O Couto Pereira merece para sempre a gratidão do futebol brasileiro, por ter oferecido uma das mais belas despedidas já vistas no país. Depois do trágico acidente ocorrido com a Chapecoense, o estádio se encheu e transformou em tributo a final que nunca aconteceu. E se a memória viva da solidariedade prevalece na casa do Coritiba, os torcedores se uniriam para outro gesto grandioso na despedida ao maior ídolo do clube. Que o luto fosse novamente o mote no Alto da Glória, ele ganhava sua singela beleza pelas lembranças deixadas por Dirceu Krüger e por todo o amor que entregou ao Coxa. Milhares de flechas rasgaram os céus do Paraná na noite desta segunda – imaginárias, mas cintilantes. Desenhavam pelos ares a veneração e o respeito ao antigo craque, falecido na última semana. E mostravam, mais uma vez, que o futebol é apenas um pretexto a algo maior sobre a vida.

Ao longo dos últimos dias, várias homenagens a Dirceu foram realizadas no Couto Pereira. A estátua do Flecha Loira passou a reunir flores, velas e outros presentes à memória do veterano. Ainda assim, o clube prometia uma noite especial durante a estreia na Série B, nesta segunda. E merece elogios por abrir mão da bilheteria, ao garantir que todos os ingressos seriam gratuitos. Objetivo cumprido com casa cheia, para uma homenagem grandiosa – do tamanho que o velho ídolo merecia. Quase 32 mil estiveram presentes no Alto da Glória.

Em sua camisa, o Coritiba usou um emblema especial do lado esquerdo do peito, com o rosto de Dirceu. Também trouxe a mensagem “Dirceu Eterno” no uniforme. Antes da entrada dos times em campo, os refletores se apagaram, com o estádio iluminado apenas pelas luzes dos celulares e pelo telão que exibia vídeos sobre o Flecha Loira. Em um deles, o veterano recordava o seu início no clube, bem como a ligação imediata com a torcida. E o minuto de silêncio, rigorosamente respeitado, só foi rompido pelos aplausos e pelos gritos de “Krüger, Krüger”. Misturavam um pouco de pesar, mas também uma inegável admiração por aquilo que a lenda construíra em décadas de clube. Do craque ao treinador, passando por quantas outras funções fosse possível, ele tornou o Couto Pereira a sua eterna morada.

Antes que a bola rolasse, 53 balões ganharam os céus, uma referência aos 53 anos em que Dirceu trabalhou no clube. Foram soltos pelas crianças que entraram com os jogadores, entre elas a neta do Flecha Loira. E quando o apito inicial soou, o Coritiba fez a sua parte. Derrotou a Ponte Preta por 2 a 0, com dois gols de Rodrigão. O mais legal aconteceu nas comemorações, em que os jogadores alviverdes dispararam flechas imaginárias rumo às arquibancadas. Também houve uma paralisação no minuto 53, para novos aplausos da torcida e gritos de “Krüger”.

Por fim, o resultado sacramentou o que seria, de uma forma ou de outra, uma noite especial. Um momento delicado para familiares e amigos, que se tornou sublime graças à sensibilidade do Coritiba e de seus torcedores. O sentimento que Dirceu Krüger semeou no Couto Pereira é único, e isso floresceu em meio ao tributo, imenso.