O atacante Ronaldo e sua estréia com a camisa do Corinthians foram as grandes sensações da semana. Seus lances contra o Itumbiara, pela Copa do Brasil, giraram o mundo e confirmaram a força que seu nome ainda tem no meio esportivo. A coluna, claro, não poderia deixar a oportunidade passar para relembrar, aproveitando o novo momento do avançado corintiano para resgatar um jogo curioso, lançado em 2000 para Playstation e que levou a alcunha do atleta brasileiro que, à ocasião, convivia com a incessante luta contra as lesões no joelho: Ronaldo V-Football.

Na versão para o finado console da Sony, o jogo da Infogrames teve todo um toque verde-e-amarelo, tanto nos menus, que tinham como cores principais justamente aquelas pertencentes à bandeira do Brasil; como no vídeo de abertura do game, com imagens de Ronaldo em campo seguidas de outras com relação a nossa terra, como passistas de escolas de samba. A trilha sonora é um capítulo a parte, com toques bem latinos (embora nem sempre muito brasileiros). A principal música é a famosa Samba de Janeiro, da banda Bellini, mas há outras espalhadas pelos menus, como aquela, cujo nome este colunista incessantemente pesquisou, mas não localizou, que tem a frase “Hasta la vista, Baby” cantada no refrão.

Em campo, os gráficos surpreendem de maneira até positiva, com jogadores e gramados bem detalhados, dentro das limitações do Playstation. Para a época, pode-se dizer que era um dos jogos de futebol mais visualmente bonitos já lançados até então,apesar de, em alguns casos, o jogo apresentar algumas travadas, especialmente quanto o lance em questão colocava na muitos jogadores na mesma tela. A paciência, nesses casos, era fator essencial. Ironias a parte, as 'paradinhas' ocorriam muito após os gols e, para solucioná-las, o ideal era apertar Start duas vezes (uma para habilitar o menu de opções e outra para fechá-lo). Geralmente, isso trazia o game de volta ao normal.

A iluminação, por sua vez, é um pouco escura, obrigando aquele que está jogando a forçar a vista ou a mexer no brilho e contraste do aparelho de televisão. Ao fundo, pode-se ter, ainda, algo raro para a época, disponível anteriormente apenas nas versões para PC dos jogos FIFA a partir do 99, que era a narração em português. Evidentemente, com citações especiais quando o time em questão era o brasileiro e o autor do gol era o Fenômeno. Ainda assim, era um chamativo interessante, por si só, já era algo bem interessante e, obviamente, um importante elo com a classe gamer brasuca.

A disposição das câmeras, no entanto, é bastante limitada. Não há uma posição onde se possa dizer que a visão de campo é realmente ampla. Mesmo nas câmeras de torre, observa-se o gramado de maneira muito aproximada, bem diferente, por exemplo, do mesmo tipo de visão que jogos como Winning Eleven e FIFA proporcionavam. A melhor delas é justamente uma especial, que se aproxima do jogador que detém a bola, e, por ficar deitada, como uma Sideline Cam do jogo da EA Sports, dá uma visibilidade menos prejudicada das laterais. O que a torna razoavelmente boa é o fato de serem as jogadas pelos flancos as melhores armas para se marcar gols. Qualquer jogador fraco no cabeceio, como o próprio Ronaldo, poderia ter sucesso.

A jogabilidade é simples, sem maiores complicações, com os botões tendo funções específicas para ataque e defesa. Todavia, até por ser um jogo que homenageia um atleta brasileiro, sente-se falta da possibilidade de lances mais plásticos, como dribles mais belos. Para se fazer uma jogada bonita, era necessário ter habilidade no braço para dosar a correria. No entanto, merece destaque a possibilidade de passes em profundidade realmente profundos, podendo-se inclusive controlar a força do lançamento ou ainda pegar a defesa adversária de surpresa com o levantamento da bola para o companheiro, pressionando duas vezes o botão que executa o passe em profundidade.

Chutar, porém, é um sufoco, principalmente porque os goleiros são incrivelmente fortes quando o arremate é frente a frente. Os rebotes, quando ocorrem, vão longe, e geralmente os arqueiros conseguem parar os chutes mais potentes com extrema e irritante facilidade. No entanto, os mesmos ótimos goleiros se mostram fraquíssimos em cobranças de falta, cabeçadas (como já citado) e quando recebem chutes de primeira, na corrida, feitos após passes bem dados. Experimente fazer um lançamento em profundidade a um Ronaldo da vida e chute assim que receber. Dependendo do local, as probabilidades de gol são grandes.

