Wydad Casablanca e Raja Casablanca fizeram um clássico histórico neste final de semana. Não foi apenas a festa das torcidas que criou uma atmosfera fantástica no Estádio Mohamed V. Desta vez, os jogadores corresponderam em campo, num duelo eletrizante pelas oitavas de final da Copa dos Campeões Árabes. Após o empate por 1 a 1 na ida, o clássico viveu um insano empate por 4 a 4, que valeu a classificação dos alviverdes graças aos gols anotados como “visitantes”. O Raja buscou uma diferença de três tentos no placar durante os 20 minutos finais e experimentou um milagre aos 49 do segundo tempo.

Como de praxe, sobrou criatividade nas coreografias. O Wydad fez três mosaicos 3-D. O primeiro deles homenageava Père Jégo, considerado um dos maiores treinadores da história da África, que comandou o clube nas décadas de 1940 e 1950; depois, reproduziram uma imagem do rei vermelho com seus serviçais verdes; por fim, no mais legal, bombeiros gigantes tentavam apagar os sinalizadores vermelhos que iluminavam a curva.

O Raja Casablanca, por outro lado, encheu o seu setor de referências culturais. Houve um mosaico com a imagem do Coringa e um bandeirão de Alex, personagem principal do filme Laranja Mecânica – com uma bomba verde nas mãos. Também surgiram bandeirões com o desenho de jogadores e com uma provocação ao Wydad – representando os rivais como a personagem Margarida, entregando-se ao dinheiro.

Quando a bola rolou, o Wydad terminou o primeiro tempo em vantagem. Mohamed Nahiri marcou o único gol dos 45 minutos iniciais, cobrando pênalti. A loucura ficou mesmo para a etapa complementar. O Raja até empatou logo aos quatro minutos, em pênalti convertido por Mouhcine Moutouali. Todavia, o Wydad guardou mais três antes dos 25, com Ayman El Hassouni, Ayoub El Kaabi e Badie Aouk. E o que parecia um caso perdido aos alviverdes, com os 4 a 1 no placar, concluiu-se como um resultado espetacular, diante da reação.

Hamid Ahaddad iniciou a reação do Raja. Após o cruzamento rasteiro, ele descontou dando um carrinho na bola aos 29. O terceiro veio em mais um pênalti de Moutouali, desta vez com cavadinha, aos 43. Ainda rolou uma confusão na hora de buscar a bola no fundo das redes. Por fim, o impossível se consumou no quarto minuto dos acréscimos. A partir de uma cobrança de falta pela direita, Ben Malango desviou de cabeça. O arremate beijou a trave antes de entrar, diante dos atônitos jogadores do Wydad. Valeu o regulamento, que distinguiu os jogos como mandantes e visitantes dos rivais, mesmo acontecendo no mesmo estádio.

A classificação às quartas de final da Copa dos Campeões Árabes nem vale tanto. Muito mais simbólica é a reviravolta, sobretudo pela maneira como aconteceu. Não à toa, a comemoração do Raja Casablanca logo após o quarto tento foi digna de título. As arquibancadas pulsavam com os torcedores em transe, enquanto os jogadores sequer sabiam para onde correr. Uma explosão de euforia confirmada pelo apito final.

Um dos clássicos mais apaixonantes do mundo escreveu um dos maiores capítulos de sua história. Agora, os alviverdes tentarão honrar a façanha também em busca do título.