A cena não é nova nas competições da Uefa. Um drone sobrevoa o gramado e carrega uma bandeira política, em provocação a uma das equipes em campo. A confusão ocorrida no histórico Sérvia x Albânia de 2014 se repetiu, em menor intensidade, nesta quinta-feira de Liga Europa. O Dudelange recebia o Qarabag no Estádio Josy Barthel, em Luxemburgo. E foi justamente numa partida de pouco apelo que o problema se deu. O drone carregava a bandeira da República de Artsakh, região de maioria armênia que auto-proclama sua independência do Azerbaijão. A disputa pelo território, chamado pelos azeris de Nagorno-Karabakh, foi motivo de guerra com a Armênia e produz uma série de incidentes diplomáticos entre os países. Fomentado pelo governo do Azerbaijão, o Qarabag é originário de Nagorno-Karabakh.

O entrave geopolítico esteve em alta durante a final da última Liga Europa, realizada em Baku. Por conta do conflito, temendo por sua segurança, o armênio Henrikh Mkhitaryan preferiu não disputar a partida na capital azeri. Ápice do imbróglio, a Guerra de Nagorno-Karabakh aconteceu entre 1988 e 1994, quando os armênios assumiram o controle da região. Desde então, a auto-proclamada República de Artsakh se mantém com apoio econômico e militar da Armênia. Entre 20 mil e 30 mil pessoas foram mortas na guerra, inclusive em limpezas étnicas. Há um cessar-fogo, que por vezes é quebrado, diante da falta de um acordo de paz. Além disso, não há relação entre os governos e existem até mesmo sanções discriminatórias.

A população azeri que vivia em Nagorno-Karabakh se refugiou em outras partes do Azerbaijão. Levando o nome da região, o Qarabag surgiu em 1951 e precisou se transferir a Baku em maio de 1993, quando sua antiga cidade foi tomada pelo exército armênio. Agdam virou uma cidade fantasma e o Estádio Imarat acabou bombardeado, ficando em ruínas. Com o status de “clube refugiado”, o Qarabag beirou a falência e só ganhou força a partir de 2001, quando passou a ser apadrinhado pela Azersun, conglomerado alimentício do país. A companhia, no entanto, se tornou um mecanismo do governo ditatorial do Azerbaijão para apoiar um time de futebol que se tornasse bandeira dos azeris no conflito. Ao mesmo tempo em que realmente existe uma causa por trás do clube, há seu contestável uso político por um presidente acusado de repressão e de violação dos direitos humanos.

Dentro deste cenário é que aconteceu a provocação do drone no Estádio Josy Barthel. O Qarabag vencia a partida por 2 a 0 quando, aos 34 minutos do primeiro tempo, a bandeira surgiu no meio do gramado. O jogo acabou paralisado e os próprios jogadores tentaram derrubar o drone, mirando a bola no aparelho. Além disso, houve uma revolta dos azeris no setor visitante das arquibancadas. Alguns torcedores tentaram invadir o campo com a bandeira do Azerbaijão. A segurança do estádio precisou conter os mais exaltados, enquanto os atletas do Qarabag também se dirigiram ao local para acalmar sua torcida.

A interrupção durou cerca de 15 minutos, por “razões de segurança”, conforme a Uefa. O Qarabag terminou a noite goleando o Dudelange por 4 a 1. O resultado deixou a equipe na zona de classificação do Grupo A da Liga Europa, superando os luxemburgueses graças ao saldo de gols. Ambos somam três pontos, em chave liderada pelo Sevilla.

Em suas redes sociais, o Dudelange pediu desculpas aos “convidados do Azerbaijão” e declarou que não teve nada a ver com a provocação. Além disso, o clube denunciou torcedores armênios como responsáveis pela ação e postou uma imagem vinculada a um grupo de ultras da seleção armênia, na qual quatro pessoas seguram a bandeira da República de Artsakh presa ao drone. A Uefa ainda não se manifestou sobre os possíveis desdobramentos.