Dificilmente as competições internacionais de clubes fora da Europa e da América do Sul recebem atenção no noticiário brasileiro. Exceção àquelas que rendem vaga no Mundial de Clubes, todas as outras costumam ser renegadas. E, neste sentido, a Copa Árabe de Clubes Campeões certamente permanece desconhecida a muitos apaixonados por futebol. O torneio não é organizado por nenhuma confederação continental. Sua criadora é a Uafa (União das Associações de Futebol Árabes), entidade que junta federações ligadas à AFC e à CAF. Ela se responsabiliza pela Copa das Nações Árabes, competição de seleções surgida na década de 1960 e que passou anos inativa, mas voltou ao calendário nesta década. E faz seu paralelo com os clubes através da referida Copa Árabe – uma espécie de Champions sem desdobramentos posteriores, mas com camisas pesadas e uma disputa muito intensa.

A “Champions Árabe” não é exatamente uma novidade. O torneio foi realizado pela primeira vez em 1981 e ganhou força ao longo das duas décadas seguintes. Era uma oportunidade de estreitar os laços entre as nações árabes e também de desenvolver o futebol na região. Aproveitavam, além do mais, o vácuo deixado pela Liga dos Campeões da Ásia no Oriente Médio, já que a competição da AFC só engrenou na metade final da década de 1980. A Uafa chegou até a criar uma Recopa Árabe e uma Supercopa Árabe. Todavia, com a consolidação da Champions Asiática, as consequências foram óbvias. Os torneios árabes acabaram se unificando em 2002 e paulatinamente a Copa Árabe de Clubes Campeões perdeu força.

Depois de realizar edições anuais até 2009, a Copa Árabe foi descontinuada em 2009. Houve até uma edição esparsa em 2012/13. Contudo, desde 2017 é que a Uafa tenta reviver a competição de maneira mais sistemática. Esta foi a segunda edição na nova fase, a primeira adaptada ao calendário dos campeonatos nacionais da região e ampliada em relação à anterior. Com apoio do governo dos Emirados Árabes Unidos, foi usada para comemorar o centenário do nascimento do xeique Zayed bin Sultan Al Nahyan, considerado o principal responsável pela formação do país. A temporada 2018/19 começou ainda no mês de julho e reuniu 40 equipes. Foram 69 partidas até a definição do campeão.

Clubes de 19 países participaram da Champions Árabe. Há elementos diplomáticos que interferem diretamente na disputa – como a ausência do Catar, pelos entraves com os vizinhos no Oriente Médio, e do Iêmen, em meio aos conflitos civis em seu território. Da mesma maneira, nem todas as nações enviaram os seus campeões vigentes e outras vagas acabaram determinadas mais pelo peso histórico do que pelo desempenho recente. Ainda assim, o certame esteve recheado de camisas pesadas. Os grandes clubes de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Argélia, Egito, Tunísia, Marrocos e outros países notáveis da região tiveram os seus postulantes à taça.

O formato é simples. Após a realização de uma fase preliminar, 32 clubes se alinham em mata-matas, até sair o campeão. É quando começa o pega pra capar, com confrontos que se espalham pelo “Mundo Árabe”. E, diferentemente do que acontece na Champions Asiática, os Árabes não fazem divisões regionais para os duelos. Há a possibilidade de clássicos intercontinentais desde o início. Os 16-avos de final, por exemplo, já reuniram um embate pesado entre os argelinos do Sétif e os emiratenses do Al-Ain. Ainda assim, se de um lado da chave os sauditas despontaram, do outro foram os africanos. O Al Hilal venceu o clássico local contra o Al Ahli para alcançar a decisão. Já o Étoile du Sahel superou o Al Merrikh, do Sudão. A final aconteceu nesta quinta-feira, em jogo único, nos Emirados Árabes Unidos.

Apesar do investimento recente em contratações, o Al Hilal manteve sua sina: precisou aceitar mais um vice-campeonato internacional, o terceiro nesta década. Melhor ao Étoile du Sahel, de ampla tradição na Champions Africana. Os tunisianos abriram o placar com Karim Aribi e os sauditas arrancaram o empate no segundo tempo, graças a um pênalti convertido por Bafetimbi Gomis. O gol da vitória por 2 a 1 só aconteceu nos acréscimos, anotado por Mohamed Mothnani. Garantiu a festa dos alvirrubros, vistos como azarões no duelo derradeiro. É o segundo título da Tunísia nesta nova era, após o Espérance ter ficado com a taça em 2017.

Embora os primórdios da Copa Árabe tenham sido dominados pelos asiáticos, sobretudo os sauditas e iraquianos, os africanos passaram a brilhar a partir da década de 1990. A Arábia Saudita permanece como maior campeã, dona de oito títulos, mas a Tunísia chega a sete graças ao Étoile. Resta saber até quando a iniciativa ao redor da competição durará. É um campeonato interessante e com premiações gordas, mas nem sempre atrair os torcedores nos países árabes é uma missão simples, algo expresso na final. Além do mais, falta um calendário mais uniforme, como bem se viu pela diferença de datas nas semifinais – enquanto o Étoile se classificou no final de março, o Al-Hilal só garantiu sua vaga no começo desta semana. Todavia, a participação de diferentes clubes grandes ajudou bastante no impulso à atual edição. Pode ser a chave para que o certame dure por mais alguns bons anos, como alternativa aos árabes e ao público que gosta de futebol alternativo.