O primeiro Dérbi entre Corinthians e Palmeiras aconteceu em maio de 1917, motivo de amplas comemorações no último ano por seu centenário. No entanto, um dos episódios mais curiosos (e, de certa maneira, importantes) para atiçar a rivalidade entre corintianos e palestrinos ocorreu há 100 anos, em maio de 1918. O “clássico do osso” virou uma bela anedota para enfatizar a provocação e o clubismo que sempre existiram de maneira saudável nos duelos entre dos clubes com origens entre massas de operários e imigrantes, raízes que facilitaram sua aproximação em tempos amadores do esporte. Apenas um capítulo da história que se amplia neste domingo, quando ambos se reencontram pelo Brasileirão.

Apesar da fundação de ambos na primeira metade da década de 1910, o fato de disputarem campeonatos diferentes no cindido futebol paulista adiou o primeiro Dérbi. Em 1917, Corinthians e Palestra Itália haviam se enfrentado duas vezes, com duas vitórias alviverdes. Já em 1918, um pouco mais de tempero na rivalidade nascente. Em março, os dois times tinham realizado um amistoso no Estádio da Ponte Grande, que serviu para inaugurar a primeira casa do Corinthians. Construído nas proximidades da atual Ponte das Bandeiras, em um terreno arrendado pela prefeitura, o gramado foi preparado pelos próprios jogadores alvinegros. Já em campo, apesar do ótimo início corintiano, os palestrinos conseguiram tirar uma desvantagem de dois gols no segundo tempo para buscar o empate por 3 a 3. Uma semana depois, novo amistoso e triunfo do Palestra por 4 a 2.

Assim, um incômodo jejum atravancava o Corinthians naqueles primeiros meses de rivalidade. E o primeiro duelo pelo Campeonato Paulista de 1918, em maio, logo se apimentou. Conta-se que aquele Dérbi começou antes mesmo do Dérbi. Às vésperas da partida, os jogadores corintianos almoçavam tranquilamente, reunidos em uma pensão. Eis que, de repente, algo quebra a vidraça do local. Era um pedaço de osso de boi, e nele estava amarrado um bilhete: “O Corinthians é canja para o Palestra”. Segundo algumas fontes, teriam sido os próprios atletas palestrinos que fizeram a brincadeira. Fato é, que mesmo inofensiva, mexeu com o brio dos alvinegros para o encontro.

O jogo em 13 de maio aconteceu no Estádio da Floresta – onde os palestrinos costumavam mandar parte de seus jogos, localizado no bairro do Bom Retiro e não muito longe da Ponte das Bandeiras. De um lado, o Corinthians já contava com jogadores que marcariam os primeiros anos de sua história e já defendiam a seleção brasileira. O capitão era Amílcar Barbuy, centromédio bastante respeitado na época. Já na ponta aparecia Neco, o homem que dedicou sua carreira ao clube, primeiro grande herói da torcida. Mas não que o Palestra não tivesse com seus selecionáveis ou suas grandes referências. Heitor se firmava como artilheiro e emblema alviverde, honrando a camisa que vestiu por 15 anos. Caetano e Picagli apareciam nas listas da Seleção. E o capitão era Bianco, o defensor habilidoso que havia conquistado o Paulista de 1914 com o Corinthians, mas depois optou por defender o Palestra, em ato visto como traição pelos alvinegros.

Havia enorme expectativa para o jogo, como narra A Gazeta do dia seguinte: “O encontro entre os quadros do Palestra e do Corinthians chamou uma enorme concorrência de aficionados do futebol. O aspecto das vastas dependências do ground da Floresta apresentava um dia de grande festa esportiva. As pessoas que ali se achavam, entre as quais muitas famílias, acompanhavam com muito interesse o desenrolar da pugna. Graças às medidas tomadas pela polícia e pelas diretorias dos clubes, nenhum incidente foi registrado. Apenas no portão da entrada, devido à grande aglomeração do povo, registraram-se pequenos incidentes próprios de ocasiões como esta, onde o povo se apinhava para obter o ingresso para o jogo. Para evitar atritos, a autoridade de serviço teve que mandar espalhar o povo à pata de cavalo. Às 14 horas, a assistência era calculada em cerca de 12 mil pessoas. Meia hora depois, os diretores do Palestra foram obrigados a cerrar os portões, não porque o Estádio da Floresta deixasse de comportar maior número de pessoas, mas devido exclusivamente à falta de ingressos”.

