Há 20 anos, a torcida do Racing encheu El Cilindro. Porém, aquele 7 de março de 1999 não foi um dia qualquer. O mítico estádio deveria receber mais um jogo de La Academia, mas a bola não rolou. Três dias antes, o histórico clube de Avellaneda anunciara sua falência e indicara que deixaria de existir. Mas a paixão nunca se extingue. A camisa albiceleste sobreviveu graças à persistência de seus devotos torcedores, que ocuparam as arquibancadas mesmo sem a realização de uma partida. Estavam lá para a sua profissão de fé, a maior de todas, aquela que resgataria a agremiação da morte anunciada. Como bem se sabe, o Racing seguiu em frente, entre altos e baixos. Desde então, 7 de março é uma data obrigatória no calendário do futebol argentino. É o Dia del Hincha de Racing.

A situação limítrofe foi atingida em 1998, quando o presidente do Racing, Daniel Lalín, solicitou a recuperação judicial do clube, diante das dívidas enormes. Porém, o tempo não foi suficiente para que salvassem a instituição. Designada pela justiça para tomar o controle, a promotora Liliana Ripoll não conseguiu evitar a bancarrota. Em 4 de março, fez o seu famoso anúncio: “Hoje, o Racing deixou de existir”. Uma frase intencionalmente provocativa, que mexeu com os torcedores e provocou um enorme movimento popular ao redor do Cilindro – ainda que não apenas de maneira positiva. No dia seguinte, durante uma entrevista, Lalín foi atingido por um bumbo na cabeça, em meio à revolta pela crise.

A grande manifestação pública de que não era possível extinguir La Academia, enfim, aconteceu no apoteótico 7 de março. Os jogadores, que se preparavam para a disputa do Campeonato Argentino, foram reunidos por Gustavo Costas e Humberto Maschio – ídolos históricos do clube que, além de credores, haviam assumido o comando técnico do time naquele momento tenso. Num domingo ensolarado, os racinguistas entraram em campo para demonstrar sua união. Os atletas eram apoiados por 40 mil nas arquibancadas, que estavam lá pela paixão, e não pela rodada inaugural do Clausura contra o Talleres, cancelada após a declaração de Liliana Ripoll. A resistência que mudou os rumos do gigante de Avellaneda. Os fiéis torcedores que adentraram no gramado, ajoelhados e carregando imagens das divindades albicelestes, tiveram suas preces atendidas.

Em meio à grave crise econômica dentro da própria Argentina, o governo avaliou que a extinção do clube tinha consequências populares mais drásticas que os problemas financeiros. As dezenas de credores seguiriam lutando por seus direitos, mas milhões de torcedores não seriam abandonados. Através desta intervenção, La Academia manteve suas atividades e entrou em campo dias depois, desta vez para jogar, diante de 30 mil racinguistas que foram até o Gigante de Arroyito. A campanha conturbada no Clausura teve seus tumultos gerados pelo imbróglio judicial, embora as palavras de Liliana Ripoll nunca tenham se concretizado.

Sob administração externa, o Racing lançou seu plano de reconstrução em dezembro de 2000, com uma sociedade anônima que prometeu superar o estado de falência em 10 anos – o que se consumou em dezembro de 2008, apesar de muitos percalços. O verdadeiro final feliz, todavia, ocorreu já em dezembro de 2001. Após flertar com o rebaixamento entre o Apertura de 2000 e o Clausura de 2001, La Academia conquistou o Campeonato Argentino e encerrou um jejum de 35 anos sem o título nacional. Sob as ordens de Reinaldo ‘Mostaza’ Merlo, os racinguistas faturaram o Apertura de 2001 com um elenco cheio de desconhecidos e garotos da base. Entre estes, o prodígio Diego Milito, que se firmava na equipe principal. Uma façanha que só ocorreu graças àquele 7 de março. Mesmo que o duelo contra o Talleres não tenha acontecido, há uma certeza imutável de que o Racing ganhou aquele jogo. Uma vitória tão importante quanto à do Mundial de 1967.

Vale conferir também o texto do amigo Caio Brandão, no Futebol Portenho.