Texto publicado originalmente em fevereiro de 2016, mas editado e ampliado

O Paris Saint-Germain debulhou recordes na Ligue 1 durante as últimas temporadas. Porém, uma marca significativa permanece imaculada há 25 anos: a maior sequência invicta da competição a partir da primeira rodada. Em 1994/95, o Nantes passou 32 jogos sem ser derrubado, até sofrer o seu primeiro revés no Campeonato Francês. E a marca notável, na verdade, serve para revelar um verdadeiro esquadrão dos auriverdes. Com um futebol ofensivo e uma coleção de golaços, aquele time dos Canários virou sinônimo de futebol-arte na França. É uma campanha muito lembrada no país e que merece ser recontada, diante de seu aniversário neste mês de maio.

A ascensão daquele Nantes começa na beira do abismo, em 1992. Sofrendo com altos débitos e correndo risco de ser rebaixado por conta da crise financeira, o clube acabou salvo por Guy Scherrer. Alto-executivo de uma fábrica de biscoitos e da câmara de comércio local, ele assumiu a presidência, diante dos temores de falência que se instauraram. A partir de então, os Canários estabilizaram as suas contas e iniciaram a montagem do time. No entanto, os auriverdes estiveram distantes de cometer loucuras no mercado de transferências – muito pelo contrário, foram bem econômicos.

Algumas das principais referências do Nantes na época já tinham saído, em partes por causa das dificuldades financeiras – incluindo nomes como Marcel Desailly, Paul Le Guen, Jorge Burruchaga e Johnny Mölby. Enquanto isso, a equipe apostava nos jovens formados pelas categorias de base e em outros tantos reforços sem badalação – alguns deles contando com olheiros localizados em antigas colônias francesas. E o renovado time ganhou paulatinamente o apoio da torcida, que voltou a comparecer de maneira massiva às arquibancadas.

À frente do projeto, estava o técnico Jean-Claude Suaudeau, uma sumidade em Nantes. Volante do clube na década de 1960, chegou a ser bicampeão francês em 1964/65 e 1965/66. Depois que pendurou as chuteiras, treinou as categorias de base por quase uma década, antes de assumir a equipe principal pela primeira vez em 1982. Logo em sua primeira temporada, ‘Coco’ Suaudeau dirigiu um dos melhores times já formados pelo Nantes em sua história. Conquistou a Ligue 1 em 1982/83, bem como chegou à decisão da Copa da França, na qual acabou derrotado pelo Paris Saint-Germain. O atacante Vahid Halihodzic era a estrela da companhia, em elenco que também incluía nomes como Maxime Bossis e José Touré.

Suaudeau permaneceu no cargo até 1988, com direito a mais dois vice-campeonatos na Ligue 1. Substituído pelo iugoslavo Miroslav Blazevic (futuro comandante da Croácia na Copa de 1998), Coco seria chamado de volta ao emprego em 1991. À frente de um elenco que já ganhava seus novatos, o técnico acelerou o processo de remontagem e ampliou o espaço à nova safra. Viveria a partir de então sua consagração no Estádio de Beaujoire. Com filosofias simples de jogo, Suaudeau era um grande entusiasta da postura ofensiva dentro de campo. Pregava uma troca de passes rápida, de primeira e em progressão. Seu trabalho precisou de algum tempo para ser lapidado, até que os atletas de adaptassem a ele, mas não demorou a ter seu ápice.

A inspiração de Suaudeau surgiu assistindo a um treino da base da Internazionale, nos tempos de Giovanni Trapattoni – quando os nerazzurri arrebataram a Serie A com recorde de pontos, estrelados por Lothar Matthäus. Fã confesso de Zico, o comandante francês também tomou o Brasil de 1982 como uma das fontes às suas ideias. Dentro da mescla de concepções, os Canários pareciam jogar por música, com movimentos muito bem coordenados e rápidos para pegar as defesas adversárias desprevenidas.

“Eu não digo para darem um toque na bola, mas para jogarem sem dominar. A prioridade não é quem está com a bola, mas os outros, permitindo que qualquer um jogue sem dominar. Em 1982, vi o Brasil e eles tocavam a bola sem dar um passe difícil, era tudo simples. Não tinham dez jogadores como Zico, mas podiam jogar o simples. O segredo do Nantes era a simplicidade. Essa é a semelhança de qualquer jogador com Zidane ou Platini: a simplicidade. Esse é o genial. Zico podia jogar de outro jeito, mas não, preferia o simples. Então todo mundo começou a jogar simples, e isso mudou a cabeça dos nossos jogadores”, analisou Suaudeau, durante entrevista à revista SoFoot, em 2005.

