Imagine o futebol sem narradores, ou sem narradores como você se acostumou a ouvir na TV e no rádio. Impossível. Impossível porque, sem os narradores, o futebol não seria o futebol que você conhece. Afinal, o papel do sujeito com microfone na mão não é descrever jogadas. Isso qualquer um faria, até o sistema do Fifa e do PES se tornou capaz disso quando o arquivo de frases pré-gravadas se tornou grande o suficiente. O papel social do narrador é trabalhar como um tradutor simultâneo da emoção, transformando ações em um gramado no sentimento que domina cada céula do torcedor. Muitos são ótimos nessa tarefa, alguns são mais que ótimos. Mas poucos atingem um patamar quase artístico. José Silvério é um deles.

Nesta segunda, enquanto os Estados Unidos – e os fãs de NFL do Brasil – repercutiram o anúncio de aposentadoria do quarterback Peyton Manning, um outro fim de carreira ficou ofuscado. O narrador que fez história na rádio Jovem Pan e estava desde 2000 na Rádio Bandeirantes anunciou que este será seu último ano nas cabines de futebol pelo mundo.

Para uma geração de amantes de futebol, nascidos entre o final dos anos 70 e o meio dos anos 80, Silvério era a referência. Tem a dose certa de emoção, um grito de gol potente e vibrante (perdeu um pouco disso nos últimos anos, compreensível a essa altura da carreira), mas sem exagerar no tom. Sempre descreveu as jogadas com precisão, sem o ritmo acelerado de narrador de turfe ou aviso de contra-indicações no final de propaganda de remédio. Para isso, varia o tom de voz como forma de acrescentar informação sem usar palavras. Não deu certo na TV, onde sempre pareceu deslocado, mas era magistral no rádio.

Em uma época sem pay-per-view e TV a cabo acessível a poucos, ouvir o radinho era a única forma de saber oq ue acontecia nos campos do mundo no fim de semana. Para mim, e para muitos de minha época, todo domingo havia um encontro marcado com Silvério e o resto da equipe da Pan (Milton Neves, Flávio Prado e Wanderley Nogueira). Não importa se seu time já havia jogado no sábado ou se o domingo seria irritante com uma goleada do seu rival sobre um time do interior inofensivo. Não ouvir um jogo com Silvério narrando era sinal de um domingo incompleto, como não encontrar a família para comer uma macarronada.

Nas últimas horas, falei com amigos torcedores de diversos clubes paulistas, e todos eles tinham alguma narração memorável do Silvério para citar. Aquela que valia ouvir infinitas vezes, aquela que até hoje é a descrição mais perfeita da explosão interna que ocorreu no gol decisivo.

Pedi para me indicarem alguns, e abaixo está a lista com alguns dos momentos citados (sim, o Corinthians foi muito mencionado).

Corinthians 2×0 Boca Juniors, 2012

“Ele leva o torcedor do Corinthians para o espaço, para o paraíso. O tão sonhado título está super perto. Ele já pode ser tocado. Já pode ser experimentado. E eu vou descer para te abraçar, Emerson. Em nome da torcida do Corinthians na hora do jogo: Aquele abraço.”

São Paulo 2×1 Corinthians, 2011

“Festa em Barueri. Prêmio para Rogério Ceni. Prêmio para o torcedor. Prêmio para o futebol. Nove minutos, segundo tempo. No dia 27 de março de 2011, o centésimo gol na carreira de Rogério Ceni. São Paulo 2, Corinthians 0. Parabéns Rogério Ceni! Parabéns, torcedor do São Paulo!”

Palmeiras 4×0 Corinthians, 1993

Essa foi uma das narrações mais famosas de Silvério. Quando Evair faz o gol da vitória na prorrogação, que sacramentava na prática o fim da fila de 17 anos do Palmeiras, ele diz um “Eu vou soltar a minha voz” (alguém zoou o áudio nessa gravação, colocando o hino palmeirense por cima do grito de gol. Uma pena). Disseram que o narrador era palmeirense. Dois anos depois, ele repetiu a frase quando o Corinthians deu o troco, com o gol de Elivélton na prorrogação garantindo o título paulista. Também repetiu quando o Brasil foi penta em 2002, confira no último vídeo dessa página.

Santos 3×2 Corinthians, 2002

“É o gol do título. Pode comemorar, santista. Quem tem Robinho tem meio caminho andado pra vitória. Ele de novo desequilibrou. Ele foi lançado, penetrou na lateral de área, numa floresta de pernas corintianas. Ele viu o Elano chegando e rolou pra ele. Elano veio em velocidade ao encontro da bola, pegou firme e botou no fundo do gol.” Aí, para o deleite dos defensores de campeonatos com finais, uma ode ao mata-mata no último jogo desse formato na história do Brasileirão: “Elano, camisa 11, tira o sufoco do Santos. O Santos é campeão brasileiro de 2002, e só pode comemorar aos 44 do segundo tempo. Um gol difícil, um gol sofrido.”

Portuguesa 7×2 São Paulo, 1999

“Ricardo Lopes, camisa 5! Do meio-campo, do grande círculo. Ele dominou, o goleiro Roger estava adiantado. Alexandre deixou, Ricardo Lopes dominou e deu um bico. A bola passou por todo o campo do São Paulo pelo alto. Roger tentou voltar no desespero – foi cômico – e aí escorregou enquanto a bola pelo alto entrava no fundo do gol do São Paulo.”

Brasil 2×0 Alemanha, 2002

“Rivaldo dominou pela meia esquerda e encheu o pé. Oliver Kahn soltou nos pés de Ronaldo. E a bola, cheia de amor, pedindo ‘me chuta, me chuta, me chuta’. E ele respondeu com amor. Só tocou, rolando para o fundo do gol alemão. E as asas da felicidade baixaram sobre o estádio de Yokohama e trouxeram um grito de alegria pra torcida brasileira. Eu vou soltar a minha voz. Gooooooooooooooooooooooooool do Brasil!”


Os comentários estão desativados.