Xadrez é um esporte fascinante. Os jogadores mexem as peças, tentando antecipar vários movimentos à frente do adversário para explorar um passo falso e dar o bote. Quem entende o que está acontecendo no tabuleiro sente a emoção a cada jogada. Quem não entende, pode simplesmente achar que é uma partida silenciosa, modorrenta e chata. Mais ou menos como o San Lorenzo 0x1 Corinthians desta quarta.

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O segundo duelo da morte do grupo da morte da Libertadores 2015 foi um encontro para quem gosta de analisar o futebol mais do que sentir. Duas equipes que se estudaram demais, alterando cada posicionamento, cada ação, em busca do passo falso do oponente. Não foi um jogo de emoção, foi um jogo de razão. Até o silêncio do estádio Nuevo Gasómetro de portões fechados parecia o de um jogo de xadrez. Só faltou o relógio limitando o tempo que os técnicos teriam para pensar em cada movimento.

Sem o tsunami sonoro que normalmente vem das arquibancadas, o San Lorenzo perdeu parte da aura do time campeão sul-americano de 2014. Não tinha aquele empurrão psicológico, mas acertou ao seguir o plano de Edgardo Bauza. Tentou isolar o atacante corintiano (no caso, Danilo) e Jadson de forma a asfixiar as jogadas corintianas. Funcionou, e Jadson se viu muitas vezes sem opção de passe, acabava segurando a bola mais tempo que o necessário e a perdia. O time também abusou de entradas maldosas, mas teve o mesmo sucesso que um peão que sai devorando todas as peças que vê pela frente no começo do jogo para irritar o adversário, mas depois percebe que não estava construindo nada a partir daquilo e some do tabuleiro.

O que realmente funcionou foi a estratégia ofensiva. Os Cuervos aproveitaram que a linha defensiva alvinegra fica adiantada para se aproximar do meio-campo, uma medida boa para compactar o time e dificultar o toque de bola do adversário, mas que pode oferecer espaço nas costas dos zagueiros e laterais. O San Lorenzo abusou de lançamentos ou cruzamentos para jogadores que se projetavam para receber livres. Assim surgiram várias oportunidades claras, como planejado. Mas uma diferença do xadrez para o futebol é que, no tabuleiro, não há como a torre tropeçar no caminho até o rei e errar o xeque-mate. Nos gramados, o plano pode ser seguido à risca, com movimentos precisos, e o atacante simplesmente erra o chute.

E o San Lorenzo exerceu bastante esse direito de errar. Com Matos, com Blanco, com Cauteruccio. Quando não errou, Cássio apareceu para fazer uma grande defesa.

O Corinthians também fez seus movimentos. À parte ter protegido mal as costas de sua linha defensiva (e passado muitos sustos por isso, a ponto de Tite dizer, corretamente, que o empate seria mais justo), soube como cadenciar a partida para impedir que o San Lorenzo criasse um volume de jogo insuportável. Para isso, foi esperto ao usar as lesões em Renato Augusto e Mendoza para reforçar o meio-campo com Cristian e Petros, permitindo que Elias avançasse e desse mais alternativas para o pouco inspirado Jadson tabelar.

Essa mudança foi importante para pautar o ritmo do jogo, ainda que tivesse pouco efeito na criação de jogadas. De qualquer modo, em um momento em que a chance se apresentou, um Elias com liberdade pôde fazer uma jogada individual após chute de Cássio e fazer o único gol do jogo.

No final, a partida foi muito detalhada e fascinante pelo ponto de vista tático, mas sem aquele toque especial que uma torcida apaixonada oferece. Uma onda que talvez fizesse a bola de Matos ir alguns centímetros a mais para a esquerda e entrasse, ou que daria um tom mais épico à vitória corintiana. Mas foi uma vitória gigantesca. Pareceu mais uma vitória de xadrez que de futebol, mas xadrez também é fascinante. E extremamente duro e competitivo.