Quando a ficha da eliminação na CAN finalmente parece ter caído, a Federação Egípcia de Futebol lembrou que era necessário anunciar um novo treinador para a seleção nacional. Hassan Shehata foi demitido em junho e, desde então, poucos nomes foram tão ventilados quanto o do norte-americano Bob Bradley, sempre tratado como prioridade pela EFA. O acerto era apenas questão de tempo, e ele foi concretizado nesta semana.

A princípio, Bradley pode até não possuir o perfil ideal para o cargo. Além da dificuldade em trabalhar num ambiente cultural totalmente desconhecido, o treinador certamente não é familiarizado com a maioria dos jogadores que podem fazer parte da tão esperada renovação do plantel dos Faraós. Por outro lado, quando assumiu a seleção dos Estados Unidos, em 2006, Bradley encontrou um cenário parecido com o que vai se deparar em solo africano: uma seleção envelhecida e abatida pelos maus resultados. E chegou a três finais de Copa Ouro (vencendo uma delas), foi vice da Copa das Confederações e só parou nas oitavas-de-final da última Copa do Mundo.

Como ponto positivo, vale destacar que o norte-americano surge como uma figura neutra na situação política que vive o país. O que já não vale mais para grande parte dos jogadores, sobretudo os mais experientes, acusados de se “acovardarem” em meio à derrocada de Mubarak do poder – tal como Shehata, que acabou sendo demitido. Será preciso pulso firme para “passar por cima” da vitoriosa geração de Gomaa, Hassan e Aboutrika, mas Bradley terá o torcedor ao seu lado para essa difícil missão.

Jovens como Hegazy, Sobhy, El-Nenny e Salah, que estiveram no último Mundial Sub-20 e debutaram pela seleção principal no início do mês, contra Serra Leoa, deram o tom de como será a integração da nova safra. O bom técnico Diaa El-Sayed, que assumiu a seleção interinamente nos últimos três meses, pode ser um auxílio nesse processo. Outra vantagem é a facilidade de deslocamento para acompanhar o desempenho dos ‘selecionáveis’, afinal, exceto jogadores como Elmohamady (Sunderland) e Zidan (Dortmund), são pouquíssimos os egípcios que atuam fora do futebol local.

Economicamente, a contratação de Bradley também é um negócio muito vantajoso. O técnico receberá apenas 35 mil dólares por mês (420 por ano), e ainda que a EFA deva cobrir os custos de moradia e viagens, são valores muito abaixo do mercado. Bradley e a seleção egípcia podem fazer história juntos. Desde Steve Sampson com a Costa Rica, em 2004, o treinador será o primeiro norte-americano a trabalhar em uma seleção que não seja a do seu país, bem como o primeiro estrangeiro a comandar o Egito nos últimos dez anos – o último havia sido o francês Gérard Gili, em 2000.

Sua estreia contra Níger pelas eliminatórias da CAN, em outubro, não valerá absolutamente nada em termos de classificação, mas será considerada a primeira etapa para a construção do time que disputará a CAN 2013. Pressionado pelo histórico de seu antecessor, Bradley também precisará quebrar um tabu que perdura por nada menos que 77 anos: desde o escocês James McCrae, em 1934, nunca um estrangeiro levou os Faraós a uma Copa do Mundo. Para tal, será de suma importância recuperar a identidade nacional da equipe, preenchendo uma lacuna entre torcedores e a antiga “seleção de Mubarak”. E nada melhor do que um personagem neutro para assumir esse papel.

LC africana: Al Ahly eliminado e semifinais definidas

Bob Bradley não foi o único responsável pela semana agitada do futebol egípcio. Talvez não tenha sido sequer o principal deles. A eliminação do Al Ahly na Liga dos Campeões, por mais que se desenhasse há algum tempo, jogou no ralo o planejamento do clube mais vitorioso do continente. Só um milagre faria com que os egípcios roubassem a segunda vaga do Wydad Casablanca, do Marrocos. E ele quase aconteceu.

Enquanto o Al Ahly teria pela frente o fortíssimo Espérance (possivelmente o melhor time africano na atualidade), o WAC visitaria o fraco Mouloudia Alger, na Argélia. E o Wydad fez de tudo para perder a classificação. Sabe-se de lá de onde, os argelinos tiraram força para abrirem 3 a 0 no placar – até então só haviam marcado 1 gol em cinco partidas na fase de grupos. O Alger venceria por 3 a 1, e o Al Ahly, que com uma vitória se garantiria nas semifinais, não fez sua parte.

O jovem zagueiro camaronês Yaya Banana colocou o Espérance na frente, e o veterano Aboutrika, no segundo tempo, igualou para os Red Devils. Só que a reação parou por aí, e pelo terceiro ano consecutivo, os egípcios ficarão de fora da final da principal competição de clubes do continente.

No Grupo A, o classificado Enyimba recebeu o Coton Sport, que até então era o vice-líder da chave. Despreocupados, os nigerianos tiraram proveito da instabilidade do time camaronês e venceram por 2 a 0, gols de Ede e Nwabili. Com o resultado, o Al Hilal, do Sudão, só precisaria de um empate contra o eliminado Raja Casablanca para ficar com a segunda vaga do grupo. Sendo assim, os sudaneses trataram de segurar um empate sem gols e agora encaram o Espérance na semi, enquanto o Enyimba duela contra o Wydad Casablanca. Os jogos de ida das semifinais serão disputados entre os dias 30 de setembro e 2 de outubro.

CURTAS

África do Sul

– No clássico que movimentou a 5ª rodada da Premier Soccer League, o Kaizer Chiefs bateu o Orlando Pirates por 2 a 1 (gols de Parker e Tshabalala) e assumiu a liderança da competição.

– Para o Pirates, outra má notícia da semana foi a contusão do goleiro Getúlio Vargas (ex-Flamengo, lembra dele?), indicado pelo técnico Julio Cesar Leal para ser o titular da meta dos Buccanners.

– Na cola do Chiefs, que tem 12 pontos, aparece o SuperSport United, que só empatou com o lanterna Jomo Cosmos em 2 a 2 e pulou pra 11, perdendo a chance de ser líder. O Sundowns, do artilheiro do campeonato, Mphela, e o Ajax Cape Town, aparecem com 10 pontos.

Angola

– Após o término da 25ª rodada, parece estar muito claro que a briga pelo título da Girabola ficará entre Recreativo do Libolo e Kabuscorp. O primeiro visitou o Petro de Luanda, 3º colocado, e venceu por 1 a 0, pulando para 47 pontos e afastando um concorrente direto. Sem dar brecha, o Kabuscorp goleou o Benfica de Luanda por 3 a 0 e chegou aos 46, mantendo a vice-liderança.