Qualquer jogo do acesso, por si, representa um drama sem tamanho. Os dois times em campo disputam não apenas uma conquista esportiva, mas também o planejamento do futuro e a busca por melhores perspectivas. O modelo adotado em alguns países da Europa, de confrontar em playoffs o antepenúltimo de uma divisão com o terceiro de outra, aumenta os contornos emocionais – sobretudo para quem vem de baixo, em piores condições. E fica difícil imaginar uma alucinação maior que a vivida pelo Le Mans, nos playoffs de acesso à Ligue 2. Após perder o jogo de ida por 2 a 1 em casa, o representante da terceirona precisava buscar o resultado fora, contra o Gazélec Ajaccio. Cumpriu a façanha, do jeito mais caótico possível: o triunfo por 2 a 0 veio com um pênalti salvo pelo seu goleiro aos 49 do segundo tempo, antes que o gol decisivo saísse do outro lado no sétimo minuto dos acréscimos – e de bicicleta. O inacreditável terminou em catarse coletiva.

A própria história do Le Mans já guarda um drama por si. O clube foi participante costumeiro da primeira divisão do Campeonato Francês na última década. Foram seis aparições na elite, todas neste século, com o rebaixamento definitivo ocorrendo em 2010. Porém, a agremiação seria devastada por uma grave crise financeira. Durante a bonança, a diretoria deu passos grandes, que acabaram sendo maiores que as pernas. Iniciou a construção de um moderno estádio para 25 mil pessoas, inaugurado em 2011, e investiu pesado no elenco. Quando caiu à segundona, tentou o acesso imediato com um elenco caro e as consequências seriam brutais.

As dívidas do Le Mans começaram a se tornar insustentáveis na segunda divisão e provocaram uma bola de neve. Era necessário vender os principais jogadores para conter o rombo e isso provocou a queda de desempenho, que só tornava o buraco mais profundo. O rebaixamento forçado pela bancarrota deveria ter acontecido já em 2012, mas a Direção Nacional do Controle de Gestão (responsável pelo fair play financeiro da liga) resolveu dar um voto de confiança, diante das iniciativas da diretoria e da prefeitura. Contudo, não foi isso que culminou na salvação necessária, com a falta de capital e a venda simbólica da agremiação a novos donos. Por fim, diante da inescapável falência, o clube teve seu status profissional revogado e precisou recomeçar na sexta divisão, regionalizada.

Após a liquidação judicial em outubro de 2013, o Le Mans conseguiu se reerguer. Foram quatro acessos desde então, deixando a sexta divisão para alcançar agora a segundona. O trabalho firme, todavia, não garantiu um processo automático. O time precisou se recuperar do mau início para subir à quinta divisão em 2013/14 e passou três anos até alcançar um novo acesso à quarta. A escalada maior aconteceu nas duas últimas temporadas. Terminou na liderança de seu grupo na quarta divisão em 2017/18, valendo a subida. Já em 2018/19, quando o objetivo seria manutenção na terceirona e restabelecer suas condições, o MUC deu um passo à frente.

O Le Mans flertou com o acesso durante toda a campanha na National – como é chamada a terceira divisão. Permaneceu em boa parte do segundo turno na terceira colocação, que o levaria aos playoffs. Apesar de uma sequência ruim a partir de fevereiro, o time se recuperou com cinco vitórias nas cinco rodadas finais e ganhou o direito de brigar pela promoção com o Gazélec Ajaccio, antepenúltimo colocado da Ligue 2. O favoritismo estaria com os adversários, que decidiriam a segunda partida em casa e vinham de uma divisão superior, com direito a uma participação recente pela Ligue 1. E as esperanças do MUC sofreram um duro golpe logo na ida, com a derrota por 2 a 1 diante de sua torcida na MMArena.

O milagre se consumou neste domingo, na Córsega. O reencontro foi insano desde os primeiros minutos. O Le Mans chegou a mandar uma bola na trave durante a etapa inicial, enquanto os dois goleiros faziam excelentes defesas. Além disso, com o auxílio do VAR, os dois times tiveram gols anulados por impedimentos milimétricos. A reação dos visitantes só começou a se desenhar aos 28 do segundo tempo, quando Rémy Boissier chutou cruzado e tirou do alcance do goleiro.

Ainda assim, o Le Mans precisava de mais um gol para confirmar o acesso, já que os gols fora garantiam a manutenção do Gazélec Ajaccio. E o sonho pareceu ruir depois que Pierre Lemonnier cometeu um pênalti desastrado aos 49 do segundo tempo. Nicolas Kocik, incrivelmente, defendeu a cobrança de Wesley Jobello. Até que, nos parcos minutos que restavam, o impossível tomou forma. Após o cruzamento da direita, a bola foi aparada de cabeça por Stéphane Diarra e Mamadou Soro Nanga emendou uma espetacular bicicleta. Um golaço, que calou a torcida do Gazélec Ajaccio e provocou uma explosão na comemoração. Contra todas as probabilidades, o MUC subiu à segunda divisão. De uma maneira para ninguém se esquecer.

Os contornos da vitória lembram o histórico triunfo do Watford nos playoffs da Championship há seis anos, contra o Leicester. Porém, se o tento de Troy Deeney aconteceu justamente em um contragolpe originado pelo pênalti defendido por Manuel Almunia, ele não valia o acesso direto – que o time nem faturou, perdendo ao Crystal Palace em Wembley. O contexto engrandece o Le Mans. Vale ressaltar, ainda, que o árbitro havia dado inicialmente seis minutos de acréscimos na Córsega. O minuto extra do gol de Soro Nanga, o último, foi adicionado por causa do pênalti.

E ninguém pode dizer que faltou coragem a Soro Nanga. “Só ele para tentar isso nos últimos segundos. Com o gol de ontem, ele entrou na história do clube. É ele quem permitiu que o Le Mans voltasse ao mundo profissional, então o gol ficará gravado por muito tempo, especialmente diante da situação e da tentativa insana”, exaltou o companheiro Cédric Mensah, à SoFoot. O centroavante marfinense foi um dos destaques na quarta divisão, mas perdeu espaço nesta temporada e muitas vezes saiu do banco. Já neste domingo, como titular, apresentou sua confiança gigantesca. Entra para o hall de compatriotas que foram ídolos no Le Mans, incluindo Didier Drogba e Gervinho.

O pênalti defendido por Kocik e a bicicleta de Soro trazem novas perspectivas ao Le Mans. Retornar à Ligue 2 significa, mais do que reivindicar sua posição histórica no campeonato nacional, também recuperar seu status 100% profissional. É a oportunidade para se reestruturar e buscar o crescimento gradual. Até pela MMArena, um estádio moderno para os padrões da divisão, e pelo equilíbrio costumeiro no campeonato, não será difícil ver o MUC emendando um novo acesso em breve. A sorte parece estar do lado da equipe, depois da epopeia vivida neste domingo.