Barcelona e Liverpool compartilharam jogadores suficientes em sua história para quase encher os dedos das duas mãos. São oito atletas que passaram por Anfield e Camp Nou, todos a partir da década de 1990. Há aqueles que brilharam com uma das camisas, os que viveram de lampejos, os que decepcionaram. Philippe Coutinho engrossou uma lista que já contava com Mauricio Pellegrino, Boudewijn Zenden, Jari Litmanen, Pepe Reina, Luis García e Javier Mascherano. No entanto, somente um deles pode realmente se colocar como uma lenda: Luis Suárez. Sua trajetória está marcada em ambos os gigantes. Graças a eles, o Pistolero também se reivindica como o melhor centroavante da década.

O carinho por Luis Suárez, afinal, poderia depender só dos gols. E são muitos para se recordar. O uruguaio anotou 82 tentos com a camisa do Liverpool, marca expressiva para três temporadas e meia. Cresceu de produção em Anfield, após ser trazido do Ajax, e fez os torcedores sonharem bastante na imparável campanha de 2013/14. Foram 31 tentos em 33 partidas, que deixaram os Reds a um triz da Premier League. Os deslize (cruelmente, de maneira literal) nas rodadas finais impediu o Pistolero de se eternizar com uma taça que correspondesse à sua grandeza. Mas ainda assim deixou saudades.

O veterano, inclusive, comparou momentos e elogiou o trabalho atual do Liverpool. “Eu entendo o que eles estão passando na Premier League e não é fácil, mas acho que com a gente era diferente. Era ‘agora ou nunca’, um caso único. Quando eu estava em Anfield, era outra equipe. Estávamos próximos da taça com um elenco que nem de longe era tão bom quanto este. A diretoria não gastava tanto. Qualquer jogador gostaria de ir ao Liverpool agora, antes não era assim. Se tivéssemos ganho a liga, acho que seria uma façanha maior, por essa distância”, analisou Suárez, em entrevista ao Guardian. “O trio de ataque é muito rápido, técnico, com muito talento. São jogadores que fazem a diferença e os resultados do Liverpool dependem deles. É o tipo de atleta com quem você adoraria atuar, com o nível que você espera de um clube como o Liverpool, montado para conquistar a Premier League e a Champions. Eles também sabem encarar os jogos, talvez não soubéssemos tão bem naquela época. O que aconteceu com Stevie foi azar, mas pegue a partida contra o Crystal Palace. Sentíamos que precisávamos marcar mais, pelo saldo. Foi um erro por sermos jovens demais”.

Suárez optou por rumar ao Barcelona em 2014/15. E não era apenas uma questão de se transferir a um clube mais badalado. O uruguaio também possuía sua relação com a cidade: quando ainda namorava sua atual esposa, Sofia, viu a adolescente se mudar à Catalunha com a família. A distância fez o atacante se empenhar em busca de uma transação à Europa. O casamento aconteceu em 2009, época em que jogava na Holanda, mas a chegada ao Barça não deixava de ser um reencontro com sua própria história de vida. Enquanto isso, o reconhecimento ao artilheiro decolou. Seu desempenho foi igualmente fantástico, para conquistar a tríplice coroa na primeira temporada e empilhar gols. Sua parceria com Lionel Messi merece ser lembrada como uma das maiores, pelo entrosamento dentro e fora de campo. Correspondeu balançando as redes: que seu nível tenha caído nas temporadas recentes, são 176 tentos em cinco anos, número que o alça como o quinto maior artilheiro do clube – e, exceção feita a Messi, dá para ultrapassar em breve todos os outros à sua frente.

Suárez, aliás, é humilde ao falar sobre a genialidade do amigo argentino: “Não é apenas o que você vê ele fazendo pela televisão ou no estádio. Eu percebo quando jogo com ele: começo a correr com a cabeça baixa e a bola aparece no lugar certo. E você pensa: ‘Como ele colocou lá? Como ele sabia que eu iria até lá?’. Às vezes você está lá, esperando para receber o passe e há três jogadores entre vocês dois. Aí você pensa: ‘Não, não, vou pra outro lugar, porque não dá para passar aqui’ e ele faz, mas você já foi. O passe não funcionou, mas é minha culpa, por duvidar que ele não pode conseguir. Há milhares de lances assim”

Idolatrar Luis Suárez, porém, não é uma estrita relação com os gols. É reconhecer a sua personalidade. E se muita gente que vê de fora tem sua reticência ao Pistolero, se torna praticamente impossível não venerá-lo com a camisa de seu próprio time. Sabe aquele jogador que resolve, que cresce nos momentos decisivos, que não deixa de lutar nunca, que se torna um tormento aos adversários? Luisito incorpora todo esse espírito. Sim, será necessário lidar com alguns destemperos e outros problemas disciplinares – por vezes sérios. Mas também será o cara que entregará ao máximo pela camisa, que corre até o último instante. Aquele que todo mundo quer ter na sua equipe. Além do mais, o amadurecimento de Suárez pesa a seu favor.

E se há tantos motivos para aplaudir Luis Suárez, em Anfield ou no Camp Nou, as marcas na história são indeléveis. De certa maneira, o Liverpool redescobriu sua ambição pelos grandes títulos com o atacante. Ele foi o principal personagem no início desta “nova era” dos Reds, deixando para trás as decepções da virada da década. Graças ao Pistolero, o clube voltou a se tornar representativo no mercado e atraiu bons jogadores, para ampliar seu sucesso sob as ordens de Jürgen Klopp. Já ao Barcelona, sua contribuição tem mais a ver com a renovação das ambições. Foi isso que incutiu em 2014/15, impulsionando uma campanha memorável na Champions. Ainda que o Real Madrid tenha sido mais dominante no continente, o uruguaio também colecionou taças no Camp Nou – e até merece mais.

Existem dúvidas quanto à maneira como Philippe Coutinho será tratado pela torcida do Liverpool, da mesma forma que não anda atraindo o carinho no Barcelona. Quanto a Suárez, não há qualquer entrave. No Camp Nou ou em Anfield, sobram motivos a aplausos. E sua própria família está empolgada com a chance de retornar à Inglaterra, durante a segunda partida das semifinais: “Meus filhos nunca vão aos jogos na Liga dos Campeões, mas querem ir a este. Estava falando com minha esposa sobre Anfield e eles disseram: ‘Nós vamos também’. Talvez o único que não vá seja Lauti, de seis meses. Benja tem seis anos. Era muito pequeno, mas nasceu em Liverpool e sabe que foi seu primeiro estádio, já viu fotos. Parte da infância de Delfi, hoje com oito anos, foi lá: quando ela começou a se empolgar com futebol, eu jogava no Liverpool. Ela se lembra como era, cantando ‘You’ll Never Walk Alone’, então imagine o que significa. Será um sentimento estranho, mas adorável também. Reencontrarei colegas e amigos. Recebi mensagens da senhora da cantina no CT em Melwood, ela quer ver as crianças: sempre cuidava de Delfi. Será ótimo voltar”.

E diante de dois momentos tão marcantes à sua carreira, vale relembrar os gols que recontam estes laços. Só uma parte dos motivos que transformaram o Pistolero em um ídolo histórico: