios ofereceu uma fortuna, dez vezes maior que o salário prometido pelos mexicanos. Contudo, fiel à sua palavra, o equatoriano preferiu manter o seu trato e partiu ao México. Ele só teria uma surpresa quando desembarcou na capital: não foi recebido por representantes do América. Com muitos estrangeiros no elenco, as Águilas não podiam registrar o reforço e a Televisa, dona de ambos os clubes, resolveu o levar ao Necaxa.

Aguinaga, junto com outros grandes jogadores, elevaria a representatividade do Necaxa no Campeonato Mexicano e na Concachampions durante aqueles tempos. Por suas conquistas, os Rayos receberam o apelido de “Equipe da Década” nos anos 1990. Comandando todos esses títulos, o equatoriano seria também votado como o “Craque da Década” em 2000. Com seus calções largos e as inconfundíveis madeixas loiras presas por um rabo de cavalo, ele desfilou sua maestria nos gramados mexicanos, primando pela qualidade para bater na bola e pela visão de jogo excepcional. E sua importância é melhor explicada pelas anedotas envolvendo outros personagens importantes do México.

Uma dessas figuras a cruzar o caminho de Aguinaga foi Roberto Gómez Bolaños. Como se sabe, Chespirito era torcedor do América, mas colocava o equatoriano como um de seus maiores ídolos e até admitiu vestir a camisa alvirrubra em uma homenagem realizada em 2000, recebido em campo pelos filhos do meia. O criador de Chaves e Chapolin virou amigo do maestro, a ponto de ir ao seu jogo de despedida, além de citá-lo na própria autobiografia. “Aguinaga é um equatoriano que deu ao México o melhor exemplo do que deve ser um jogador profissional, com atributos de qualidade e honestidade em campo, e de um grande ser humano em todos os momentos. Álex fala comigo com frequência, mesmo morando no Equador, e sinto orgulho em contar isso”, escreveu o próprio Chespirito, no livro lançado em 2006.

Já outra personalidade que influenciou a história de Aguinaga no futebol foi Ernesto Zedillo, presidente do México entre 1994 e 2000. A cada título do Necaxa, a Televisa costumava remanejar jogadores ao América, que encarava uma enorme seca no Campeonato Mexicano. O melhor desses atletas rojiblancos, porém, nunca foi para o outro lado da Cidade do México. Zedillo, torcedor dos Rayos, chegou a pedir expressamente aos executivos do canal que a transferência do equatoriano nunca acontecesse. E assim se cumpriu.

Os títulos vieram aos montes para o Necaxa a partir de 1994, a começar pela Recopa da Concacaf naquele ano. Já em 1995/96, aconteceu o feito mais relevante no cenário nacional, quando o clube encerrou um jejum de 56 anos sem conquistar o Campeonato Mexicano. Treinado por Manuel Lapuente, Los Rayos contavam com um timaço, sobretudo do meio para frente – com Alberto García-Aspe, Ivo Basay, Ignacio Ambriz, Ricardo Peláez e Luis Hernández. Os rojiblancos ergueram a taça após o triunfo sobre o Cruz Azul na decisão e também faturaram a Copa do México. Na temporada seguinte, o Necaxa buscou o bicampeonato nacional, na última edição anual da liga – os torneios semestrais começaram em seguida. A equipe superou na decisão o Atlético Celaya, de Emilio Butragueño.

O Necaxa até poderia ter sido tricampeão, mas perdeu a final do Torneio de Inverno de 1996 (nomenclatura do Apertura na época) para o Santos Laguna. Também ficou em segundo no quadrangular final da Concachampions, levada pelo Cruz Azul. E a saída de Lapuente à seleção, bem como de parte dos craques, não impediu que a hegemonia se renovasse em 1998. O clube arrematou o título do Torneio de Inverno sobre o Chivas Guadalajara, seis meses depois do vice no Torneio de Verão (o Clausura) contra o Toluca. Aguinaga permanecia como protagonista, acompanhado agora por estrelas como os veteranos Carlos Hermosillo e José Manuel de la Torre. Já o comando técnico estava sob o encargo de Raúl Arias, antigo assistente de Lapuente. Seria ele o condutor da reconquista da Concachampions, 24 anos depois.

