A fantástica jornada do Haiti na Copa Ouro se encerrou na noite desta terça-feira. Pela primeira vez em mais de 40 anos, a seleção chegou entre os quatro melhores na principal competição da Concacaf. E a impressão foi de que os haitianos poderiam mais. Durante a semifinal no Arizona, os azarões eram inferiores ao México, mas compensavam com organização e vontade. Fizeram um jogo duríssimo contra El Tri e forçaram a prorrogação. A derrota por 1 a 0 aconteceu apenas no tempo extra, graças a um pênalti inexistente dado aos mexicanos, e com direito a uma bola no travessão de Guillermo Ochoa já nos últimos instantes. As lágrimas são naturais por aquilo que ficou tão perto de acontecer, mas os Grenadiers podem se encher de orgulho.

Não é sempre que o Haiti participa da Copa Ouro, mas suas aparições nos mata-matas são esporádicas. De 2000 a 2017, foram seis presenças no torneio bienal e três classificações às quartas de final – apesar das campanhas modestas, com não mais que uma vitória na fase de grupos. Desta vez, a história seria diferente. Os haitianos voaram baixo desde o princípio. Terminaram com 100% de aproveitamento no Grupo B, em chave que ainda contava com a Costa Rica. E a barreira das quartas de final acabou superada desta vez, com o histórico triunfo sobre o Canadá. Os oponentes abriram dois gols de vantagem ainda no primeiro tempo, mas os Grenadiers arrancaram uma heroica virada por 3 a 2, registrando sua melhor campanha na fase moderna do certame. O México, de qualquer maneira, seria um desafio bem maior nas semifinais.

O que viesse já parecia lucro ao Haiti. Mesmo assim, os jogadores não queriam desperdiçar a chance e encararam El Tri de igual. Os mexicanos tinham mais posse de bola e criavam mais perigo. Os haitianos se seguravam, contando com as boas defesas de Jhony Placide. O goleiro realizou uma intervenção segura em cabeçada venenosa de Raúl Jiménez no primeiro tempo e, já na etapa complementar, faria milagre em uma cobrança de falta de Andrés Guardado. Por mais que os Grenadiers pouco produzissem ofensivamente, contidos a um contragolpe ou outro, iam deixando os favoritos em apuros.

O placar permaneceu zerado ao longo dos 90 minutos e a partida seguiu à prorrogação. Foi quando o México se beneficiou da arbitragem. Raúl Jiménez se jogou dentro da área aos três minutos e o árbitro foi na dele. O próprio atacante cobrou a penalidade, deslocando Placide com calma. O Haiti partiu para a pressão e tentava abrir a defesa mexicana, enquanto Placide continuava evitando os contragolpes. O lance decisivo aconteceu a dois minutos do fim, quando Mikaël Cantave soltou um chutaço de fora da área e Ochoa só ouviu a bola tilintar em seu travessão. Ao final, Luis Montes ainda poderia ter ampliado, mas perdeu um gol feito.

Alguns jogadores do Haiti choraram em campo, atitude compreensível dentro do contexto. Os Grenadiers tiveram uma chance real de avançar à decisão, mas terminaram prejudicados pela arbitragem. O sucesso na Copa Ouro, porém, indica que os haitianos podem sonhar durante os próximos anos. A atual geração é relativamente jovem e parece ter capacidade de fazer bom papel na próxima edição das Eliminatórias. Em um momento de transição da Concacaf, no qual antigas figurinhas carimbadas da América Central perdem força, os haitianos talvez ocupem esta lacuna.

O elenco atual do Haiti, afinal, vai além dos limites da ilha. Em uma história marcada por ditaduras, desastres naturais e extrema miséria, o país mais pobre do continente viu parte de sua população buscar uma vida melhor em outros cantos do planeta. Pois este time dos Grenadiers se fortalece justamente a partir dos imigrantes e dos filhos de imigrantes. São pelo menos 2 milhões de pessoas com origem haitiana vivendo fora de seu território, que possui 10 milhões de habitantes. E os reflexos disso no futebol são notáveis, com a diáspora representada no time comandado por Marc Collat – um francês nascido na Martinica.

