Igor Akinfeev certamente preferiria apagar de sua memória a noite desastrosa que viveu em Cuiabá, há quatro anos, mas as lembranças eram inescapáveis, pelo flagelo que fugia de seu controle. Aos 28 anos, o arqueiro finalmente tinha a chance de disputar uma Copa do Mundo. E sua estreia no Mundial de 2014, contra a Coreia do Sul, não poderia ser mais penosa. O chute despretensioso de Lee Keun-ho seria de fácil defesa a qualquer goleiro. Não a Akinfeev, sem as mãos firmes o suficiente para segurar o arremate, depois de já ensaiar o frango nos minutos anteriores do segundo tempo. A bola escapou de suas luvas e, traiçoeira, seguiu o seu caminho. O russo tentou se recuperar e salvá-la em cima da linha, mas o esforço foi em vão. Com as mãos no rosto, lamentava falha grotesca. Sua seleção até empatou, mas aquele deslize seria o começo do fim em mais uma decepção da Rússia nas competições internacionais.

Neste domingo, os quatro anos torturantes ficaram para trás. Uma tarde redentora basta para transformar a imagem de um jogador na Copa do Mundo. E a oportunidade veio a Akinfeev, que não a desperdiçou. O erro gritante não serviu para abalar seu moral na seleção russa, é verdade. A confiança dada ao veterano não se corresponde exatamente pela segurança que transmite, em outros deslizes um tanto quanto frequentes. Ainda assim, seguiu como dono da posição e, mais do que isso, agora também como capitão. Diante de um jogo no qual a Rússia precisou se entregar na defesa a todo momento, Akinfeev já tinha realizado boas defesas. A libertação, de qualquer forma, aconteceu sobre a marca da cal, a 11 metros da bola, na única ocasião em que expurgam-se os pecados dos goleiros e permite-se a sua santificação. O camisa 1 pegou dois pênaltis da Espanha e, definitivamente, é um herói nacional. Sua história nas Copas se contará por outro capítulo a partir de agora.

A reputação de Akinfeev na seleção russa se explica por uma caminhada que começou há 14 anos. Quando surgiu como um fenômeno no CSKA Moscou, e ganhou sua primeira convocação em 2004, o jovem goleiro parecia um digno herdeiro à estripe de Lev Yashin e Rinat Dasaev. Sua estreia na equipe nacional aconteceu dias depois de completar 18 anos de idade e, na mesma época, teve atuações fundamentais para que o CSKA conquistasse o seu maior título, a Copa da Uefa de 2004/05. Combinava agilidade e bom posicionamento, tornando-o uma das maiores promessas da posição. Promessa esta que acabaria não se cumprindo totalmente.

Seria injusto dizer que Akinfeev não teve bons momentos. Ele permaneceu como um dos melhores jogadores do Campeonato Russo e teve boas atuações na campanha histórica rumo às semifinais da Eurocopa de 2008. No entanto, o passar dos anos eram cruéis ao russo. Ao contrário do que se espera de um jogador, e ainda mais de um goleiro, a quem a experiência pesa tanto, o tempo parecia até mesmo involuir o camisa 1. Não passou nem perto de Dasaev e Yashin. Não atingiu o grau de excelência que se imaginava. E demonstrou com frequência as suas fraquezas, entre falhas e outras bolas defensáveis. O arqueiro era a imagem da seleção russa ao longo da última década, um time que até possuía o seu renome, mas fazia papéis medíocres em suas participações internacionais.

Nos últimos anos, Akinfeev se indicava um daqueles goleiros que “chama os gols”. A derrocada na Copa de 2014 deixou uma imagem emblemática, e proclamavam-se também os números vergonhosos do arqueiro que passou 11 anos sofrendo gols em todas as suas exibições na Liga dos Campeões, de 2006 a 2017. Dizer que o russo era superestimado não se tornava injusto, até por se manter intocável na seleção. Contudo, recebia o respeito e a aclamação de muitos compatriotas. Mantinha-se em forma razoável no CSKA Moscou e, no Campeonato Russo, fazia valer a sua imponência. Os torcedores estavam prontos a perdoar os erros e a se lembrar apenas das grandes defesas. Talvez houvesse algum pressentimento sobre o futuro, que se tornou presente neste domingo, em Moscou, metrópole onde o veterano nasceu.

