O Campeonato Potiguar guarda um dos maiores duopólios do futebol brasileiro. América de Natal e ABC dividem entre si 91 taças do estadual, distantes de notarem uma terceira força, como acontece em outros cantos do país. E justamente no ano em que a competição completa seu centenário, uma final histórica se desencadeou na Arena das Dunas. Os alvinegros ainda podem se gabar por terem mais títulos. No entanto, esta taça em especial será relembrada e degustada pelos alvirrubros por muito tempo. O Mecão confirmou o feito justo no clássico decisivo, interrompendo um jejum de quatro anos, e com direito a um gol aos 49 do segundo tempo. O veterano Alison, cria da base que retornou ao clube, se torna o herói de uma noite eterna ao Dragão, determinando o triunfo por 2 a 1.

Para refrescar a memória, cabe lembrar que o ABC estabelecera uma hegemonia recente no Rio Grande do Norte. Os alvinegros eram os atuais tricampeões do estado. Haviam registrado a maior sequência do Campeonato Potiguar desde a década de 1990 – e, a bem da verdade, reafirmavam seu domínio ampliado neste século. Mas, apesar de algumas derrotas dolorosas nestes últimos anos, o América teria a sua hora e a sua vez. Mesmo perdendo o clássico na final do primeiro turno, o Dragão se recuperou no segundo e venceu o Potiguar de Mossoró para se confirmar nas decisões do estadual. E o empate sem gols no jogo de ida, dentro do Frasqueirão, deixava o cenário aberto para o reencontro desta quarta.

A Arena das Dunas recebeu bom público. Mais de 21 mil torcedores estiveram nas arquibancadas. Presenciaram uma final memorável. Durante o primeiro tempo, Jean Patric deixou o América em vantagem. Aproveitou a boa jogada de Adriano Pardal e o passe de Hiltinho para emendar às redes. Só que o ABC não se entregaria e acabaria buscando o empate na etapa complementar. Em meio à pressão, Maurício emendou às redes e ia forçando as penalidades. O drama na marca da cal parecia uma certeza. O jogo ficou aberto, com ambos os rivais tentando antecipar o desfecho da partida. Os alvinegros reclamaram de um penal nos acréscimos, de Alison em Wanderson. Ironia nisso tudo é que o próprio zagueiro seria carrasco na outra área. No último minuto do tempo adicional, naquele que deveria ser o último lance, escanteio para os alvirrubros. Adenilson cruzou e o próprio Alison apareceu para desviar. Apareceu para desatar a loucura na Arena das Dunas.

O gol apoteótico, não tinha outra maneira, provocou uma erupção na torcida do América. E resultou em uma imaginável invasão de campo dos alvirrubros enlouquecidos. A infelicidade se dá pela maneira como a euforia terminou. Os seguranças do estádio entraram em confronto com os torcedores, gerando uma grande confusão. Enquanto isso, os alvinegros também não ajudavam e começaram a quebrar suas cadeiras na Arena das Dunas. A polícia usou balas de borracha e bombas de efeito moral. Um asterisco extracampo que também marca a final centenária. Somente depois que o cenário de guerra foi controlado é que o Dragão pôde receber a sua taça, digno campeão estadual pela 36ª vez, primeira vez desde 2015.

Alison, em especial, merece seu lugar na galeria de ídolos do América. Formado pelo próprio clube, o veterano não chegou a atuar profissionalmente com a camisa alvirrubra. Construiu sua carreira rodando o Brasil, com destaque às passagens por Treze, Bahia, Vitória e América Mineiro – além do próprio ABC. Já no final de 2018, voltou a Natal para se tornar uma referência no elenco do Mecão e acabou agraciado com o momento único. Saiu do banco de reservas durante o segundo tempo da final, para mudar o curso da história. Um daqueles gols para serem recontados por décadas pela torcida alvirrubra.

Na sequência do ano, enquanto o ABC não pode se desconcentrar e já inicia a Série C no final de semana, o América se prepara outra vez para tentar fugir do inferno na Série D. Com uma motivação a mais para buscar a promoção. Se os últimos anos vinham sendo difíceis à torcida alvirrubra, 2019 já guarda um momento de regozijo.

Foto: Rafael Reis e Canindé Pereira/América FC