A camisa amarela do Brasil é um dos maiores símbolos nacionais espalhados pelo mundo. A clássica camisa amarela, vestida por Pelé, por Rivellino, por Zico, por Romário, por Ronaldo, por Rivaldo e por tantos e tantos craques. Quem poderia imaginar isso quando, em 1950, a camisa do Brasil parecia amaldiçoada. Naquela época, a Seleção jogava toda de branco. A derrota para o Uruguai em um Maracanã lotado marcou tanto que os dirigentes, supersticiosos, decidiram mudar o uniforme. E foi graças a isso que nasceu o uniforme que conhecemos hoje, camisa amarela, calções azuis, meias brancas. Uma criação de Aldyr Garcia Schlee, um gaúcho de Jaguarão, que se estabeleceu em Pelotas, em um concurso do jornal Correio da Manhã. Schlee morreu nesta quinta-feira, 15 de novembro, depois de uma luta contra o câncer que durava desde 2012. Seu legado, porém, é a eternidade da histórica camisa do Brasil e, muito além disso, por tudo que fez na vida, da literatura ao jornalismo.

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A derrota traumática para o Uruguai na Copa de 1950 ainda era uma ferida aberta e tudo que pudesse afastar o Brasil daquele trágico dia seria feito. Inclusive no time. Dos titulares do jogo contra o Uruguai na Copa do Mundo no Brasil, em 1950, quatro nunca mais foram sequer convocados. Outros quatro até jogaram depois, mas não chegaram na Copa do Mundo seguinte.

Zizinho, o craque brasileiro da época, esteve na preparação para a Copa de 1954, mas não esteve na lista final de convocados. Nem mesmo Jair da Rosa Pinto, outro dos craques brasileiros, voltou a disputar uma Copa – embora tenha jogado dois amistosos em 1956. Só mesmo Bauer sobreviveu ao Maracanazo e foi a outra Copa do Mundo, desta vez na Suíça. E com um uniforme completamente diferente daquele que jogou em casa. Uma tentativa de expurgar os fantasmas daquela derrota.

Em 1953, a Confederação Brasileira de Desportos, CBD (então gestora de vários esportes do Brasil, entre eles o futebol) permitiu que o jornal Correio da Manhã fizesse um concurso para escolher um novo uniforme. O pré-requisito era incluir as quatro cores da bandeira, amarelo, verde, azul e branco. Uma tarefa para lá de difícil, já que usar quatro cores em um só uniforme é muito raro e torna difícil harmonizar. Se tornou possível.

O vencedor foi Aldyr Schlee, um desenhista com apenas 18 anos à época do concurso. Curiosamente, nascido em Jaguarão, fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e, pasmem, se dizia torcedor do Uruguai – responsável por um dos motes para a mudança de uniforme. Morador de Pelotas, ele fez mais de 300 esboços antes de chegar ao modelo que ficaria consagrado como aquele que é reconhecido no mundo todo como símbolo do futebol brasileiro. Há uma lenda que Schlee teria se inspirado no uniforme do Esporte Clube Pelotas, que veste exatamente as mesmas cores. Na época, porém, o Pelotas vestia azul. E Aldyr e a família Schlee são torcedores fanáticos do Brasil de Pelotas, time rubro-negro e rival do outro time de Pelotas. Abaixo, alguns dos modelos pensados para a camisa do Brasil, que se tornaria uma marca – a maior de todas, inclusive.

Esboços para o uniforme do Brasil de Aldyr Schlee (Foto: Arquivo pessoal)

O vencedor fez mais de 100 esboços antes de chegar ao modelo final, enviado ao jornal. Com a vitória no concurso, o então desenhista ganhou um prêmio equivalente a R$ 20 mil atualmente. Além disso, ganhou um estádio no jornal Correio da Manhã. Na época, Aldyr Schlee fazia desenhos de gols para jornais de Pelotas, algo muito comum em uma época que a fotografia não era tão disponível como atualmente. Assim, recriar gols era uma tarefa de desenhistas, que davam vida às palavras do rádio.

A ideia de Schlee pode parecer óbvia, mas é muito menos do que parece: colocar as cores da bandeira no uniforme. Sim, era uma exigência da CBD feita ao jornal que promoveu o concurso, mas a forma como isso poderia ser feito era muito variada. E isso fica claro quando se vê algumas das ideias que foram dadas na época. Alguns uniformes que vemos hoje e agradecemos a quem escolheu o modelo de Schlee como vencedor. Foi, de fato, um uniforme concebido de forma magnífica.

