“Foi meu jogo mais bonito. O que aconteceu naquelas duas horas reuniu todos os sentimentos da própria vida. Nenhum filme, nenhuma peça, conseguiria capturar tantas contradições e emoções. Foi completo. Tão forte. Fabuloso”. A definição de Platini foi tão boa quanto a sua atuação no Jogo do Século – ou, pelo menos, um deles; há vários – contra a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 1982, exatamente 35 anos atrás.

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A quente partida no Ramón Sánchez, de Sevilha, com reviravoltas, entradas violentas e um belo futebol ofensivo, praticado principalmente pela França, terminou 3 a 3, graças à incrível capacidade competitiva dos alemães, que estavam perdendo por dois gols de diferença, já na prorrogação, e foram buscar o empate. Nos pênaltis, brilhou o goleiro Harald Schumacher, cujas defesas selaram a passagem da Alemanha à decisão.

A França chegou mais inteira para a semifinal, em todos os sentidos. Sofreu um pouco na primeira fase, com uma derrota, um empate e uma vitória, mas pegou no tranco nos grupos das quartas de final, com triunfos sobre Irlanda do Norte e Áustria. A Alemanha, por sua vez, havia passado da primeira fase naquele jogo de compadres com os austríacos para eliminar a Argélia. Além disso, alguns de seus jogadores haviam pegado um vírus às vésperas da partida e Karl-Heinz Rummenigge, então atual bicampeão da Bola de Ouro de melhor jogador da Europa, começou no banco de reservas, com dores musculares.

Mesmo assim, a Alemanha saiu rapidamente à frente. Klaus Fischer, aos 17 minutos do primeiro tempo, pareceu na cara do goleiro Jean-Luc Ettori, que saiu para abafar. A bola sobrou com Pierre Littbarski, que encheu o pé para fazer 1 a 0. Logo na sequência, Rocheteau sofreu pênalti, e Platini pegou a bola para cobrar. E cobrou muito bem, sem chance para Schumacher. Platini comandava o meio-campo da França e teve duas oportunidades de média distância para conseguir a virada.

No começo do segundo tempo, o craque francês lançou perfeitamente para Patrick Battiston, que tentou tocar na saída do goleiro, mas bateu para fora. O lance não termina aí: Schumacher calculou mal, de propósito ou não, a sua saída do gol e trombou com tudo em Battiston que, entre outros ferimentos, perdeu dois dentes. “Se é só isso, eu pago pelas coroas”, disse Schumacher, depois da partida, que ainda sustenta que sua intenção era ir na bola. Battiston, em entrevista de 2012, ainda guarda certo rancor do lance.

Battiston é carregado de maca para fora do gramado (Foto: Getty Images)
Battiston é carregado de maca para fora do gramado (Foto: Getty Images)

A partida seguiu, e Breitner, atuando no meio-campo, exigiu boa defesa de Ettori, antes de o árbitro apitar o fim do tempo regulamentar. Em grande jogada individual pela ponta direita, Platini sofreu falta, e Trésor desempatou, completando o cruzamento. Rummenigge imediatamente começou a se aquecer e entrou em campo um minuto antes de Giresse ampliar para 3 a 1, completando de primeira uma bola rolada por Didier Six, após outra ótima jogada de Platini. Rummenigge, porém, diminuiu. Isso tudo aconteceu em um intervalo de dez minutos.

No começo do segundo tempo da prorrogação, Fischer tirou uma semi-bicicleta da cartola para empatar e levar a semifinal para os pênaltis. Os cinco primeiros cobradores, três franceses e dois alemães, acertaram as suas cobranças. O mesmo não pode se dizer de Uli Stielike, que bateu mal demais e parou nas mãos de Ettori. França em vantagem. Mas Six também errou. E Littbarski acertou. Platini também acertou. Assim como Rummenigge. Bossis, porém, foi vítima da segunda defesa de Schumacher nas disputas de pênaltis. A bola da semifinal caiu nos pés de Horst Hrubesch.

O camisa 9, que havia entrado na metade do segundo tempo, bateu no canto esquerdo de Ettori, que arriscou ficando no meio e foi eliminado da Copa do Mundo sem nem ter pulado para tentar defender o pênalti que mandou a França para casa. A Alemanha compensou seus problemas com muita força de vontade para conseguir se recuperar dentro da semifinal e chegou à decisão. Mas seria presa fácil para a Itália de Paolo Rossi.