O grupo de jogadores de Suaudeau era moldado para as suas propostas ousadas. Tinha qualidade técnica razoável, mas explosão física em todos os setores, o que permitia ao time pressionar a saída de bola dos adversários e atacar de maneira bastante veloz. A recuperação era o grande princípio, apostando no elemento surpresa. E, por mais que a ideia de jogo permanecesse simples, ela também exigia um bocado. Requeria um nível para manter a precisão nos passes e também inteligência tática na leitura dos espaços.

Uma das referências na defesa era Christian Karembeu, que chegou da Nova Caledônia para as categorias de base dos Canários. Muitas vezes escalado na lateral direita, o jovem de 23 anos primava por sua capacidade física impressionante para ocupar o setor. O zagueiro Éric Decroix era outro nome importante por ali, vindo do Lille. Já na cabeça de área, o funcionamento da equipe dependia do trabalho de Jean-Michel Ferri. Cria da própria base e um dos jogadores mais marcantes dos auriverdes nos anos 1990, o volante usava a braçadeira de capitão e se responsabilizava por coordenar a recuperação.

Trazido do Brest quando tinha 18 anos, Claude Makélélé dinamitava o meio-campo com muita pegada e também participatividade ofensiva. Na época, atuava de maneira bem mais solta e usava a camisa 7, importante no apoio às jogadas. Reynald Pedros era o maestro pela esquerda, com um bom passe. O chadiano Japhet N’Doram usava a 10 e se portava como um ponta-de-lança, muito voraz e com seu refinamento técnico. Já na frente, Patrice Loko era um dos atletas mais completos à disposição de Suaudeau, enquanto Nicolas Ouédec fazia o papel de homem de referência e contribuía com seu faro de gol.

Na equipe-base de Coco Suaudeau, chamava atenção a juventude do Nantes. Entre os nomes mais frequentes nas escalações, apenas o lateral Serge Le Dizet e N’Doram passavam dos 25 anos. De resto, o treinador contava com peças de poucas experiência, mas grande potencial e também vontade de estourar no nível mais alto. Ofereciam uma combinação interessante entre fôlego, classe e um raciocínio rápido para executar as jogadas.

Coco Suaudeau costumava armar o seu time entre o 4-1-4-1 ou no 4-1-3-2. O capitão Ferri era o ponto focal no meio-campo, dando mais liberdade aos demais companheiros no apoio. A organização, de qualquer forma, não era exatamente o mais importante naquele Nantes. A base do jogo se fazia pela maneira como os atletas se dispunham a engolir o adversário, a partir da concentração das peças no setor onde estava a bola. Os marcadores avançavam em massa para pressionar e, assim que a bola era retomada, iniciavam uma corrida sufocante à área rival.

A movimentação do Nantes podia até parecer temerosa, caso ocorresse algum erro em sua execução. O preparo físico dos jogadores compensava, especialmente por conta do ritmo imposto pelos Canários a cada jogo. E os times que não se recompunham rapidamente acabavam sofrendo as consequências, contra as vorazes investidas dos auriverdes. A proposta de Suaudeau dependia também de um grande entrosamento dos jogadores, para que pudessem antever seus próprios movimentos e preencher melhor o campo. Não à toa, os treinos sem bola eram essenciais ao técnico, trabalhando o entendimento de seus homens além da posse.

A precisão, sobretudo, se fez vital para o Nantes. O estilo conhecido como “quatro a cinco toques” buscava exatamente isso: quatro ou cinco toques para chegar à meta do adversário. Primava especialmente pelos lançamentos de Pedros e de Ferri, enquanto os homens de frente tratavam de acelerar e definir. Muitas vezes os Canários não conseguiam encaixar os ataques, com um número considerável de erros. Mas quando dava certo, a estratégia desconcertava as defesas adversárias e produzia um futebol belíssimo de se assistir. Durante o ápice deste jogo, o Nantes se manteve praticamente imbatível na Ligue 1.