A apresentação do novo uniforme aconteceu no Maracanã, no dia 20 de janeiro de 1954 em uma grande festa. Lembremos que é um tempo muito anterior às marcas de material esportivo e à revolução no esporte pelo marketing esportivo. O Brasil usou pela primeira vez a camisa amarela em um jogo no dia 28 de fevereiro de 1954, em Santiago, em jogo contra o Chile pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. O Brasil venceu por 2 a 0, com o primeiro gol com as novas cores do uniforme marcado por Baltazar, chamado, então, de “cabecinha de ouro”. O Brasil teria, a partir de então, o amarelo ouro como seu grande símbolo.

Ao longo das décadas seguintes, a camisa amarela com calções azuis e meias brancas se tornaria um símbolo do Brasil, do futebol e da arte. Nem sempre a Seleção esteve à altura de toda mística que se criou sobre a sua camisa e sobre o que ela representa. Só que místicas são sempre assim: o valor simbólico é, e sempre será, maior do que a prática. O campo das ideias sempre será ilustre, será magnífica, será… Ideal. A prática nunca alcançará esses momentos, ainda que os momentos de magia façam com que aqueles ideais pareçam ao alcance das mãos, nos dribles, dos gols, das vitórias, de um camisa 10 de 17 anos decidindo final de Copa do Mundo e sendo o craque que o mundo reverenciaria para sempre.

Foi Pelé que tornou a camisa 10 um ideal inalcançável, por mais que tantos craques tenham vindo depois dele. Em 1958, a camisa da final era azul. Mas antes, e depois, todos os títulos brasileiros vieram de amarelo. Em 1962, com o craque das pernas tortas, Garrincha, e o possesso, Amarildo. Em 1970, com Pelé, figura soberana, real, o ideal de um craque, ao lado de tantos outros que, como homens, se vestiram de divindades para entrar na história. Em 1994, Romário e seus toques sutis e presença na área. Em 2002, com Ronaldo, um fenômeno, e Rivaldo, o craque em silêncio.

Aldyr Schlee, criador da camisa da seleção brasileira (Foto: Gilberto Perin/Divulgação)

O amarelo esteve em todas as cinco conquistas do Brasil, ainda que na primeira a final tenha sido de azul. Pelé tornou a camisa 10 eterna, mas a camisa amarela se tornou um símbolo brasileiro também graças a Aldyr Garcia Schlee. Aos 83 anos, ele morreu justamente no dia de um amistoso entre Brasil e Uruguai. Em Londres. Símbolo de uma CBF que sequestrou o símbolo que os jogadores eternizaram em campo, com um desenho que Aldyr Schlee eternizou com o talento de um Pelé com o lápis na mão, aos 19 anos, criando aquele uniforme que seria para sempre o nosso símbolo do esporte mais amado do país e do mundo. Em qualquer lugar desse planeta, a camisa amarela e a bola no pé são imediatamente reconhecidas.

Apesar de algo tão marcante e histórico como a criação do modelo do uniforme da Seleção, Aldyr Garcia Schlee foi muito, muito além. Estava prestes a completas 84 anos, no dia 22 de novembro. Era escritor, foi jornalista, tradutor e se titulou Doutor em Ciências Humanas. Foi professor universitário de Direito Internacional por mais de 30 anos na Universidade Federal de Pelotas, a UFPel. Mais do que isso: foi fundador da Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas, a UCPel. Em 1963, foi vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo, aquele de maior prestígio do meio, por uma reportagem sobre xisto betuminoso no Rio Grande do Sul. Foi vencedor por duas vezes de prêmios da Bienal de Literatura e seis do Açorianos (1997, 1998, 2001, 2010, 2011 e 2013). Uma vida de realizações imensas.

Adeus, Aldyr Schlee. E obrigado. Obrigado por ter feito do Brasil uma das camisas mais lindas de todos os tempos. Obrigado por ter representado tão bem em um uniforme a nossa bandeira. Obrigado por ter tornado a amarelinha muito maior do que se poderia imaginar. Parafraseando o presidente Getúlio Vargas em sua carta deixada antes do suicídio, você “saiu da vida para entrar na história”. Todos os agradecimentos a você pela eternidade dessa camisa.

Em 2014, o Itaú fez uma série de vídeos sobre a Copa. Um deles, com Aldyr Schlee contando a história da camisa amarela. Vale assistir:

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