Naquela época, o principal torneio da Concacaf se concentrava em apenas uma semana, sediado em uma cidade pré-definida. O Necaxa viajou para Las Vegas no fim de setembro de 1999, onde se encontraria com adversários de Estados Unidos, Honduras, Costa Rica e Trinidad & Tobago. Os alvirrubros precisaram entrar em uma fase preliminar, na qual superaram o Los Angeles Galaxy. Depois, bateram Saprissa e DC United, até o duelo com o Alajuelense na decisão. Os costarriquenhos abriram o placar com um gol contra, mas Aguinaga buscou o empate no início do segundo tempo com um gol de voleio fabuloso. Já o uruguaio Sergio Vázquez marcou o gol do título, com a virada por 2 a 1. Além da taça, Los Rayos também carimbavam o passaporte ao Mundial de 2000, que seria organizado de maneira inédita pela Fifa.

A prática de levar os jogadores do Necaxa para o América estava a todo vapor naquele momento. Apesar do sucesso dentro de campo, Los Rayos não atraíam tanto público e a rentabilidade do projeto da Televisa era colocada em xeque. Assim, alguns atletas importantes deixaram o elenco após o título do Torneio de Inverno de 1998. A perda mais dolorosa aconteceu já em dezembro de 1999, após a eliminação para o Cruz Azul nos mata-matas do Campeonato Mexicano. Hermosillo era o mais novo nome a pular o muro e a se juntar ao América, mesmo às vésperas do Mundial de Clubes. Mas não faria tanta falta, no fim das contas.

Aos 31 anos, Aguinaga era a referência do Necaxa e usava a braçadeira de capitão. Principal alvo dos passes do camisa 7, Agustín Delgado aproveitava o entrosamento da seleção equatoriana e começava a fazer fama. O centroavante de 25 anos tinha brilhado na campanha do Barcelona de Guayaquil rumo à final da Libertadores em 1998 e logo estouraria nas Eliminatórias da Copa de 2002, que ajudou a levar seu país ao primeiro Mundial. Antes disso, virou ídolo do Necaxa. Já outro destaque estrangeiro no ataque era Cristian Montecinos, chileno comprado do Colo-Colo pouco antes do Mundial de Clubes e que ganhou suas primeiras convocações à seleção em 1999. Chamava atenção pela movimentação e pelo cabelo descolorido, com o desenho de um raio.

Herói na Concachampions, Vázquez costumava ser uma alternativa para o segundo tempo. O uruguaio tinha sido contratado pelo Necaxa em 1997, após uma passagem no futebol chileno, e tinha sua importância no apoio. Seu compatriota no elenco era o zagueiro Andrés Scotti, contratado junto ao Huachipato e que ainda não tinha se transformado em atleta da Celeste. Também havia o argentino Hernán Vigna, volante em início de carreira, que antes havia defendido as cores de Boca Juniors e Cádiz.

Entre os mexicanos, o nome mais respeitável era o de Ignacio Ambriz, utilizado a partir do segundo tempo. Às vésperas de completar 35 anos, o volante tinha um currículo extenso, inclusive como capitão da seleção mexicana na Copa do Mundo de 1994. Também estava no meio Luis Ernesto Pérez, dono da camisa 8. Recém-promovido da base e eleito a revelação do Campeonato Mexicano em 1999, logo se provaria jogador com nível de seleção, presente na Copa de 2006. E mais atrás, entre outros atletas de El Tri, o esteio era Sergio Almaguer, defensor que acumulou passagens por vários clubes até ser levado pelos alvirrubros em 1997. Ex-atacante jogando como líbero, se mandava ao ataque e anotava muitos gols.

E uma história praticamente esquecida é que o Necaxa quase reforçou seu elenco com um brasileiro para o Mundial de Clubes: ninguém menos que Bebeto. O atacante vivia o declínio de sua carreira e, próximo dos 36 anos, atuava em outro clube mexicano, o Toros Neza. Cientes da insatisfação do tetracampeão em sua equipe, os rojiblancos tentaram fechar negócio, mas as conversas não avançaram por causa dos valores pedidos. “O Bebeto me interessava muito, mas não tivemos condições financeiras de contratá-lo para o Mundial. Foi uma pena”, lamentou Arias, em entrevista ao jornal O Globo, naquela época.

