O caminho para o Schalke 04 fazer jus ao peso de sua camisa ainda é longo. Mas, nesta terça-feira, a torcida deu boas-vindas a uma notícia que representa um passo à renovação dos Azuis Reais: Clemens Tönnies não será mais o presidente do conselho supervisor. O empresário ocupava o cargo mais importante da associação desde novembro de 2001. Envolvido em casos lamentáveis de racismo e disseminação do coronavírus por péssimas condições de trabalho em sua indústria, o dirigente também é um dos responsáveis pelas dificuldades financeiras enfrentadas pela equipe de Gelsenkirchen recentemente. E, diante da pressão crescente, resolveu deixar o cargo.

A torcida do Schalke pedia a saída de Tönnies desde o começo da temporada, quando o bilionário deu declarações racistas num evento fora do clube. O presidente pediu desculpas e tirou uma licença voluntária de três meses, mas não foi punido pelo restante da diretoria e voltou como se nada tivesse acontecido. A inação dos Azuis Reais para punir o mandatário incomodou muita gente, com manifestações nas arquibancadas se contraponto ao comportamento discriminatório do cartola.

Já nos últimos meses, Tönnies se tornou um dos grandes defensores do retorno da Bundesliga. O empresário ofereceu os laboratórios de sua indústria de carnes para fabricar os testes aos jogadores. Seus interesses eram claros, para que o prejuízo financeiro do Schalke (com as contas já comprometidas) se tornasse menor. Porém, a pandemia revelou o tratamento subumano conferido por Tönnies aos seus empregados. Sua indústria se tornou um foco de disseminação do coronavírus, com mais de 1,5 mil infectados entre os funcionários. As péssimas condições de higiene, inclusive em dormitórios, explicam os números. Além disso, o escândalo revelou a exploração dos empregados, sobretudo imigrantes vindos do leste europeu.

Combine-se a isso o péssimo momento do Schalke 04, com 16 partidas sem vencer na Bundesliga, e as dificuldades financeiras ainda encaradas pelo clube – realizando ações mesquinhas, como demitir funcionários idosos e exigir uma “justificativa” dos torcedores que pediram reembolso dos ingressos aos jogos sem público. Desde a última semana, diversas manifestações encabeçadas pelos ultras de Gelsenkirchen pediam mudanças. No sábado, mais de mil torcedores estiveram nos arredores da Veltins Arena para protestar. Até que o presidente não aguentasse mais os questionamentos e abandonasse o barco.

Tönnies justificou sua decisão como necessária para se concentrar na crise em seus negócios. Em nota oficial assinada pelo novo presidente interino, o advogado Jens Buchta, o Schalke lamentou a saída: “Lamentamos muito a decisão de Clemens Tönnies. Como presidente nas últimas décadas, ele moldou o comitê gestor com uma mistura de realismo e dinamismo. Sempre foi a mente que iniciou e apoiou os processos pioneiros. Será difícil substituí-lo, por sua experiência e seu conhecimento”. Tönnies tinha mandato até 2022 à frente dos Azuis Reais.

Como presidente do Schalke, após fazer parte da direção desde 1994, Tönnies geriu o clube no início da Arena AufSchalke – a atual Veltins Arena. O mandatário assumiu meses depois da inauguração do estádio, construído com recursos do próprio clube, em projeto no qual ele participou ativamente. Todavia, o que se sugeria como uma nova era não se reverteu em sucesso dentro de campo. Neste período, a agremiação se manteve como uma das 20 mais ricas da Europa e chegou a apresentar a décima maior receita do continente em 2012. Ter se limitado a dois títulos da Copa da Alemanha e a um da finada Copa da Liga é pouco, mesmo considerando uma semifinal de Champions e quatro vices da Bundesliga no caminho.

Já nos últimos anos, o Schalke se manteve como um clube com boa estrutura, mas péssimas decisões. A dificuldade para segurar as revelações da base é um exemplo, assim como os problemas para montar equipes realmente competitivas dentro de suas condições. Mas pior seriam os posicionamentos públicos de Tönnies, que mancham a própria história da agremiação e prejudicam a sua imagem. O pedido de demissão representa um alívio diante de tudo o que se vive, com os Azuis Reais precisando se reconstruir rumo a 2020/21 e também precisando conter o rombo nas finanças. E que as estruturas de poder sejam rígidas, com a mesma base na direção, ao menos alguém novo poderá conduzir os necessários próximos passos.