Durante a fase de grupos da Copa do Mundo, Akinfeev não foi muito exigido. Manteve a meta invicta contra a Arábia Saudita e tomou apenas um gol de pênalti contra o Egito. Diante do Uruguai, o gol de Luis Suárez pode ser avaliado como uma falha de posicionamento, mas o camisa 1 compensaria na sequência da partida, sobretudo no segundo tempo, com algumas boas defesas. Nada que pudesse reverter a derrota por 3 a 0. Já nas oitavas de final, contra a Espanha, veio o grande desafio. A tarde a se redimir diante de 80 mil, que o apoiavam no Luzhniki.

Pelo volume de jogo que teve, a Espanha foi um tanto quanto inofensiva. Deu mais de 1,1 mil passes, mas apenas sete chutes no gol. Akinfeev não teve o que fazer quando Sergei Ignashevich, companheiro de longa data, mandou a bola contra as próprias redes. Em compensação, realizaria algumas boas defesas ao longo dos 120 minutos de bola rolando. Ao fim do primeiro tempo, saiu nos pés de Diego Costa para uma intervenção providencial. Já no segundo, salvou aquele que poderia ser o tento de Andrés Iniesta. Na maioria das tentativas dos ibéricos, o arqueiro demonstrava um posicionamento impecável, facilitando o seu trabalho, e também muita confiança em si. Até que operasse um milagre que valeu como um gol no segundo tempo da prorrogação, parando Rodrigo Moreno. Era ele, ao lado de outros companheiros abnegados, como Mário Fernandes e Ilya Kutepov, um dos responsáveis pela sobrevivência até os penais.

Apesar da apreensão que os pênaltis impõem, o Luzhniki contrariou os sentimentos e entrou em erupção através do barulho de sua torcida. A pressão que esmagava os espanhóis era a mesma que agigantava os russos. E começaram as redenções. Ignashevich, vilanizado pelas besteiras frequentes na Copa, fez a melhor cobrança. Isso até que Akinfeev se consagrasse. Koke bateu mal? O capitão teve uma felicidade imensa em acertar o canto e espalmar com as mãos firmes, bem diferente do que aconteceu em 2014. O camisa 1 russo oferecia o oposto de David de Gea, que se limitava a cair apenas a um canto e sequer conseguia barrar as bolas que vinham em sua direção. Então, na quinta batida espanhola, quando Iago Aspas tentava ressuscitar a Fúria, o herói se eternizou. Como quem mudasse os próprios rumos da carreira, contorceu o corpo e conseguiu desviar o chute com a perna. Uma façanha à Rússia e a Akinfeev, enfim pagando em uma só partida os elogios e os créditos de mais de uma década, que tantas vezes pareceu não merecer.

Os segundos posteriores à defesa decisiva serviram para que Akinfeev extravasasse. Para que não mais escondesse o rosto por entre as luvas, como há quatro anos. Cerrou os punhos e vibrou bastante. Saltou no gramado e mergulhou, cabeça erguida. Enquanto isso, outros 22 jogadores russos vinham ao seu encontro. Abraçavam o capitão, o companheiro, aquele que os permitiu também experimentarem um momento tão grandioso. O momento que ninguém esperava a esta Rússia, candidata a pior anfitriã da história, compensando-se com a queda de uma das favoritas.

A vida de goleiro não concede relaxamentos. A Akinfeev, entretanto, teve a sua expiação. O camisa 1 ainda está sujeito às falhas e às suas deficiências, embora cresça demais com a façanha protagonizada no Luzhniki. E, independentemente do que acontecer nas quartas de final, seu lugar como ídolo já está garantido, como o responsável por liderar a maior vitória da história da Rússia. O tempo, aquele mesmo carrasco impiedoso que o afastou das promessas de outrora, será benfeitor ao camisa 1. No futuro, para os russos, os erros deverão se tornar lembranças menores. Fica o elo entre a promessa que fez história no CSKA Moscou, de tantos serviços prestados, e o salvador na Copa do Mundo que aconteceu em casa. O camisa 1 precisou de um jogo para se cumprir. Não se torna um goleiro melhor por isso. Mas vira um goleiro emblemático aos Mundiais.