A mesmíssima marca da cal. De cima dela, o Atlético Mineiro viveu o momento mais marcante de sua história centenária: o pênalti de Riascos defendido por Victor, que será contado e recontado por gerações de atleticanos. De cima dela, Guilherme tinha a chance de provocar mais uma virada, o gol de classificação do Galo às oitavas de final da Libertadores. O atacante caminhou, parou, escolheu o canto. O goleiro Garcés não foi na dele. Desviou o chute com a ponta dos dedos. A bola tocou a trave, as costas do chileno e saiu. A cota de milagres do Atlético finalmente chegara ao fim? Não desta vez. O relógio marcava apenas 22 minutos do segundo tempo. Estava cedo demais para os alvinegros. Faltava drama. Faltava magia.

O elemento mágico no Independência, desta vez, não foi a marca da cal. Foi uma singela bandeirinha de escanteio. Após um dos incontáveis cruzamentos do Galo, a zaga do Colo Colo desviou. A bola seguia incerta entre o tiro de canto e a cobrança de lateral. Caprichosamente bateu na bandeira. Sobrou limpa para Guilherme dar continuidade à jogada. Ao invés de apostar no chuveirinho, o vilão (só até aquele momento) resolveu fazer diferente. Virou o lance para Rafael Carioca, na intermediária. Um erro tremendo, com seis companheiros na área? Não quando a bola cai em pés iluminados. O volante dominou e, no quique, soltou o chutaço. Bola no ângulo, redes estufadas, gritos rompendo as gargantas, estádio vindo abaixo, classificação encaminhada. O milagre se cumpria, de fato, aos 34 minutos do segundo tempo.

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O Atlético Mineiro precisava bater o Colo Colo por dois gols de diferença para avançar. O fez como se acostumou em suas maiores glórias desde 2013: de uma maneira épica, na base da vibração de seu time e da torcida, ignorando o improvável. O jogo sempre esteve nas mãos do Galo, é verdade, e o “eu acredito” seguiu entoado durante todos os momentos antes do gol de Rafael Carioca. Mas era natural desconfiar uma pontinha, mesmo o mais fanático dos mineiros. Lucas Pratto conseguiu abrir o placar relativamente cedo, aos 19 minutos. Porém, o pênalti perdido por Guilherme serviu para testar a fé. Aqueles que não vacilaram acabaram recompensados, ao se tornarem testemunhas oculares do gol antológico de Rafael Carioca. O da vitória por 2 a 0, que carimbou a classificação.

Em uma atmosfera fantástica no Independência, o Atlético precisou de segundos para apresentar a garra com a qual partiria para cima do Cacique. Diante de um adversário totalmente entrincheirado em sua área, a equipe de Levir Culpi partiu para a pressão logo cedo, apostando principalmente no jogo aéreo e nas infiltrações em brechas deixadas. Havia pouco espaço para se aproximar do gol, mas os alvinegros insistiam. E o iluminado Lucas Pratto retificou o seu excelente momento ao abrir o placar. Em uma enfiada de bola de Patric, a zaga chilena não conseguiu afastar e o centroavante fuzilou.

Na Colômbia, o Santa Fe vencia o Atlas e obrigava o Galo a andar somente com suas pernas. Precisava de mais um gol. E tentava. Drama aumentado pela chuva forte que caia no Horto, fazendo o time apelar mais para o jogo aéreo do que para a bola rolando. Guilherme, especialmente, chamava a responsabilidade na organização e também nos chutes de média distância. Mas estava difícil de passar por Garcés e sua defesa. Além disso, do outro lado, o atacante Esteban Paredes também representava perigo à meta de Victor.

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O sufoco aumentava com o andar dos ponteiros. Faltava ao Atlético melhorar a criação. Até que a chance caísse nos pés de Luan, derrubado na área por Garcés. Pênalti, que Guilherme cumpriu infeliz destino. O goleiro seguia segurando o resultado, suficiente para o Colo Colo. Até a bandeirinha de escanteio entrar em ação. E a visão de jogo de Guilherme. E a maestria de Rafael Carioca para anotar 2 a 0. Depois disso, o horizonte atleticano só mirava a classificação. Todo o resto ao redor era um turvo de bola para o mato, de tempo que insistia em ficar devagar. Victor precisou intervir uma vez, enquanto Danilo Pires perdeu a chance do terceiro. Nem precisou de mais. O destino tortuoso, mas feliz no fim das contas, estava cumprido mais uma vez para os alvinegros.

Ao longo de toda a primeira fase, o Atlético deixou a desejar. Fez uma partida muito boa contra o Santa Fe, outra razoável, e só. Não se achou na visita ao Colo Colo e vacilou demais contra o Atlas, especialmente em casa. Mas tudo isso é passado. A pressão no Independência e o golaço de Rafael Carioca deram a classificação. E, como dizem, o mata-mata é outro campeonato, é quando a Libertadores começa de verdade. A vontade desta quarta e a melhora gradual do time nas últimas semanas motivam. Assim como o impossível que renova a fé dos atleticanos. A bandeirinha de escanteio e a marca da cal servem para lembrar do que o Galo é capaz.