O Ajax começou a Champions League empolgando muita gente. Após sobreviver às preliminares, a equipe de Erik ten Hag iniciou a fase de grupos com autoridade. Conquistou vitórias elásticas sobre Lille e Valencia – este que, por sua vez, convivia com a crise gerada pela demissão de Marcelino García Toral. E impressiona a maneira como o cenário mudou em poucos meses. Os holandeses desperdiçaram pontos contra o Chelsea, inclusive derrotados dentro de casa. Já os espanhóis resistiam, apesar de seus problemas. Por fim, a rodada final selou a reviravolta dentro da Johan Cruyff Arena. Mesmo precisando apenas de um empate, o Ajax não achou soluções ao seu jogo e sucumbiu a um Valencia heroico, que segurou a vitória por 1 a 0 com enorme esforço defensivo. Além da classificação, os Ches ainda descolaram a liderança do Grupo H.

Um dos desafios ao Ajax era lidar com os seus desfalques, num momento em que o clube sente o desgaste pela intensidade vivida desde o início da temporada. Quincy Promes e David Neres eram ausências sentidas no ataque, que passou a depender ainda mais de Dusan Tadic e Hakim Ziyech. Enquanto isso, o Valencia também não contaria com Jasper Cillessen na meta, mas confiaria muito mais no trabalho coletivo. A linha defensiva dos valencianos demonstrou uma solidez notável durante os 90 minutos.

Seria uma partida em altíssima voltagem desde os primeiros atos, afinal. E, na etapa inicial, a atmosfera se incendiou sobretudo pelo futebol veloz. As duas equipes atuavam de maneira franca, independentemente da vantagem do Ajax pelo empate. Os holandeses tinham mais posse de bola, embora apresentassem dificuldades para romper a defesa adversária. Os arremates eram um tanto quanto raros pelo volume de jogo dos Godenzonen. Os espanhóis, por outro lado, se defendiam com muita consistência e buscavam responder nos contragolpes.

Quando o Ajax parecia achar mais brechas, o Valencia puniu uma bobeira dos anfitriões para abrir o placar. O gol saiu aos 24 minutos. Foi um lance bem construído, entre as trocas de passes dos espanhóis e a ótima enfiada de Ferrán Torres. Porém, o posicionamento de Joël Veltman era inadmissível. Totalmente perdido dentro da área, o defensor deu condições a Rodrigo, que recebeu sozinho e fuzilou André Onana.

A reação do Ajax passava pelos pés de Ziyech. Grande nome da equipe nesta fase de grupos, o marroquino chamava a responsabilidade e criava as melhores chances de sua equipe. O que não queria dizer que os holandeses incomodavam muito o goleiro Jaume Domènech. A defesa mais difícil aconteceu após cruzamento de Ziyech, quando o arqueiro se esticou para afastar o perigo. Apesar da atitude da equipe de Erik ten Hag, era preciso arriscar mais.

Pouco antes do intervalo, a adrenalina chegou ao seu ápice com duas oportunidades claríssimas. Donny van de Beek teve a grande chance do Ajax na primeira etapa. Ao receber mais um cruzamento de Ziyech, o meia apareceu como elemento surpresa e tocou por cima de Domènech, vendido no meio do caminho. José Gayà salvou quase em cima da linha. E, na sequência, Rodrigo poderia ter feito o segundo. Recebeu de Kevin Gameiro, limpou a marcação e deveria ter cruzado, mas preferiu o chute rasante e parou no pé direito de Onana.

Na volta ao segundo tempo, o Ajax tentou cumprir a sua missão. Finalmente mostrou a postura incisiva necessária, mas encontrava um Valencia ainda mais aguerrido. Entre a falta de sorte e também de competência, os Godenzonen se afligiam. Sergiño Dest saiu do banco e teve a primeira chance, barrado por Domènech. Ziyech seguia como a principal figura dos Ajacieden, levando perigo em chute cruzado. Do outro lado, Rodrigo também era quem incomodava, com um arremate que tirou tinta aos dez.