A primeira passagem do treinador pelo Haiti começou em 2014 e ele fomentou o recrutamento de jogadores com origem haitiana nascidos em outros países. Dos 23 convocados pelos Grenadiers nesta Copa Ouro, dez nasceram em outros países e outros dois cresceram no exterior. Destes, o único a atuar pela equipe nacional há mais de cinco anos é o próprio Jhony Placide. O goleiro nasceu nos subúrbios de Paris e chegou a atuar pelas seleções francesas de base, até aceitar o chamado dos haitianos em 2011. Acaba sendo um pioneiro e um exemplo à nova geração que busca impulsionar a seleção.

Assim como Placide, outros três convocados nasceram na região metropolitana de Paris. Cerca de 60 mil pessoas com origem haitiana vivem na França, antiga colonizadora da ilha, e boa parcela destas na chamada Ile-de-France. Entre estes figuram Duckens Nazon e Hervé Bazile, que balançaram as redes contra o Canadá. Bazile chegou a atuar no Mundial Sub-17 de 2007 com os Bleus, em elenco que incluía Mamadou Sakho e Yann M’Vila, bem como os senegaleses Alfred N’Diaye e Henri Saivet.

País com a maior comunidade de imigrantes haitianos, totalizando cerca de 1 milhão de pessoas, os Estados Unidos também contribuem a esta ascensão da seleção. Derrick Etienne nasceu na Virgínia, filho de um antigo jogador da seleção haitiana. Já Andrew Jean-Baptiste é do Brooklyn. Frantzdy Pierrot nasceu em Cap-Haitien, mas cresceu no Massachusetts, enquanto Steeven Saba é de Porto Príncipe, mas com cidadania americana e residência em Miami. Já o caso mais curioso é de Zachary Herivaux. Ele nasceu no Japão, filho de um haitiano e de uma japonesa, nos tempos em que seu pai atuava no Gamba Osaka. No entanto, Zachary cresceu nos Estados Unidos e também possui cidadania americana. É primo da tenista Naomi Osaka, a principal representante dos expatriados haitianos no esporte.

E, com mais de 200 mil haitianos em seu território, o Canadá também influencia os rumos dos Grenadiers. Josué Duverger e Jems Geffrard nasceram em Quebec, província que concentra mais de 90% dos imigrantes, sobretudo por conta da língua francesa. Já o outro representante é Mikaël Cantave, que nasceu em Ottawa, de pai haitiano e mãe guadalupense. Ironicamente, o primeiro gol do Canadá no duelo com o Haiti nas quartas de final desta Copa Ouro foi anotado por um jogador com origem na ilha. Jonathan David nasceu nos Estados Unidos, filho de pais haitianos, e se mudou para Porto Príncipe ainda bebê. Aos seis anos, imigrou para Ottawa e acabaria optando pela seleção local. De qualquer forma, não comemorou seu gol contra os Grenadiers, antes da virada épica dos conterrâneos.

Por enquanto, a comunidade haitiana no Brasil não se nota tão expressamente na seleção local. Como o movimento migratório é mais tardio, intensificado apenas nesta década, é provável que demore algum tempo a mais para ser sentido no futebol. Geralmente, é a segunda geração, dos filhos desses imigrantes, que costuma ganhar espaço nos esportes. Ainda assim, a relação entre os países tem seu reflexo. O lateral Carlens Arcus passou pelo Pérolas Negras, projeto de base sediado no Rio de Janeiro e que ganhou repercussão por suas campanhas na Copa São Paulo. O defensor seguiu à França depois disso e atualmente defende o tradicional Auxerre, na Ligue 2.

Dentre todos os citados acima, oito destes jogadores possuem 25 anos ou menos. Indicam uma base para o Haiti seguir pleiteando seu espaço ao menos durante os próximos dois ciclos de Copas do Mundo. O sucesso na caminhada rumo ao Mundial de 1974 parece um passado distante. Assim como parecia um passado distante as boas campanhas na Concacaf. Considerando a ampliação para 48 seleções e mesmo a edição na América do Norte em 2026, é possível mirar alto. Enquanto isso, a cada dois anos, a Copa Ouro providenciará um teste de força para saber a capacidade desta geração dos Grenadiers. Os sinais são positivos.