Dono de nove títulos no Campeonato Alemão, o Nuremberg sabe que os períodos mais abastados demorarão a voltar. Neste final de semana, os grenás precisaram lutar contra o risco de repetir o pior momento de sua história: a queda para a terceira divisão. Em 1996, os bávaros chegaram a cair à terceirona, mas emendaram dois acessos seguidos e logo passaram uma borracha sobre o trauma. Agora, o descenso soaria bem mais penoso, em tempos nos quais vários clubes tradicionais sofrem para se reconstruir. E a permanência na segundona, já um alívio, veio de maneira espetacular. Depois de vencer a ida dos playoffs por 2 a 0, o Nuremberg tomou três gols no reencontro com o Ingolstadt. Evitou a desgraça com um gol salvador aos 51 do segundo tempo, escapando do rebaixamento pelo tento fora de casa na derrota por 3 a 1.

Durante os últimos anos, o Nuremberg se acostumou com o sobe e desce entre as duas primeiras divisões. Até começou a década em período de relativa estabilidade na elite, mas demorou quatro temporadas para retornar à primeira prateleira depois de cair em 2013/14. O retorno em 2017/18 veio com o vice-campeonato na segundona, mas os grenás não montaram uma equipe competitiva o suficiente e caíram com sobras, na lanterninha da Bundesliga de 2018/19. E não seria simples retomar a vida na segundona durante a atual temporada.

Poucos jogadores que disputaram a primeira divisão permaneceram no Nuremberg. Apesar do dinheiro gasto, a reconstrução da equipe não deu certo e em nenhum momento os bávaros lutaram pelo acesso nesta temporada. Pelo contrário, uma péssima sequência a partir de outubro deixou claro que a briga seria contra o rebaixamento. O time até esboçou uma reação no início do segundo turno, mas nada suficiente para se livrar dos riscos. A três rodadas do fim, a goleada por 6 a 0 sobre o Wehen Wiesbaden parecia um bom presságio para assegurar a permanência. Cinco dias depois, o time perdeu pelos mesmos 6 a 0 ante o Stuttgart. E o empate por 1 a 1 contra o Holstein Kiel colocou Die Legende nos playoffs de rebaixamento, ultrapassada pelo Karlsruher, fechando a campanha na antepenúltima posição.

O desafio final do Nuremberg aconteceria contra o Ingolstadt, de recente aparição na elite, mas que igualmente degringolou nas últimas temporadas e emendou dois rebaixamentos. Em 2019/20, o clube da Audi recobrou suas esperanças ao alcançar a quarta colocação na terceirona – que, por causa do título do Bayern II, garantiu uma vaga nos playoffs de acesso. A situação parecia sob controle do Nuremberg, ao vencer a partida de ida em casa, aplicando 2 a 0 no Estádio Max Morlock. O jovem meio-campista Fabian Nürnberger, de nome bastante sugestivo por mais que tenha nascido em Hamburgo, se tornou herói com ambos os tentos. Mas quase os grenás colocaram tudo a perder no reencontro.

Dentro do Audi Sportpark, o Nuremberg conseguiu manter o placar zerado durante todo o primeiro tempo. O desastre aconteceria no início da segunda etapa, com três gols do Ingolstadt logo nos primeiros 21 minutos, todos em erros da marcação grená em bolas alçadas na área. Stefan Kutschke, Tobias Schröck e Robin Krausse iam se tornando os responsáveis por garantir a permanência dos anfitriões. Depois de algumas chances perdidas, o milagre a Die Legende veio apenas aos 51 do segundo tempo. O árbitro havia dado inicialmente cinco minutos de acréscimos, mas aumentou o tempo por causa de uma pausa para atendimento médico, o que concedeu a sobrevida aos visitantes.

Não foi um lance bonito. Depois de uma bola rifada de qualquer jeito por Patrick Erras na intermediária, o balão caiu na medida para Fabian Schleusener dentro da área. O  atacante se esticou para se antecipar ao goleiro e botar a bola para dentro. Salvou o Nuremberg do rebaixamento. A comemoração seria explosiva, com direito à invasão do campo pelos reservas. Assim como aconteceu com o Werder Bremen na elite, a regra do gol fora de casa fez toda a diferença aos grenás. O épico ainda registrou uma audiência significativa de 3,2 milhões de espectadores na TV alemã, apenas 400 mil a menos que a última rodada da Bundesliga.

Schleusener, aliás, é um herói peculiar ao Nuremberg. O atacante de 28 anos chegou no início da temporada ao clube, mesmo se recuperando de uma fratura sofrida nos tempos de Sandhausen. Jogando muitas vezes fora de posição, sofreu para se adaptar e não havia marcado um gol sequer nas 20 partidas anteriores pela segundona. Guardou seu melhor para o momento mais urgente. “Foi inacreditável. Não tenho palavras, apenas um sentimento de caos dentro de mim. É um enorme alívio que recai sobre mim e sobre todos no clube. Não sei se já vi tantos homens chorando ao mesmo tempo”, declararia na saída de campo, segundo a revista Kicker.

O caminho ainda será longo ao Nuremberg. Desde a queda, o clube já projetava conquistar o acesso à primeira divisão em pelo menos duas temporadas. Três técnicos diferentes passaram pelos bávaros na atual campanha, sendo que o acesso foi conquistado pelo interino Michael Wiesinger, que deixou o papel de coordenador para assumir temporariamente nos playoffs. E se a situação financeira começava a se estabilizar, os desafios aumentam em tempos de coronavírus. A montagem do elenco teve várias escolhas equivocadas e reformulá-lo não será simples, ainda mais com contratos em vigor no médio prazo. A queda à terceirona, de qualquer forma, seria muito pior a Die Legende. Apesar de toda a agonia, o alívio é imenso por este gol no último instante, que dá a chance de repensar os rumos sem tanto impacto nas finanças.