O tempo começava a sufocar o Ajax. E algumas excelentes jogadas desperdiçadas indicavam como, definitivamente, este não seria o dia dos holandeses. A primeira delas foi perdida aos 22. Van de Beek fez o cruzamento perfeito a Ziyech, que invadiu a área com o gol bem à sua frente. O craque da equipe, todavia, pegou mal na bola e mandou para fora. Logo na sequência, seria a vez de Noa Lang perdoar, em tentativa de voleio que também saiu pela linha de fundo. Logo depois, Klaas-Jan Huntelaar entraria em campo para dar mais presença de área.

E se estava claro que faltava um pouco mais de calma ao Ajax na definição das jogadas, o time também caiu na pilha do Valencia. A partida ficou pegada de um jeito que não beneficiava os holandeses, com tempo perdido entre discussões. Os bate-bocas se tornaram frequentes e renderam cartões desnecessários aos Godenzonen, em especial durante uma falta dura de Nicolás Tagliafico na entrada da área.

Foi somente por volta dos 45 que o Ajax retomou a contundência no ataque. Esbarrou na atuação gigantesca do Valencia na defesa, com muita entrega e firmeza para afastar o perigo. Nem mesmo os raros deslizes dos valencianos permitiram o empate dos Ajacieden. Aos 44, Domènech saiu mal do gol, mas se redimiria ao pegar a bola colocada de Lisandro Martínez. Salvaria outra vez logo na sequência, espalmando o chute de primeira de Ziyech, rente a trave.

Diante do desespero, o Ajax passou a cruzar bolas a esmo. E ainda perdeu mais tempo na última confusão entre os jogadores. Dusan Tadic tentou erguer Gabriel Paulista do chão, após o brasileiro ficar caído por uma falta sofrida. O zagueiro perdeu a cabeça e partiu para cima do sérvio, o que rendeu o vermelho direto – além de minutos de jogo parado. O descontrole de Gabriel, em grande exibição, ao menos não atrapalhou o Valencia. Mesmo com um a menos, os Ches seguiram protegendo bem a sua defesa, até a confirmação da vitória pelo apito final.

O Ajax, obviamente, lamenta. E não dá para colocar a culpa apenas nos desfalques ou nos lances em que a falta de sorte pesou contra. Os Godenzonen não apresentaram o repertório necessário para superar a defesa do Valencia. Ficaram muito limitados às jogadas de Ziyech, que sentiu o cansaço no segundo tempo. Além disso, como em outros momentos nos últimos meses, o time de Erik ten Hag não conseguiu encarar uma defesa mais fechada. Dentro de casa, os holandeses viveram mais uma decepção.

O Valencia cresce. Apesar das desconfianças sobre o trabalho de Albert Celades, o time voltou a engrenar e se aproxima do G-4 no Campeonato Espanhol. Mais importante, de qualquer forma, é a retomada na Champions. Os Ches se deram melhor nos dois jogos contra o Chelsea, enquanto tiveram mais poder de decisão na “final” contra o Ajax. Saem revigorados para o segundo semestre. Rodrigo, em especial, merece ser valorizado. Após quase ser negociado com o Atlético de Madrid na última janela de transferências, anotou os gols mais importantes da equipe na Champions. Nesta terça, sequer escondeu as lágrimas na saída de campo.

Ao final da campanha, o Valencia chegou à liderança do Grupo H, com 11 pontos. Apesar da pontuação igualada com o Chelsea, os Ches ficaram à frente pela vantagem no confronto direto. Já o Ajax terminou esta etapa do torneio com dez pontos. Terá que se contentar com a Liga Europa, na qual até entrará no rol dos favoritos. Difícil é não desanimar com esta queda repentina na Champions, e quando parecia possível repetir um pouco da magia vivida em 2018/19.

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