Com sua própria noção de ‘jogo bonito’, Suaudeau chegou a se irritar certa vez com uma comparação feita pelo jornal catalão Mundo Deportivo, que o acusou de imitar o Barcelona de Johan Cruyff. “A prioridade deles é ter a bola e manter a posse pelo máximo de tempo possível. Essa é uma doença do jogo atual, eu acho. É por isso que o futebol está ficando chato”, declarou Coco, em resposta. Anos depois, falando à revista SoFoot, o comandante ainda afirmou que “Ronaldinho faz os passes como devem ser feitos, infiltrados. O grande mal do futebol de hoje em dia é que ele tem muitos passes e já se sabe para onde eles vão. Isso é handebol, não futebol”. Uma leitura do jogo objetivo, em que valorizava o risco tomado.

Durante o início da construção de seu time, o Nantes não teve pressa. Longe de interferir na parte esportiva, Scherrer deu a tranquilidade necessária para Suaudeau desenvolver o seu trabalho e aprimorar os mecanismos de jogo. Além disso, o técnico contou com a manutenção de titulares que, em sua maioria, estavam no clube desde a virada da década de 1990 – pelo menos na base. Isso garantiu que o crescimento fosse consistente. Em 1992/93 e 1993/94, os Canários chegaram à quinta posição da Ligue 1 duas vezes, além de terem perdido uma final da Copa da França para o Paris Saint-Germain. Era uma prévia do que viria.

Afinal, ninguém foi capaz de parar o Nantes em 1994/95. O time arrancou para sua sequência invicta logo na primeira rodada, em empate por 1 a 1 com o Lyon. A partir de então, conquistou 19 vitórias e 13 empates até cair diante do Strasbourg, na 33ª rodada. O ataque marcou pelo menos três gols em 11 partidas, enquanto só passaria em branco durante quatro jogos daquela série. Enquanto fora de casa os Canários se davam ao luxo de acumular alguns empates a mais, dentro do Estádio de Beaujoire o rendimento foi irretocável, com 14 vitórias e nenhuma derrota.

O primeiro turno guardaria alguns resultados emblemáticos logo de cara. Na segunda rodada, o Nantes bateu o Auxerre de Guy Roux por 2 a 1, de virada. O triunfo fora de casa nasceu a partir de dois lindos gols dos auriverdes. Ainda assim, a grande obra de arte da campanha ocorreu no quinto compromisso, diante do campeão vigente Paris Saint-Germain. O time de Luis Fernández não começou tão bem a campanha, mas tinha um elenco respeitabilíssimo. Ricardo Gomes, Valdo, David Ginola e George Weah estavam entre os titulares na visita a Beaujoire. O triunfo por 1 a 0 dos Canários surgiu a partir de uma jogadaça, iniciada com uma cobrança de lateral rápida. Entre passes de primeira e toques por elevação, Loko tabelou com Pedros e finalizou com extrema categoria para vencer o goleiro Bernard Lama.

Ainda na primeira metade da Ligue 1, o Nantes derrotou o rival Rennes por 2 a 0 e também fez 3 a 0 sobre o Saint-Étienne – com todos os gols sobre os Verts anotados logo nos primeiros 18 minutos. A visita ao Bordeaux de Zinedine Zidane guardou um jogaço, com o empate por 2 a 2 coroando a noite repleta de chances no Estádio Chaban-Delmas. Nos 3 a 0 contra o Strasbourg, Makélélé também marcou outro gol inesquecível, em toque por cobertura inacreditável dentro da área. Já o empate por 2 a 2 contra o Monaco guardaria o fim da temporada ao goleiro David Marraud, que lesionou os ligamentos do joelho e seria suplantado no restante da campanha pelo jovem Dominique Casagrande.

O Nantes assumiu a liderança na quinta rodada, quando venceu o PSG e ultrapassou o Lyon na primeira colocação. A partir de então, não deixaria mais o topo da tabela. O primeiro turno invicto permitiu que os Canários conquistassem o simbólico título de inverno e iniciassem o returno com cinco pontos de vantagem sobre o PSG. E a arrancada na virada do ano seria igualmente marcante, com direito a uma sequência de quatro vitórias dos auriverdes – incluindo um baile diante dos parisienses dentro do Parc des Princes, pela 24ª rodada.

O Paris Saint-Germain contou ainda com Raí na revanche contra o Nantes. E o craque brasileiro não foi suficiente para intimidar os Canários na capital. A expulsão de Daniel Bravo logo aos 24 minutos facilitou a vida dos visitantes. Loko driblou Lama para abrir a contagem durante o primeiro tempo. E nem a lesão do goleiro Casagrande, provocando outro desfalque no setor, atrapalhou o time de Coco Suaudeau. Durante o segundo tempo, o show ficou por conta de N’Doram. O chadiano balançou as redes duas vezes, incluindo uma pintura por cobertura, e fechou o placar em 3 a 0. O Nantes encerrava a rodada com seis pontos na dianteira.