Melhor durante o início da partida, o Corinthians pressionava a defesa do Palestra Itália. Contudo, os adversários saíram em vantagem logo aos 15 minutos, graças a uma “falta executada com estilo” por Picagli. De qualquer forma, o Dérbi daquela tarde na Chácara da Floresta esteve próximo da insanidade. Neco comandaria a reação corintiana. O atacante daria o passe para Basílio empatar e ele mesmo decretaria a virada, “arrancando aplausos frenéticos da assistência”. Mas pouco antes do intervalo, Caetano recebeu o passe de Ministro, escapou da marcação e empatou novamente “em belo chute enviesado”. Já no segundo tempo, Heitor aproveitou um ataque rápido para deixar os palestrinos em vantagem, próximos da vitória. Mas os alvinegros seriam mesmo osso duro de roer. Na reta final do clássico, Neco apareceu para ser ovacionado. Seu gol de falta decretou o empate por 3 a 3.

“Tanto pelas simpatias de que os dois clubes gozam em nossa capital, como pelo valor dos times, o jogo de ontem prometia ser, como de fato foi, além de enormemente concorrido, encarniçadamente disputado. A pugna, se sob o ponto de vista técnico deixou um pouco a desejar, foi, no entanto, coroada pelo resultado natural, dado o equilíbrio evidente que existiu na força das duas equipes contendoras no jogo apresentado em campo. Não houve, a bem dizer, domínio de nenhum dos lados, quer na primeira, quer na segunda fase da luta. As investidas sucediam-se às investidas, as defesas aos contra-ataques e as arrancadas rápidas ora eram anuladas pela intervenção dos defensores, ora eram brilhantemente defendidas pelos goleiros. Se mais oportunidade teve um do que o outro de argumentar o seu placar, não quer isso dizer que tivesse havido superioridade evidente de algum dos lados”, analisou o Correio Paulistano do dia seguinte.

O jogo pelo segundo turno do Paulistão não aconteceria. O Palestra Itália se retirou da competição e da própria federação (então, a APEA) depois do jogo contra o Paulistano. Os alviverdes se rebelavam contra alegados favorecimentos feitos pelo árbitro carioca Fausto Torres aos adversários, bem como às provocações dos dirigentes do clube da elite que ganharam as manchetes nos veículos de imprensa. Membros do Paulistano faziam chacotas quanto às origens italianas dos palestrinos e a partida terminou com uma briga generalizada, envolvendo jogadores e torcedores. No ano seguinte, todavia, com as boas ações do Palestra para ajudar a tratar os doentes da gripe espanhola, abrindo as portas de sua própria sede para criar um centro médico, a pressão popular resultou em seu retorno à APEA. Em 1919, o Corinthians venceria seu primeiro Dérbi, com um triunfo para cada lado em amistosos e um triunfo para cada lado no Paulistão.

E que fim levou o osso? Até hoje, ele permanece na sede do Corinthians, exposto no museu do Parque São Jorge. Os atletas corintianos jogaram o bilhete fora, mas escreveram no próprio objeto: “Este osso era para a canja e não cozinhou por ser duro demais”. Desta vez, com o favoritismo ao lado do Palmeiras no Allianz Parque, os alvinegros precisam endurecer muito para evitar a arrancada dos rivais, que já se colocam como postulantes à liderança do Brasileirão.

*A foto que abre o post serve para ilustrar o Estádio da Floresta, embora não seja necessariamente daquele Palestra 3×3 Corinthians.