Um passeio por Cingapura (Parte I)

Atuais campeões do ASEAN Games, o principal torneio de seleções do sudeste da Ásia, Cingapura vive seu melhor momento no cenário futebolístico, e nada como bater um papo com uma das principais figuras do futebol local: o experiente defensor Shunmugham Subramani (foto ao lado), capitão do Home United, que está na briga pelo título da S-League, o Campeonato Nacional da península.

Neste contato, “Maní”, como é carinhosamente chamado, fala da seleção do país (na qual acabou de se despedir), da acirrada disputa pelo titulo cingapuriano, do desenvolvimento do futebol na liga, e outros detalhes de bastidores de uma das regiões mais exóticas do ‘planeta bola’.
Humilde e extremamente solícito, o jogador de origem indiana ficou surpreso em ser procurado pela Trivela.

“Devo ser o primeiro jogador de Cingapura que fala com a imprensa brasileira!” gaba-se o jogador de 35 anos, que é budista.

A S-League 2007 está muito competitiva com o seu Home United brigando ‘palmo a palmo’ com o Tampines Rovers e o atual campeão Singapore Armed Forces pela liderança do campeonato, que termina em novembro. Quais as principais armas de cada um dos oponentes do Home United?
Definitivamente o campeonato deste ano está muito competitivo. Com uma equipe como o Tampines que tem um plantel muito rodado e com jogadores experientes. Eles jogam com boa troca de passes e com muita habilidade para manter a posse da bola durante o jogo. Assim como o Singapore Armed Forces (SAFFC), que também tem uma grande equipe com jogadores de qualidade. É o clube mais rico da liga. Eles têm seis estrangeiros, incluindo dois jogadores que estão recebendo cidadania cingapureana.

Chama a atenção o sistema tático desenhado pelo técnico de vocês, Vincent Subramaniam. Ele escala quatro atacantes: Indra Sahdan, Qiu Li, Swee Swee, e o camaronês Ludovick. Como defensor da equipe, o que você pensa do estilo extremamente ousado do time?
Sim, o Home United joga de forma muita ofensiva este ano com quatro atacantes de muita qualidade. Existe um balanço muito bom no ataque entre jogadores jovens e mais experientes, que vinham marcando gols regularmente nas temporadas passadas. Todos eles são muito rápidos também.

Apesar de representarem 80% da população do país, é muito difícil ver jogadores de origem chinesa na S-League – maioria indiana e malaia – mas o meio-campista chinês do Home United, Shi Jiyai, é um dos destaques da liga. Conte-nos sobre o perfil deste jogador?
Realmente não existem muitos jogadores de descendência chinesa na S-League. Shi Jiyai veio da China e se naturalizou cingapuriano há dois anos. Ele é um bom jogador, com boa técnica. Um jogador de equipe. Estou muito feliz por tê-lo como companheiro.

A atual equipe do Home United é melhor que aquela que conquistou o título, em 2003, dirigida pelo técnico inglês Steve Darby e com os brasileiros Peres e Egmar (naturalizado cingapuriano)?
O time de 2003 era melhor porque tinha mais experiência e mais qualidade. O nosso treinador da época, Steve Darby (atual Perak, da Malásia) foi um dos melhores técnicos que eu já trabalhei. Agora, em 2007, nós temos um plantel muito jovem com muitos jogadores em inicio de carreira.

Sobre a amizade com Peres (atual Tampines Rovers) e Egmar (retirado), os brasileiros de maior sucesso na história do futebol de Cingapura. Quais as principais lembranças que você guarda deles?
Egmar foi um jogador fantástico que marcou muitos gols. Ele foi meu companheiro por oito anos (1999-2006). Nós tínhamos uma excelente relação, como irmãos (morando no Espírito Santo, Egmar quer que ‘Maní’ passe o verão no Brasil). Ele é muito disciplinado, forte, e bom companheiro de equipe. Peres é um jogador muito habilidoso. Muito bom nas cobranças de falta também. Foi meu companheiro por cinco anos (2001-2005).

Egmar travou com o croata, também naturalizado cingapuriano, Mirko Grabovac, um grande duelo pela artilharia durante muitos anos. Porém, jogando junta na seleção, a dupla não funcionou. Qual deles é mais perigoso na área?
Eu prefiro Egmar porque foi meu companheiro e é um jogador de mais qualidade. Além de ser um grande modelo de profissional para os jovens.

Egmar falou à Trivela há alguns meses e se mostrou decepcionado com o pouco espaço que a mídia local dá para a S-League, dando mais ênfase para cobertura da Liga Inglesa, por exemplo. Também nota-se que, ao contrário da vizinha Malásia, raramente vemos estádios lotados. A falta de apoio midiático é um dos problemas no desenvolvimento da liga?
Sim, não existe uma cobertura apropriada da mídia local e este é o maior problema. A imprensa daqui dá maior preferência a Premier League Inglesa. Em termos de público, infelizmente não estamos conseguindo atingir a capacidade total dos estádios (que variam entre 2 e 6 mil lugares) durante os jogos, apesar do futebol ser o esporte mais acompanhado pela população.