Mesmo com qualidade no papel e atravessando uma fase vitoriosa, o Necaxa não figurava exatamente entre os favoritos ao Mundial de Clubes. As atenções se concentravam sobre sul-americanos e europeus – ainda mais pelo impacto de seus concorrentes. O Grupo B também era composto pelo Vasco, que acabara de juntar novamente a dupla Edmundo e Romário, além de contar com uma verdadeira constelação em todas as outras posições – incluindo Mauro Galvão, Juninho Pernambucano, Felipe e Ramón. O Manchester United, por sua vez, carregava expectativas pelo 1999 mágico. David Beckham, Ryan Giggs, Roy Keane, Dwight Yorke e Andy Cole davam motivos suficientes para se resguardar contra os Red Devils. Já o South Melbourne, campeão da Oceania, era o claro saco de pancadas.

O Necaxa chegou ao Rio de Janeiro ainda em dezembro de 1999. Os jogadores puderam experimentar o réveillon em Copacabana, onde assistiram à queima de fogos de artifício e brindaram com champanhe. Sem tanto ritmo de jogo, um mês depois da eliminação no Campeonato Mexicano, a equipe fazia treinos intensos no CFZ. “Se ficarmos parados, não nos daremos bem na competição. Temos que nos adaptar. O importante é pegar ritmo”, dizia Raúl Arias, ao Jornal do Brasil. O clima era leve. Dois dias antes da estreia, passaram a manhã na praia de São Conrado e na favela da Rocinha, distribuindo camisetas com o escudo do clube para os cariocas.

Um momento bacana na preparação do Necaxa aconteceu quando Aguinaga se encontrou com Zico. O Galinho de Quintino era o ídolo de infância do equatoriano. O maestro rojiblanco declarou ter se espelhado no camisa 10 da Gávea e foi reverenciá-lo, pedindo um autógrafo no próprio uniforme. “Você é meu professor. É um prazer estar treinando aqui, na sua casa. Essa camisa autografada é para ficar na história”, afirmou Aguinaga. Segundo o Jornal do Brasil, o meia estava “com os típicos olhos brilhantes da idolatria”. Zico devolveu a gentileza: “Aguinaga não é um simples fã. É meu amigo e um grande jogador”.

Num momento em que a Copa do Mundo parecia apenas um sonho distante ao Equador, Aguinaga valorizava o Mundial de Clubes. “Infelizmente, não tive a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo. Este torneio será minha Copa”, confessou, ao jornal O Globo. A competição também oferecia uma chance do craque voltar ao Maracanã após quase 14 anos. Sem nunca ter enfrentado a seleção brasileira no estádio, sua única passagem pelo mítico gramado havia acontecido em 1986. Com 18 anos recém-comemorados, o prodígio do Deportivo Quito enfrentou o Bangu pela fase de grupos da Libertadores, em empate por 3 a 3.

A estreia do Necaxa no Mundial aconteceu em 6 de janeiro, logo contra o Manchester United. À imprensa, alguns jogadores mexicanos demonstravam certo deslumbramento em enfrentar aquele que era considerado o melhor time do mundo no momento. No entanto, os rojiblancos também não se intimidavam e prometiam jogar de igual. “Olho para o United e vejo o time cheio de alguns dos melhores jogadores do mundo. Eles se provaram na Champions, são ótimos. Ganharam muitos títulos e sei que também querem este. Nós os respeitaremos, mas não os temeremos. Queremos ganhar esse título tanto quanto e somos uma equipe com muita fome de bola. Faremos de tudo para encará-los”, afirmou Aguinaga, às vésperas do duelo.

Mais de 50 mil pessoas estiveram no Maracanã para ver Necaxa x Manchester United, prévia de Vasco x South Melbourne no mesmo dia. E os mexicanos ficaram à beira de surpreender os ingleses, que pareciam com o freio de mão puxado no calor carioca. Los Rayos começaram dominando o embate e fizeram por merecer o primeiro gol, aos 15 minutos. Aguinaga driblou Jaap Stam e sofreu falta na entrada da área. Montecinos cobrou de canhota e mandou na gaveta de Mark Bosnich. O United tentava responder, mas a situação ficou mais difícil aos 43 do primeiro tempo, quando Beckham entrou de sola na coxa de José Milián, que o provocara pouco antes, e recebeu o vermelho direto.