Desafios são destaque

Há diferentes opções de torneios, embora apenas duas delas, pode-se dizer, sejam mais interessantes, o que evidencia o ditado de que nem sempre quantidade exprime qualidade. Um dos modos de disputa é o V-Football Cup, que nada mais é do que uma Copa do Mundo seguindo os passos do saudoso International SuperStar Soccer, com a necessidade de se avançar em uma fase classificatória para disputar o Mundial. É o principal modo de jogo do game (o que é previsível, até pelo nome…), embora não passe de uma copinha básica, sem maiores diferenças das demais competições.

O Endurance, por sua vez, é o grande destaque. Ao escolher uma seleção, deve-se bater as demais do game em um modo semelhante a, por exemplo, jogos de luta como Street Fighter, Mortal Kombat ou Tekken. As equipes são divididas por níveis, e o jogador deve cumprir cada um deles, derrotando os adversários um a um e tendo um crédito limitado de 'continues'. Para os mais saudosos fãs dos fliperamas e de jogos arcades de um modo geral — e que, ao mesmo tempo, curtem bater uma bolinha virtual —, trata-se do modo de jogo ideal. Embora os primeiros níveis sejam, de fato, bem fáceis, não é bom bobear conforme for se avançando nas fases, quando os adversários, mesmo aparentemente inexpressivos, tornam-se mais complicados. Assim como em qualquer game, um Memory Card é bem vindo. Experiências próprias comprovam a tese…

Além disso, triunfando em cada um dos modos de jogo, pode-se habilitar uma série de times históricos, disponíveis para que os usuários possam se divertir nos amistosos e relembrar grandes esquadrões. Por exemplo, há a possibilidade de jogar com uma seleção de craques brasileiros de todos os tempos, que tem, obviamente, Ronaldo na frente, ao lado de mitos como Rivelino e, claro, Pelé (para desbloquear esse time, o torneio em questão a ser vencido é justamente a V-Football Cup).

Circunstâncias geram impotência

Embora modalidades de jogo como o Endurance tornassem Ronaldo V-Football bastante animador e desafiador — o que era incomum para os jogos de futebol da época, já pautados pela simulação — foi justamente esse viés “à lá arcade” que fez com que o game fosse logo às traças. Afinal, no momento em que se completam todos os cenários, consegue-se ‘zerar’ o jogo, e como a maioria dos games que seguem tal linha, ele fica sem sentido, literalmente ‘detonado’, como se falam nas revistas especializadas, utilizando aqui um vocabulário mais gamer. É como aquele filme que, apesar de maravilhoso, não se tem vontade de assisti-lo novamente por um tempo, por já se conhecer o final.

Esse ponto, aliado à já citada em outras colunas pressão até involuntária da sociedade pela simulação e pela aproximação da realidade, que transcende a questão gráfica e já pauta a base de dados e as opções de jogo que o game proporciona ao seu usuário, são cruciais para a derrocada do gênero. E essa sociedade, que acaba aderindo a games que cada vez mais permitem uma imersão em uma realidade paralela, acaba deixando de lado jogos criados basicamente para ser uma diversão eletrônica. Não há um ‘certo’ ou um ‘errado’ nisso. Afinal, é natural que o meio virtual também tenha que se adequar à realidade da civilização.

Isso tudo pode parecer profundo, mas dá parâmetro para explicar o porquê de Ronaldo V-Football, apesar da alcunha do atacante e de seus pontos positivos (embora tenha outros negativos, já citados, como falhas na questão gráfica e a questionável variedade de torneios), não vingou. É claro que em uma circunstância mercadológica que já colocava Winning Eleven (então com a recém-criada Master League em voga) e FIFA na disputa pela liderança das vendas, seria difícil imaginar que o jogo da Infogrames fosse longe. Embora reconhecidamente o game do Fenômeno não tenha tido sucesso, o colunista foi tentar localizar dados sobre sua vendagem em alguns dos principais sites sobre o mercado de vendas dos jogos eletrônicos, como o Gamasutra e o VG Chartz, sem sorte, no entanto.

Ainda assim, mesmo no Brasil, sabe-se que poderia ter ido mais longe, talvez chegando a algo próximo de outro game futebolístico: Emilyn Hughes International Soccer, para o extinto Commodore 64, que, apesar de lançado em 1988, tem até hoje um site na internet (http://www.ehis64.net/) mantido por fãs e, acreditem, não está abandonado (a última atualização até o fechamento dessa coluna foi em 2008). Deve-se ponderar, no entanto, que era uma época bem diferente na indústria de games. Em outras palavras: Ronaldo V-Football seria um game de bom sucesso com seu formato (considerando as opções que possui, e não a questão gráfica, evidentemente)? Seria, mas se fosse lançado alguns anos antes…