Depois de um mercado movimentado em janeiro, as atenções no retorno do River Plate ao Monumental de Núñez estavam nos reforços. Franco Armani estreou como titular, Lucas Pratto e Juan Fernando Quintero saíram do banco. No entanto, a mente dos torcedores millonarios terminou a noite se esquecendo de cifras e apertos de mãos. A única coisa em que pensavam era na magia de Ignacio Scocco. O atacante abriu o placar contra o Olimpo com um belo gol de falta. Mas nada se compara ao que fez aos 36 minutos do segundo tempo, para definir a vitória por 2 a 0. Uma obra de arte digna de todos os adjetivos possíveis. Inclusive, passível à assinatura de Lionel Messi e Diego Armando Maradona. O gol da vida do camisa 32 e um dos mais bonitos da história do Campeonato Argentino.

Até parecia uma jogada comum. Scocco recebe no meio, rodeado por jogadores do Olimpo, em um ataque sem tantas opções ao River Plate. Então, ele começa a sua destruição. Limpa o primeiro marcador e deixa o segundo para trás. Quando o terceiro chega, este passa no vazio, e o primeiro volta para um carrinho em vão. O quarto é mais um a ficar no vácuo, enquanto o quinto passa batido, caído no chão.

Perseguido por quatro, Scocco só tem o goleiro pela frente. É apenas finalizar com carinho e correr para o abraço, certo? Não quando se tem uma antologia para encerrar. O veterano não está satisfeito. Dá um drible seco no goleiro, que se joga no gramado e não consegue parar o atacante. A meta está vazia. E na hora em que o sétimo adversário diferente o alcança, ele chute manso, para que o marcador derradeiro torne tudo mais poético: um carrinho desesperado, para acabar dentro do gol junto com a bola. Daqueles lances que provocam o espanto, que fazem os olhos brilhar e as mãos irem à cabeça automaticamente. Inacreditável, deslumbrante, magnífico.

As manchetes dos jornais argentinos são enfáticas. As comparações a Messi e Maradona soam naturais, porque foram eles que tantas vezes humilharam filas de oponentes de maneira tão desmoralizante. Que o Olimpo não seja o maior dos desafios e alguns marcadores tenham sido frouxos na pressão, um golaço desses nunca se menospreza, por toda a dificuldade de driblar, e driblar, e driblar em espaços tão curtos. Significa, simbolicamente, a entrada de Scocco ao Olimpo de jogadas mais geniais já vistas no futebol argentino, de tantas obras singulares.

Sem se dar conta do que fez, Scocco deu uma entrevista cheia de clichês depois da partida: “Serviu para ganhar. São três pontos importantíssimos para a confiança da equipe. Os movimentos dos meus companheiros foram importantes para eu ficar sozinho e, quando veio o goleiro, pude passar por ele”.

Talvez a beleza de se viver tal gol em primeira pessoa não seja tão inebriante quanto vê-lo à distância. Em campo, com a bola nos pés, raciocina-se rápido para antever a jogada e encontrar um jeito de vencer o próximo adversário, repetidamente. Assistindo ao lance, passam-se mil coisas pela cabeça do espectador, enquanto os olhos não se desgrudam do movimento. E a principal dúvida é: quando ele perderá a bola? Algo que nunca acontecerá. Por mais que a gente saiba a verdade, o replay sempre impõe a interrogação. E é desse impossível negado que nascem os gols mais sublimes. Resta a nós, mortais, apreciar uma pintura que se torna imortal:


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