Ainda assim, o Necaxa desperdiçou a chance da vitória. O time seguiu pressionando no início do segundo tempo e perdeu um punhado de chances claras. Montecinos falhou com o gol aberto, enquanto Bosnich pegou um pênalti de Aguinaga aos 13 minutos. O United acordou no final, mas o goleiro Hugo Pineda também defendeu uma penalidade cobrada por Dwight Yorke. O atacante trinitino se redimiria apenas aos 37, com a ajuda de Ole Gunnar Solskjaer. Saindo do banco, o talismã cruzou da direita e Yorke apareceu livre para empatar. O placar de 1 a 1 era um alívio aos ingleses e poderia ter sido ainda melhor aos mexicanos.

Depois do jogo, Sir Alex Ferguson esbravejou e disse que a expulsão de Beckham foi “injusta” – quando as imagens não deixavam dúvidas quanto às travas da chuteira cravadas na perna do adversário. Raúl Arias, por sua vez, exaltou o “domínio” exercido por sua equipe. Já o volante Vigna resumiu o sentimento do Necaxa pelo que esteve próximo de acontecer: “Antes da partida, o empate era um resultado a ser muito comemorado. Mas, depois, nas circunstâncias do jogo, não poderia ter sido mais amargo. Acho que o Manchester subestimou não o Necaxa, mas todo o torneio. Beckham estava provocando desde o início”.

A chance do Necaxa se reerguer aconteceu no segundo jogo, contra o South Melbourne, horas depois do Vasco 3×1 Manchester United. Montecinos abriu o placar aos 19, cobrando pênalti, e ainda desperdiçou outra cobrança na sequência. O segundo tento seria de Tín Delgado, livre para completar o cruzamento da esquerda aos 29. John Anastasiadis até descontou nos acréscimos do primeiro tempo, mas Salvador Cabrera fechou a conta na etapa complementar, em mais um penal sofrido por Delgado.

Na rodada final do Grupo B, o Necaxa pegou o Vasco e tinha chances de se classificar à decisão. Para tanto, os mexicanos precisariam derrotar os cruz-maltinos. A equipe de Antônio Lopes investiu pesado à competição, com cinco reforços estelares: Romário, Júnior Baiano, Jorginho, Válber e Alexandre Torres. O Baixinho tinha sido o negócio mais bombástico, após deixar o Flamengo semanas antes, em litígio com a diretoria. E a prova maior da força vascaína viera com o show sobre o United na partida anterior.

Até por isso, os rojiblancos reafirmavam seu respeito. “O Vasco é o favorito, o time que tem grandes jogadores e obrigação de chegar à final. Mas não é invencível. Precisamos jogar com muita concentração e aproveitar as oportunidades”, declarou o técnico Raúl Arias. O Vasco, inclusive, contava com um espião particular para o jogo: Tita. Assistente de Antônio Lopes naquele momento, o ex-meia passou informações sobre a maioria dos jogadores adversários. Ele havia passado sete anos jogando por clubes mexicanos, até encerrar a carreira em 1997.

Antes do embate, os torcedores de Vasco e Necaxa confraternizaram. Alguns mexicanos presentes no Rio visitaram São Januário e terminaram acolhidos pelos adversários. Até mesmo Eurico Miranda se rendeu, presenteando os visitantes com uniformes vascaínos completos. “Estou abrindo uma exceção para os mexicanos, que nos receberam bem e têm uma ligação muito forte com o Brasil. Eles não são estrangeiros, estão em casa. Até permiti a entrada deles nas sociais, onde, como vocês sabem, não é permitido o acesso de torcedores trajando outros uniformes”, destacou o então vice-presidente da agremiação.