Na sequência do segundo turno, o Nantes emendou vitórias em casa e empates fora. A invencibilidade pareceu em risco na visita ao Lens, quarto colocado. O empate por 1 a 1 prevaleceu, mas três jogadores auriverdes acabaram expulsos – N’Doram, Karembeu e Pedros. Apesar dos desfalques, o time conseguiu bater o Sochaux em Beaujoire. Todavia, cairia logo depois, na viagem a Estrasburgo. Frank Leboeuf e Aleksandr Mostovoi assinalaram os gols no triunfo por 2 a 0 do Strasbourg, depois de muitas chances perdidas pelos visitantes quando o placar estava zerado. De qualquer maneira, a taça já estava encaminhada aos Canários naquela altura. Ela seria confirmada na 36ª rodada, após o empate fora de casa contra o Bastia.

Durante o desembarque da delegação em Nantes, centenas de torcedores receberam seus heróis e iniciaram a festa na cidade. Ainda assim, a grande noite ficaria guardada para a penúltima rodada, contra o Cannes. O Estádio de Beaujoire estava lotado e se inflamou ainda mais com a vitória por 2 a 1. Ao apito final, ocorreu uma massiva invasão de campo e o gramado acabou completamente tomado pela massa auriverde. O empate por 1 a 1 contra o Lyon no último compromisso selou a campanha.

O Nantes fechou a Ligue 1 com 58 pontos, oito de vantagem sobre o vice-campeão Lyon. Além disso, sofreu uma mísera derrota nas 38 rodadas, com 21 vitórias e 16 empates. Os Canários permanecem com o recorde de menor número de derrotas em uma única edição da liga. Individualmente, Loko e Ouédec dividiram entre si 40 dos 71 gols assinalados pelos auriverdes. N’Doram, com 12 tentos e atuações de gala, foi outro a merecer menção especial.

Mais marcante que os números, entretanto, era o deslumbramento que a equipe de Coco Suaudeau causava. Só nos mata-matas é que os Canários não emplacaram naquela temporada. O Nantes caiu cedo na Copa da França e na Copa da Liga, enquanto deixou má impressão na Copa da Uefa. Os auriverdes até alcançaram as quartas de final, mas se despediram com uma goleada por 5 a 1 do Bayer Leverkusen. A reputação franceses nas competições continentais só se refez na temporada seguinte.

O Nantes viveu sua melhor campanha na história da Liga dos Campeões em 1995/96, chegando até as semifinais. Eliminou Porto, Panathinaikos e Aalborg na fase de grupos, antes de bater o Spartak Moscou nas quartas de final. Já nas semifinais, os Canários peitaram a fortíssima Juventus. Perderam por 2 a 0 em Turim, mas conseguiram derrotar os futuros campeões por 3 a 2 na volta. O resultado seria insuficiente para uma história ainda mais fulgurante.

Já na Ligue 1, o Nantes não conseguiu manter a sua intensidade. Perdeu duas peças fundamentais com as saídas de Karembeu e Loko, enquanto o desgaste se tornou maior com a campanha continental. O sucesso desapareceu, culminando na sétima posição no Francesão de 1995/96. E, em uma equipe que dependia tanto do encaixe coletivo, os resultados não se repetiram. Suaudeau deixou o time em 1996/97, temporada em que os Canários terminaram em terceiro no Francês. Quatro anos depois, ocorreria a reconquista da Ligue 1 em 2000/01, com um elenco já sem remanescentes do esquadrão de 1994/95.

A maioria dos destaques individuais daquele Nantes não vingou. Pedros e Loko rodaram por clubes de peso (Olympique de Marseille, Parma e Napoli; PSG e Lyon) e até participaram da Euro 1996, mas não foram além. Ouédec teve um bom momento no Espanyol e só. Ferri chegou a ter uma passagem frustrada pelo Liverpool e N’Doram se aposentou depois de uma temporada apagada pelo Monaco. As exceções acabaram sendo Karembeu e Makélélé. Enquanto o primeiro ergueu a Copa do Mundo em 1998 e foi multicampeão pelo Real Madrid, o segundo se estabeleceu como um dos melhores volantes da década e levou o vice no Mundial de 2006. Nomes mais célebres de um timaço que merece ser mais lembrado.

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