Um dia depois de dizer que não renunciaria à presidência do Barcelona, Bartomeu renunciou à presidência do Barcelona

Sabe aquela brincadeira – meio piada, meio verdade – de que quando o dirigente vem a público dizer que o treinador está “prestigiado” a demissão é questão de tempo? Pois é. Engraçado como o mundo dá voltas. Um dia depois de dizer que nunca havia pensado em renunciar à presidência do Barcelona, Josep Bartomeu renunciou à presidência do Barcelona.

Foi um caso típico de sair antes que fosse saído, meio Richard Nixon, meio Fernando Collor – está em ótima companhia. Sócios do Barcelona reuniram mais de 20 mil assinaturas, acima do necessário, para aprovar a votação de uma moção de censura que o agora ex-presidente do Barça provavelmente perderia.

A votação havia sido marcada para o próximo fim de semana, mas Bartomeu vinha tentando adiá-la. Chegou até a parecer que se preocupa com a pandemia ao enviar uma carta ao governo regional da Catalunha dizendo que o clube conta com mais de 40.000 sócios com mais de 60 anos – e portanto no grupo de risco do coronavírus – e que a “maior preocupação” seria evitar colocá-los em risco.

Uma preocupação admirável com a situação sanitária, que ele não fez questão de expressar publicamente quando o Barcelona tentou abrir os portões do Camp Nou aos torcedores para a primeira rodada da fase de grupos da Champions League contra o Ferencváros, semana passada. Isso à parte, ele tentou emoldurar sua decisão de renunciar como um sacrifício necessário em nome da saúde pública.

“Comunico minha renúncia e a do restante da junta diretiva. É uma decisão pensada, serena e acordada entre todos meus companheiros. Curto e grosso: ignoraram nossos pedidos para preparar a logística com as mínimas medidas de segurança necessárias. Temos que atuar com responsabilidade e não podemos convocar o voto de censura. Não podemos escolher entre o voto e a saúde”, disse.

Como a decisão foi “pensada”, se um dia antes ela “nem havia passado pela sua cabeça”, é uma outra questão, mas o que o torcedor do Barcelona realmente quer saber é por que demorou tanto. “Depois da eliminação na Champions League, o mais fácil era ir embora, mas era necessário tomar decisões, em meio a uma crise mundial sem precedentes. Isso não poderia ser feito com um comitê gestor com funções limitadas. Quem contrataria o novo técnico? Quem defenderia a continuidade de Messi?”, questionou o ex-presidente.

A derrota por 8 x 2 para o Bayern de Munique, provavelmente o ponto mais baixo do Barcelona desde que Guardiola assinou as linhas pontilhadas para virar o novo treinador, em 2008, foi a culminação de um processo de deterioração excepcionalmente bem supervisionado por Bartomeu, cuja diretoria tomou todas as decisões certas se o objetivo era que tudo desse errado.

Ele assumiu a presidência do Barcelona interinamente após a renúncia de Sandro Rosell, acusado de irregularidades na aquisição de Neymar, e foi eleito, mais de um ano depois, surfando na onda positiva da Tríplice Coroa conquistada pelo trio MSN e pelo treinador Luis Enrique. É um problema conceitualmente complicado de ser resolvido quando o auge da sua presidência chega logo no começo – ou até antes de ela começar de fato.

Porque foi daí para baixo. Dá para dizer que Bartomeu errou em todos os departamentos – menos no esporte amador, ele disse que no esporte amador o Barcelona conquistou 149 títulos. Teve sucesso em La Liga com Ernesto Valverde, mas o estilo de jogo do treinador nunca agradou à torcida fascinada por Johan Cruyff e as eliminações na Champions League eram vexatórias antes de o termo ser ressignificado pelo 8 x 2. A troca por Quique Sétien foi uma tentativa equivocada e fracassada – e desesperada – de tentar resgatar esse cruyffismo.

O mercado foi outro desastre, com dezenas de contratações que não deram certo, reforços superfaturados e, principalmente, perdendo o momento de renovar posições-chave do elenco. Para completar, foi acusado de contratar uma empresa de redes sociais suspeita de criticar seus próprios jogadores, um dos seus diretores (Eric Abidal) criticou o empenho do time em público, houve polêmicas na negociação das reduções salariais por causa da pandemia e, claro, Bartomeu precisou adotar uma interpretação extremamente legalista da cláusula de rescisão do contrato de Messi para não entrar na história como o presidente que deixou o melhor jogador que o Barcelona já teve ir embora – talvez até de graça.

Essa é uma questão que fica em aberto. Quando Messi anunciou que queria sair do clube, houve muita especulação se o argentino mudaria de ideia se Bartomeu fosse embora. O dirigente teria chegado a oferecer a sua renúncia em troca da permanência do craque. No entanto, as eleições para eleger um novo presidente foram marcadas para março. Messi, com contrato apenas até o fim da temporada, sabia que se livraria de Bartomeu naquela data de qualquer maneira. A saída precoce fará alguma diferença em sua decisão de renovar ou não?

Se Messi tiver o diagnóstico correto dos problemas atuais do Barcelona, a resposta mais provável é que não. A correção do projeto esportivo exige pelo menos um ou dois mercados perfeitos, e o último já não foi, além de um treinador muito bom e que realmente tenha um plano. Ainda é cedo para saber se Ronald Koeman é esse cara. O cenário mais realista é que Messi chegue ao fim do seu contrato sem ter certeza se o clube está realmente na direção correta, e aí terá que decidir se sacrifica provavelmente seus últimos suspiros em alto nível para colocá-lo nela ou se tenta rechear o currículo com títulos em outro lugar.

Agora, quem assume o poder é o presidente da Comissão Econômica, Carlos Tusquets, tesoureiro do Barcelona aos 27 anos na década de oitenta e creditado como um dos responsáveis pela contratação de Diego Maradona. Ele terá no máximo 90 dias para convocar novas eleições, o que significa que o Barcelona saberá a identidade do seu novo mandatário até o fim de janeiro. E ele terá muito trabalho pela frente.

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