Quando a bola rolou, o Necaxa teve a classificação nas mãos por alguns minutos, diante de 45 mil no Maracanã. Aproveitando a avenida no lado direito da defesa, Aguinaga recebeu a bola ajeitada por Delgado e invadiu a área com extrema liberdade. O meia chutou cruzado, na saída de Helton, e deixou sua equipe em vantagem logo aos cinco minutos. O Vasco, ao menos, reagiu aos 14. Após escanteio cobrado por Ramon, Odvan subiu sozinho no segundo pau e cabeceou às redes para empatar. O zagueiro, aliás, havia substituído o lesionado Júnior Baiano logo aos nove minutos. Os cruzmaltinos seguiram melhores até o intervalo, com Pineda salvando as sempre perigosas faltas de Ramon e Romário perdendo gols que não costumava desperdiçar.

Já no segundo tempo, depois de algumas boas chances de Aguinaga e Delgado, Romário se tornou o herói. Naquela noite, com Edmundo poupado por dores na coxa, o Baixinho compôs a linha de frente ao lado de Donizete. Os dois construíram o gol da vitória por 2 a 1 aos 24 da etapa final. O Pantera deu o passe, Romário girou sobre o marcador e entrou livre na área, tirando do alcance do goleiro. No fim, Edmundo entrou e viu de perto Vázquez carimbar o travessão. Caso o empate saísse, de qualquer maneira, ainda beneficiaria o Vasco.

E se o Necaxa não conseguiu chegar à final contra o Corinthians, pelo menos poderia disputar a decisão do terceiro lugar. Com melhor saldo de gols, Los Rayos encerraram a fase de grupos à frente do Manchester United e enfrentariam o Real Madrid.

Eliminado também no saldo de gols pelo Corinthians, o Real Madrid pouparia parte de suas estrelas para a decisão do terceiro lugar. Fernando Redondo, Roberto Carlos, Nicolas Anelka e o adolescente Iker Casillas ficaram no banco. Vicente del Bosque, ao menos, ainda mandou a campo Raúl, Fernando Hierro, Manolo Sanchís, Fernando Morientes, Sávio e Steve McManaman. A partida, que antecedia a finalíssima naquele dia, contou com 35 mil presentes no Maracanã. A vitória valia US$4 milhões de premiação, o que não foi suficiente ao empenho dos merengues.

Após a pressão inicial dos mexicanos, o Real Madrid saiu em vantagem, com o primeiro gol aos 15 minutos. Morientes ajeitou de cabeça e Raúl bateu de primeira, num bonito sem-pulo, que também contou com a falha do goleiro Pineda. O Necaxa reagiu e, com mais gás, empatou aos 13 do segundo tempo. Aguinaga acertou um lançamento fabuloso do campo de defesa e Delgado disparou, ganhando de Aitor Karanka na corrida e arrematando ao lado do goleiro Albano Bizzarri. O placar de 1 a 1 prevaleceu, mesmo com uma bola na trave de Morientes, e a definição ficou para os pênaltis.

Na marca da cal, o Necaxa também precisou virar a contagem. Um novato Samuel Eto’o e Iván Helguera converteram as duas primeiras cobranças do Real Madrid, enquanto Salvador Cabrera mandou a segunda dos mexicanos no travessão, depois que Vázquez havia assinalado o tiro inaugural de sua equipe. A reação começou na terceira série de chutes, depois que McManaman errou o alvo e Pérez igualou ao Necaxa. Morientes e Aguinaga acertaram na sequência. Por fim, depois que o lateral da base Javier Dorado isolou o quinto chute madridista, Tín Delgado confirmou o bronze aos Rayos com o triunfo por 4 a 3. Os jogadores alvirrubros puderam receber as medalhas com orgulho, diante dos cabisbaixos espanhóis. A história se completava.

Recentemente, em entrevista ao Fox Sports mexicano, Aguinaga relembrou o significado da campanha: “Estava tudo planejado para que os quatro dominassem o torneio. A gente se meteu na festa dos grandes. Felizmente, terminamos com um terceiro lugar muito honroso. Queríamos mostrar ao mundo do que éramos capazes e que tínhamos um bom futebol. Vivíamos um momento importante e quisemos colocar a cereja no bolo. A motivação era máxima. Estávamos cientes do que tínhamos que fazer para vencer, sempre havia um compromisso muito forte entre nós, sabíamos que precisávamos deixar tudo em campo. Assim o fizemos”.

