A imagem possui uma singeleza tremenda. Em meio a um cenário árido, o garoto se veste com o seu sonho. O saco listrado lhe permitiu se sentir como seu super-herói. Se algumas crianças amarram uma capa no pescoço como o Super-Homem ou um barbante no pulso como a teia do Homem-Aranha, o menino se fantasiou de Messi. O número 10 e o nome, pintados à mão, o transformam no ídolo. E o plástico, como um colete, já é o suficiente para levar sua mente longe. Colete salva-vidas, em meio à realidade que põe em risco sua existência dia após dia.

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Desde a última quinta-feira, a imagem se espalhou pela internet – aqui no Brasil, viralizada principalmente pelos confrades do Cenas Lamentáveis. Mas com pouquíssimas informações. O menino viveria em Dohuk, cidade de um milhão de habitantes no norte do Iraque. A região, próxima às fronteiras com a Síria e com a Turquia, se tornou um dos centros do intrincado conflito que se desdobra por lá. Enquanto o Estado Islâmico expande sua influência, o governo turco bombardeia os limites da cidade de maioria curda. E a população de refugiados cresce, com mais de 90 mil famílias nos assentamentos de Dohuk – como retrata reportagem da Atlantic de outubro de 2014.

As campanhas para encontrar o menino já se iniciaram. Querem conhecer a sua história. Dar uma camisa “verdadeira” de Messi. Mas, ainda que descubram o seu rosto, a imagem já tem um sentido completo. Com o mínimo de informações, diz muito. E independente de simbolizar a idolatria de Messi. Poderia ser sobre outro craque – como o indiozinho da tribo Maraiwatsede, no Mato Grosso, que “tatuou” com a caneta o 9 de Ronaldo nas costas. As fotos não falam sobre os astros. Falam sobre o futebol e sobre a vida.

ronaldo

Quando o menino se veste de Messi, ele incorpora em si outro mundo. O dos lances deslumbrantes, da paixão de multidões, da alegria de um gol. A realidade que, ao contrário da sua, traz novos significados para palavras como “artilheiro” e “bomba”. Cujo preço da vitória não é pago com sangue. Que transborda vida, ao invés de perdê-la.

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O garoto nem precisava estar em um cenário de guerra, embora isso garanta um simbolismo maior à imagem. Porque a força do futebol já se representa no saco amarrado em seu corpo. O elemento mágico que o transporta a uma nova dimensão, onde as mazelas ao seu redor desaparecem. Uma das maiores virtudes do futebol é a sua simplicidade. Ela que consegue transformar escombros no estádio mais vibrante. Que garante ao menino o mais puro e básico direito de sonhar, algo que nem sempre lhe é permitido.

O futebol pode ser um negócio de milhões, que gera fortunas. Mas sua importância vai muito além disso. O saco nas costas do menino vale mais do que a camisa usada por Messi na final da Copa do Mundo. Porque a capacidade mais incrível do esporte não se representa em números, e sim no sonho de cada menino que vê na bola um refúgio. A mágica que não se pode comprar. E por mais que a modalidade se transforme, nada poderá lhe extinguir essa essência. O refúgio do verdadeiro futebol também está na imaginação de cada menino.