Em um grande exemplo do tamanho do impacto que figuras midiáticas como jogadores de futebol podem ter, o governo britânico mudou de ideia e decidiu manter os vouchers de refeição gratuita a crianças carentes durante as férias de verão depois de campanha iniciada por Marcus Rashford na segunda-feira (15).

O governo conservador de Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, havia decidido interromper o programa de vouchers alimentícios que vinham sendo distribuídos a crianças carentes que, em tempos normais, dependiam de refeições gratuitas nas escolas. A pressão da oposição já cercava os conservadores, com o Partido Trabalhista ameaçando forçar uma votação sobre o assunto na Câmara dos Comuns. Por fim, o posicionamento de Rashford na segunda-feira, iniciando uma campanha viral pelo recuo do governo, surtiu efeito.

O porta-voz oficial do governo britânico anunciou nesta terça-feira (17) que o programa de assistência seria estendido para o período de seis semanas de férias de verão das escolas, a um custo de cerca de £ 120 milhões. Distribuída em forma de vouchers a serem utilizados em supermercados, a ajuda deverá alcançar mais de 1,3 milhão de crianças registradas no programa de merendas gratuitas das escolas britânicas.

Em carta aberta aos parlamentares britânicos publicada na segunda-feira, Marcus Rashford fez um forte argumento pela manutenção do auxílio, tomando como exemplo sua própria infância. Um de cinco filhos, Rashford foi criado apenas pela mãe, e sua família dependia de programas de assistência para ter o que comer todos os dias. Grato pela ajuda no passado, Rashford decidiu usar sua plataforma atual para garantir que as crianças mais vulneráveis da Inglaterra tivessem a mesma oportunidade.

“Como um homem negro de uma família de baixa renda de Wythenshawe, Manchester, eu poderia ter sido apenas mais uma estatística. Em vez disso, graças às ações altruístas de minha mãe, minha família, meus vizinhos e meus treinadores, as únicas estatísticas com que sou associado são gols, jogos e convocações. Eu estaria sendo injusto comigo mesmo, com minha família e minha comunidade se eu não me posicionasse hoje aqui com minha voz e minha plataforma, lhes pedindo por ajuda”, escreveu Rashford em um trecho de sua mensagem.

Reforçando sua voz, o jogador ainda concedeu entrevistas a emissoras de TV britânicas, publicou um texto no jornal The Times e seguiu sua campanha com publicações em suas redes sociais.

Este posicionamento do atacante é só o exemplo mais recente de sua contribuição para a sociedade durante a pandemia do novo Coronavírus. Em março, o jogador se juntou a uma instituição que distribui alimentos para poder levantar fundos para que crianças que dependiam da merenda seguissem tendo o que comer enquanto as escolas estavam fechadas. Com a projeção que deu ao projeto, ajudou a levantar £ 20 milhões e a distribuir três milhões de refeições semanais. Mas, como escreveu em sua carta, “isso não era o bastante”.

Com uma vitória tão gigantesca e rápida em uma questão tão simbólica como esta, Rashford se torna o exemplo recente mais claro do poder de influência que jogadores de futebol podem ter sobre a sociedade, especialmente quando suas intenções estão no lugar certo. Com apenas 22 anos, e em um momento que o esporte parece abrir a cabeça para sua responsabilidade social, o atacante pavimenta um caminho transformador. Fazendo isso, redefine o próprio significado do que é “ter sucesso”.

Ao saber do resultado de sua campanha, Rashford comemorou a vitória e ressignificou também um próprio trecho de sua carta. Apontando para o número enorme de crianças em situação vulnerável, havia escrito que “isso é a Inglaterra em 2020”. Agora, a frase pode ter um novo sentido: “Não sei nem o que dizer. Olha só o que podemos fazer quando nos unimos. ISSO é a Inglaterra em 2020”.