Ajax e Juventus tiveram a honra de compartilhar alguns craques em comum. Nem todos decolaram como se esperava, a exemplo de Edwin van der Sar em Turim. Outros deixaram sua marca com ambas as camisas, feito este que coloca Zlatan Ibrahimovic em evidência. Contudo, nenhum outro nome jogou tanta bola quanto Edgar Davids. O rapaz nascido em Paramaribo surgiu como um fenômeno em Amsterdã e conquistou diversos títulos com os Godenzonen. Depois, seguiria à Juventus e seria parte importante de outras façanhas com a Velha Senhora, enquanto também ganhava terreno na seleção holandesa. Um dos melhores meio-campistas da década de 1990, que serve de elo entre os adversários na Liga dos Campeões.

Davids mudou-se do Suriname para a Holanda quando ainda era criança e não demorou para ingressar nas categorias de base do Ajax. Após ser rejeitado em dois testes pelos Godenzonen, tinha 12 anos quando finalmente foi aceito. Pôde admirar de perto seus ídolos e aprender os preceitos da melhor escola de futebol da Europa. A ascensão ao time principal aconteceu a partir dos 18 anos, em 1991. Deu sua contribuição na conquista da Copa da Uefa naquela temporada. Todavia, o estrelato viria nos anos seguintes, especialmente quando foi recuado da ponta esquerda para a faixa central. Faturou três vezes a Eredivisie e viveu seu auge quando se transformou no “Pitbull” de Louis van Gaal. Apesar da concorrência, o meio-campista teve presença importante na conquista da Champions em 1994/95, formando célebre parceria com Clarence Seedorf na decisão contra o Milan. Já na temporada seguinte, assumiria de vez o protagonismo, acumulando seus melhores números com a camisa alvirrubra. Só não teve o mesmo sucesso na competição continental, desperdiçando um pênalti durante a derrota na decisão contra a própria Juventus.

A primeira competição internacional de Davids com a seleção holandesa foi a Euro 1996, em conturbada participação da Oranje. Na temporada seguinte, em meio ao desmanche impulsionado pela Lei Bosman, ele deixou o Ajax. E pouca gente se lembra que o volante vestiu a camisa do Milan por alguns meses. Não deu certo, em um período de transição em Milanello. Uma temporada bastou para que os rossoneri não quisessem mais o Pitbull. Mas, no fim das contas, ele deu sorte. A Juventus pagou o equivalente a £5,3 milhões por sua contratação e descobriu um novo símbolo. Em uma equipe que ainda contava com Zinedine Zidane, Didier Deschamps, Antonio Conte e outros grandes, as alegrias não demoraram.

A energia de Davids no meio-campo sempre foi espantosa, sobretudo em sua melhor forma. Era um jogador dinâmico para sair jogando e extremamente combativo na marcação. Unia uma inteligência tática privilegiada com a incomum habilidade aos dribles, moldada no futebol de rua, o que permitia atuar em diferentes posições no meio-campo. Pois uma temporada bastou para faturar o Scudetto com a Juve, além de ser vice-campeão da Champions outra vez. Marcello Lippi o elogiava publicamente, com o prestígio do Pitbull recuperado. E o recomeço em Turim também o deixou voando para se juntar à Holanda na Copa do Mundo de 1998, a única de sua carreira. Fez um excelente torneio na França, a ponto de ser eleito ao time ideal do Mundial. Também no período bianconero é que o volante passou a usar seus estilosos óculos em campo, marca registrada que na realidade o protegia, após descobrir um glaucoma.

As oscilações da Oranje não permitiriam que Davids estivesse tão presente em outras competições internacionais, apesar de arrebentar outra vez na Euro 2000, semifinalista e apontado para a seleção do torneio. Ao menos o meio-campista seguiu colecionando taças com a Velha Senhora, se tornando ainda mais preponderante no início da década de 2000. Ao todo, foram mais dois títulos da Serie A, além do amargo vice-campeonato da Champions em 2003, derrotado pelo Milan nos pênaltis. Permaneceu seis temporadas como titular e protagonista da equipe, até que os atritos com o próprio Lippi custassem o seu espaço. No meio da temporada 2003/04, terminou repassado ao Barcelona. Em somente seis meses, causou um impacto tremendo para ajudar a reerguer os blaugranas no Campeonato Espanhol.

Depois do semestre impulsionando o trabalho de Frank Rijkaard no Camp Nou, Davids viu sua carreira entrar em declínio. Passou por Internazionale e Tottenham, sem grande impacto, até retornar ao Ajax para sua segunda estadia. O veterano era uma referência e, mesmo sem entrar tantas vezes em campo, contribuiu para a conquista da Copa da Holanda. Penduraria as chuteiras em 2008, aos 35 anos, até mudar de ideia e retornar às divisões de acesso do Campeonato Inglês. Sua reputação, de qualquer forma, já tinha sido construída durante o ápice na virada dos anos 1990.

Abaixo, dois vídeos para relembrar a melhor versão de Davids: os primórdios no Ajax e a fase imparável com a Juventus. Confira: