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A partida na Allianz Arena durante o último sábado foi daquelas em que a camisa do Bayern de Munique pesa de maneira esmagadora. O Schalke 04 pareceu completamente amedrontado com o gigantismo dos adversários, por mais que estes não vivam uma temporada tão arrasadora. E a paralisia dos Azuis Reais serviu para inflar um pouco mais o moral dos bávaros. A equipe de Hansi Flick goleou por 5 a 0, num resultado auxiliado pelo goleiro adversário, mas que também exibe a crescente de vários jogadores do Bayern. Thomas Müller é um desses, ressurgido desde a troca no comando.

Explicar as virtudes de Thomas Müller sempre pareceu uma missão difícil durante o seu auge. Não é o jogador mais habilidoso e muito menos compensa isso por seu físico. Pelo contrário, o alemão quase sempre pareceu desengonçado e sua posição ideal era motivo de constante discussão. A aposta em Müller, no entanto, se compensava por sua extrema eficiência. Taticamente, poucos jogadores nas últimas décadas foram tão inteligentes quanto ele. O senso de posicionamento privilegiado e a capacidade de tomar as melhores decisões o transformaram em um fenômeno raro – impulsionado também por suas duas primeiras aparições impactantes na Copa do Mundo, revelação em 2010 e confirmação em 2014.

Não se nega a importância de Thomas Müller ao Bayern de Munique desde que se firmou como titular, nos tempos de Louis van Gaal. Permaneceu como uma peça central a diferentes técnicos e sempre com contribuição maiúscula à voracidade ofensiva da equipe. Somando os períodos sob as ordens de Van Gaal, Jupp Heynckes e Pep Guardiola, o atacante possui médias excepcionais na Bundesliga: foram 13 gols e 11,7 assistências em média por temporada, ao longo de sete anos consecutivos. Mas, já desde o fim da era Guardiola, as reticências sobre o rendimento do camisa 25 se tornaram maiores.

A aptidão de Thomas Müller para achar os seus gols minguou. Nas últimas três edições da Bundesliga, não passou dos oito tentos anotados em uma mesma campanha. As assistências até se sustentaram, mas não pareciam suficientes para justificar o status de intocável do atacante. Apesar de sua ascendência sobre o elenco do Bayern, assumindo a braçadeira durante as longas ausências de Manuel Neuer, faltava um pouco mais de futebol para fazer valer sua presença constante no time. Jupp Heynckes até descansou o alemão mais vezes e, com menos minutos em campo, conseguiu extrair o seu melhor momento nestas três temporadas.

Thomas Müller permaneceu como uma figura central na primeira temporada sob as ordens de Niko Kovac. Todavia, não se deu bem nas muitas vezes em que atuou como segundo atacante e frequentemente recebeu críticas pelas oscilações do time. Já no início da atual campanha, a relação com o chefe pareceu se quebrar. Kovac deixou o vice-capitão no banco durante seis partidas seguidas, limitado aos minutos finais dos jogos. Müller, que possui uma personalidade forte, aumentou o tom em muitas de suas entrevistas e passou a admitir a possibilidade de deixar o clube em breve. A demissão do croata, contudo, voltou a abrir os céus da Baviera ao camisa 25.

Hansi Flick era um velho conhecido de Thomas Müller. Como assistente de Joachim Löw, ele acompanhou o ápice do atacante na seleção, durante as Copas de 2010 e 2014. Seria ele o responsável por redescobrir o alemão a partir de novembro. Müller voltou a se provar em campo. O camisa 25 registrou oito assistências e quatro gols nas últimas nove rodadas da Bundesliga, sendo um dos melhores do time até mesmo nas derrotas. Em comparação, durante as dez primeiras rodadas da campanha com Kovac, o medalhão tinha dado apenas quatro assistências, sem balançar as redes uma vez sequer.

O perfil de Thomas Müller mudou com o passar dos anos. É um atacante que finaliza menos e, em compensação, cria um pouco mais. Isso explica um pouco sua evidente queda de desempenho, ainda que não a justifique a maneira como se omitiu em jogos importantes e também os frequentes erros na conclusão das jogadas. Entretanto, durante as últimas semanas, ele apresenta uma face revigorada. Potencializa a fase arrebatadora de Robert Lewandowski como o seu maior garçom, ao mesmo tempo em que reencontra seu oportunismo e surge na área para anotar gols importantes. Faz a diferença, como na época em que se consagrou como um xodó na Baviera, e recupera sua arranhada imagem pelo declínio nos últimos anos.

A goleada contra o Schalke, ao lado dos 4 a 0 sobre o Borussia Dortmund, aparece entre as melhores atuações de Thomas Müller na temporada. Diferentemente daquela ocasião, que poderia se colocar como um ponto fora da curva logo na estreia de Hansi Flick, a partida desse sábado enfatiza a continuidade. E ainda teve um caráter especial a Müller, já que marcou seu 100° gol em partidas oficiais na Allianz Arena. O ânimo é tamanho que os dirigentes do Bayern iniciaram um lobby para que Joachim Löw mude de ideia e volte a convocá-lo à seleção.

Óbvio, as condições no Bayern de Munique favorecem Thomas Müller. Não é só a varinha mágica de Hansi Flick que faz a diferença. Nas vezes em que atuou como meia central, ao lado de outro jogador na armação, o alemão combinou-se melhor com os companheiros e ficou menos sobrecarregado do que centralizado na função. Além do mais, caindo pela ponta, onde tantas vezes não rendia, a capacidade de criação da equipe também contribui e favorece a movimentação do camisa 25. Leon Goretzka é outro que se redefine e faz o time jogar nesta repaginação recente, enquanto Joshua Kimmich segue em alta ao ditar o ritmo na cabeça de área.

Com Flick, o Bayern voltou a apresentar um estilo de jogo mais direto, vertical nos passes, assim como tem feito um trabalho mais intenso ao pressionar sem a bola. É quando a capacidade tática de Thomas Müller se torna mais importante. Pegando as defesas adversárias menos fechadas, há espaços para ele antever e atacar. Da mesma maneira, também contribui na missão de bloquear as saídas dos adversários e acelerar as transições a partir do campo de ataque, com sua visão de jogo. Esta é a sua melhor versão em muito tempo, mais empenhado sem a bola e eficiente quando pode recebê-la. Por isso, a fase repercute.

Mais do que a volta à seleção, Thomas Müller talvez cogite mesmo uma mudança de ares, especialmente se a permanência de Hansi Flick não for garantida à próxima temporada. Aos 30 anos, possui contrato até 2021 e este parece o momento certo para uma transferência, se desejar mesmo abraçar uma nova aventura. Até por isso, se torna fundamental subir de rendimento para buscar propostas mais vantajosas. E seria bacana se o ídolo, depois de mais de uma década na equipe principal, deixasse uma boa impressão final na Allianz Arena. Mas, por enquanto, nada passa de especulação e palavras aos microfones.

No momento, mais vale a Thomas Müller aproveitar o presente do que pensar no futuro. E o presente faz acreditar que, ao contrário do que vinha se pensando antes, o fim talvez não esteja tão próximo ao alemão. A quem nunca foi habilidoso e também não depende tanto do físico, a experiência tenderia que ele aprimorasse mais suas virtudes táticas. Isso não vinha acontecendo, também porque o encaixe não se notava. Motivado e em boa sequência, talvez redescubra aquele jogador que impressionava por encurtar as distâncias dentro de campo graças à sua inteligência. Para tanto, também será importante encurtar as distâncias do Bayern ao octacampeonato. As cinco vitórias seguidas na liga empurram nesse sentido.