Além disso, na época, a própria Fifa havia elogiado o Necaxa em seu relatório técnico: “A surpresa do primeiro Mundial foi, definitivamente, o Necaxa. Taticamente, tecnicamente e mentalmente, eles foram um time homogêneo. Os mexicanos apresentaram uma equipe bem organizada e espirituosa. O técnico Raúl Arias pode se orgulhar de seus jogadores – eles enriqueceram a competição e terminaram com um ótimo terceiro lugar. Os mexicanos apresentaram um estilo moderno do 4-4-2. O sucesso se concentrou na boa qualidade técnica geral do clube e no excelente entendimento tático”.

O Necaxa voltaria à América do Sul mais duas vezes naqueles anos. O México integrou a Copa Merconorte a partir de 2000. Os rojiblancos caíram na primeira fase em 2000, mas conseguiram alcançar as semifinais em 2001, eliminados nos pênaltis pelo Millonarios, futuro campeão. Já no Campeonato Mexicano, a última grande campanha aconteceu no Torneio de Verão de 2002. Com uma equipe bastante diferente daquela que disputou o Mundial, os Rayos perderam a final para o América. O time de Raúl Arias até venceu a ida por 2 a 0, mas tomou o troco na volta, com o triunfo das Águilas por 3 a 0, com gol de ouro. Manuel Lapuente era o treinador crema, encerrando um jejum de 13 anos do clube. Aguinaga, além do mais, foi desfalque. A decisão aconteceu no fim de maio de 2002, quando o veterano já estava concentrado no Japão para realizar o sonho de disputar uma Copa do Mundo com o Equador.

O Necaxa ruiria pouco depois, perdendo parte de sua identidade a partir do segundo semestre de 2003. Diante das médias de público que não passavam dos 15 mil pagantes mesmo nos anos vitoriosos, a Televisa avaliou que era melhor tirar os Rayos do Estádio Azteca. A ameaça vinha desde as temporadas anteriores, mas o impacto do time ajudava a segurá-lo na Cidade do México. No entanto, a partir do Apertura 2003, os rojiblancos começaram a mandar seus compromissos em Aguascalientes – cidade de 1,3 milhão de habitantes a 480 quilômetros da capital. A transferência poderia até fazer sentido financeiramente. Porém, alijou o clube de sua fiel torcida e interrompeu aquela era vitoriosa.

Aguinaga também deixou o Necaxa no segundo semestre de 2003. Aclimatado à Cidade do México, preferiu não se mudar a Aguascalientes e assinou um contrato com o Cruz Azul. O veterano permaneceu com os Cementeros apenas por seis meses, antes de retornar a Quito em 2004, contratado pela LDU. Encerraria sua carreira na temporada seguinte, aos 37 anos, ajudando seu novo clube a fazer bons papéis na Libertadores. Além do mais, ainda participou de sua oitava Copa América em 2004, despedindo-se da seleção com o recorde da competição.

Ao todo, Aguinaga defendeu o Necaxa por 14 anos. Conquistou sete títulos com a camisa rojiblanca e disputou 543 partidas, recorde da agremiação. A grandeza dos Rayos durante a era profissional se restringe praticamente à passagem do maestro pelo México. E aquele Mundial de Clubes seria um marco importante nesta história, justamente por sublinhar ao resto do planeta o ápice da “Equipe da Década”. O torneio escancarou a idolatria e o protagonismo de um craque que representa demais ao futebol mexicano.

Duas décadas depois dos sonhos no Maracanã, o Necaxa tenta se restabelecer no Campeonato Mexicano. O clube amargou duas passagens pela segunda divisão nacional a partir de 2009 – a última delas, durando cinco anos. Desde a saída da Televisa, em 2014, as perspectivas melhoram e os Rayos voltaram a ser mais competitivos na Liga MX. Ainda assim, não conseguem repetir em Aguascalientes o sucesso de seus melhores dias na Cidade do México. Talvez se um novo Aguinaga surgir, para guiar outra vez a sofrida torcida rojiblanca ao topo do futebol nacional.