Didier Deschamps tirou uma lição preciosa da derrota por 4 a 3 para a Bélgica. O amistoso disputado no Stade de France mostrou ao treinador que ele precisa puxar as rédeas de seus comandados e endurecer as regras. Uma coisa é perder para o Brasil, como foi o revés por 3 a 1 em março, e que pode ser considerado um resultado normal. O que não dá para achar corriqueiro é perder de forma tão contumaz diante de uma seleção muito supervalorizada e que, na prática, ainda pertence ao segundo escalão do continente.
Os Bleus, até então, haviam apresentado uma boa evolução, algo verificado mesmo após a última Copa do Mundo. O jogo contra os belgas, porém, fez parecer que todo o trabalho desenvolvido por Deschamps deu alguns passos para trás. A Bélgica teve o completo domínio sobre os donos da casa por cerca de 80 minutos. A superioridade se traduziu na supremacia técnica, coletiva e individual dos jogadores dos Diabos Vermelhos, completamente à vontade em Saint-Denis.
Nunca os franceses haviam levado quatro gols no Stade de France. A última vez na qual algo parecido aconteceu foi em 1982, quando a França foi humilhada por 4 a 0 pela Polônia no Parc des Princes. Mesmo com o despertar tardio e a redução do placar para uma margem pequena, os Bleus falharam de modo retumbante, principalmente em seu miolo de zaga. A dupla formada por Varane e Koscielny foi engolida pelo ataque belga, com um abismo nítido na preparação física dos dois setores.
No Mundial-2014, houve exatamente o contrário – daí o susto pela mudança tão repentina e a preocupação em corrigir logo estas falhas. Um dos principais pontos fortes da França nos campos brasileiros foi possuir um bloco compacto e ao mesmo tempo agressivo, que dificultava a ação dos adversários quando a equipe era atacada e proporcionava contra-ataques rápidos assim que retomava a posse de bola. Diante dos belgas, a pressão em cima dos adversários foi praticamente inexpressiva.
Sem alguns de seus principais destaques, como Benzema (machucado), Sakho (no banco), Evra e Pogba (ambos atuaram pela Juventus na final da Liga dos Campeões), a França perdeu muito de sua força. Claro que o time perderia qualidade com a ausência destes nomes, mas não tanto como se viu no Stade de France. Além do já citado desempenho ruim do miolo da zaga, Cabaye decepcionou no meio-campo e, no ataque, Griezmann e Giroud foram meras peças decorativas.
A segunda derrota em amistosos deve fazer Deschamps acelerar um processo necessário para o amadurecimento dos Bleus. O treinador deve mudar algumas de suas opções preferidas e rever o crédito dado a alguns jogadores que, no momento, passam por dificuldades. Deve-se lembrar que a temporada acabou de terminar e é absolutamente natural que muitos atletas estejam no limite da fadiga.
Exatamente por isso, não dá para ser completamente pessimista e achar que todo o trabalho foi jogado no lixo. Deschamps precisa mesmo fazer observações e testes exatamente para quando estas peças não estiverem funcionando em um momento para valer. Payet, Lacazette, Ntep e Fekir foram bem contra os belgas e deram sinais de que podem se tornar opções confiáveis. Ainda há um longo caminho a trilhar a um ano da Eurocopa, e o técnico dos Bleus continua muito bem em seu trabalho de lapidar a equipe.