Ele também comentou sobre o astro cingapuriano Indra Sahdan, um jogador diferenciado para os padrões locais e que já fez testes no Chelsea-ING, mas que tem medo de defensores duros e se esconde do jogo quando recebe ameaças. Falta-lhe caráter para atingir níveis mais elevados?
Sobre Indra, ele é um bom atacante que pode marcar gols importantes para uma equipe, mas como Egmar disse, essa é a grande fraqueza dele. Algumas vezes Indra tem receio de divididas mais duras e defensores mais fortes. Como companheiros de equipe às vezes ficamos frustrados, mas conseguimos aceitar que este é Indra..

Esta é a 12ª edição da S-League desde a profissionalização do futebol no país, em 1996. Sendo um dos jogadores mais antigos, como você viu o desenvolvimento da competição?
Nós podemos ver, com certeza, a melhora no decorrer dos anos. As equipes da S-League melhoraram e possuem jogadores com mais qualidade agora, e com isso, pudemos desenvolver nossa seleção também, alcançando melhores resultados ultimamente. Muitos jovens jogadores estão vindo para a liga.

Quais os jogadores que mais te impressionaram ao longo desses anos?
Jogadores tais como Egmar, Bozi, Zolt, Surachai, Nico, Earnie e Karpor.

Você gosta do trabalho dos chefes e diretores da liga e da associação de futebol de Cingapura?
Existem bons administradores na S-League, mas as coisas ainda estão longe em termos de ordem. Eles devem adquirir mais experiência, conhecimento administrativo e de gestão.

Sendo um país relativamente novo, com pouco mais de 40 anos, três etnias convivendo em desigualdade e com muitos estrangeiros naturalizados, você sente que o jogador cingapuriano tem orgulho de colocar o uniforme da seleção?
Durante os anos que joguei na seleção existiram competições fortes entre os jogadores por um lugar no time titular, e assim, nós sempre tivemos muito orgulho e determinação de vestir o uniforme da seleção.

Existem vários estrangeiros naturalizados atuando na seleção de Cingapura. Até que ponto isso prejudica o futebol daí?
Para mim, esses jogadores estrangeiros naturalizados na seleção deve ser somente por um período curto, até o futebol daqui conseguir se desenvolver a ponto de não necessitar mais deles.

Qual o segredo do sucesso do técnico Radojko Avramovic frente à seleção de Cingapura? Quais as diferenças entre ele e o treinador anterior, o dinamarquês Jan Poulsen?
‘Raddy’ trouxe mais talentos estrangeiros para jogar na seleção, e ao mesmo tempo ele introduziu alguns jogadores jovens. Ele também já chegou aqui tendo algum conhecimento do futebol asiático devido sua experiência no Oriente Médio (Raddy trabalhou no Omã e no Kuwait).

Entrevistamos ‘Raddy’ há alguns meses e ele garantiu que Cingapura é a melhor seleção do sudeste asiático. Você concorda?
Atualmente somos os campeões do ASEAN Games, então, eu suponho que no momento nós somos o melhor time do sudeste da Ásia, sim.

Como você avalia a conquista do ASEAN Games no inicio do ano, que foi sua última competição com a camisa de Cingapura?
O ASEAN games foi muito competitivo. Muitos times do sudeste asiático tem melhorado bastante no decorrer desses anos. Vencer esta competição não foi um sucesso somente para a seleção, mas para a S-League também.

Com o final da carreira se aproximando para você e o Iskandar, será o nigeriano naturalizado cingapuriano Precious Emuneraye, do Gombak United, o próximo grande zagueiro da seleção no futuro?
Eu acredito que existem muitos jovens vindo para a liga que eventualmente ficarão com nosso papel num futuro próximo. Não só Precious, como também Ismail (Yunos, do Young Lions) e Samat (Shariff, do Tampines Rovers).

É notável a fragilidade física dos futebolistas do sudeste asiático. Muitos profissionais com passagem pela região, inclusive Egmar, afirmam que é necessário os jogadores daí adotarem uma dieta onde ganhem massa muscular, num trabalho que inicie desde as categorias de base. Qual sua visão sobre este tema?
É verdade, Egmar está certo, muitos jogadores daqui não tem a compleição física adequada para competir em alto nível. Esta tem sido uma das desvantagens que temos contra outros países de mais expressão na Ásia. Isto acontece principalmente devido a nossa dieta e a falta de treinamento adequado para ganhar massa muscular.

Alguns clubes como o Tampines Rovers realizam ótimos trabalhos com crianças e adolescentes nas escolinhas do clube, as chamadas ‘academias’. Como você vê o futebol de Cingapura para o futuro?
O futebol em Cingapura está desenvolvendo e existem muitas oportunidades. Então, nós devemos nos concentrar mais no desenvolvimento dos nossos jovens porque em termos de progresso, mais adiante, precisamos ficar ainda mais fortes.

Fique ligado! A S-League possui um belo website, confira: www.sleague.com

FICHA

Nome: Shunmugham Subramani.
Local de Nascimento: Queenstown, Cingapura.
Data de Nascimento: 02/08/1972
Clubes:
1992: Tiong Bahru Constituency
1993: Tiong Bahru Constituency
1994: Tiong Bahru Constituency
1995: Tiong Bahru Constituency
1996: Tiong Bahru United*
1997: Tiong Bahru United
1998: Tanjong United*
1999: Home United
2000: Home United
2001: Home United
2002: Home United
2003: Home United
2004: Home United
2005: Home United
2006: Home United
2007: Home United

*Anos em que o Tiong Bahru Constituency mudou de nome até ser extinto em 2004.