Um começo de Premier League meio estranho – e divertido: que seja eterno enquanto dure

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Apenas dois clubes na história do futebol inglês – e somente um desde a invenção da penicilina – conseguiram conquistar o título da liga nacional sem derrotas. O Arsenal de 2003/04 quase ganhou companhia nas últimas três temporadas, quando Liverpool e Manchester City demoraram para perder pela primeira vez e conquistaram a Premier League com quase 100 pontos. Arsène Wenger, porém, pode ficar tranquilo. Seu maior feito à frente dos Gunners está preservado por pelo menos mais um ano.

Ao fim da sexta rodada, todos os times da elite da Inglaterra perderam pelo menos uma vez. Nunca antes na história da Premier League – era moderna do Campeonato Inglês, fundada em 1992 – a possibilidade de um novo campeão invicto terminou tão cedo. Claro que Everton e Aston Villa, os últimos derrotados, não seriam os novos Invencíveis, mas essa estatística é bem ilustrativa de como a liga mais rica do mundo começou a nova temporada de um jeito meio estranho.

Talvez pareça estranho apenas porque nos acostumamos com os candidatos ao título disparando no começo do campeonato, mas, até agora, realmente nenhum clube parece intocável e há a sensação de que todos podem bater todos.

O West Ham é um caso fantástico de estudo. Estreou, em crise, como sempre, levando 2 x 0 do Newcastle. Duas rodadas depois, goleou o Wolverhampton, um dos mais fortes times do segundo escalão, e emendou 3 x 0 sobre o Leicester, uma semana depois de as Raposas aplicarem um 5 x 2 sobre o Manchester City. Entre essas vitórias, sofreu 4 x 1 do Everton pela Copa da Liga Inglesa. Até dentro de um próprio jogo, levou 3 x 0 do Tottenham e conseguiu buscar o empate com um golaço de Lanzini nos minutos finais.

O próprio Leeds de Marcelo Bielsa havia indicado o que viria pela frente nas duas primeiras rodadas, com um 4 x 3 a favor e outro contra. Foi o responsável por encerrar a invencibilidade do Aston Villa. A primeira derrota do Everton saiu pelas mãos do Southampton, que foi subindo de produção semana a semana desde que perdeu as duas primeiras rodadas. Vinha de um empate por 3 a 3 com o Chelsea, arrancado nos acréscimos do segundo tempo.

E, claro, o atual campeão levou 7 x 2 de um time que não foi rebaixado por um fio na última temporada, o mais barulhento e ilustrativo exemplo de que há algo de muito bizarro rolando na Premier League.

Podemos ser otimistas e acreditar que a injeção insana de dinheiro aos clubes da liga, liderando o mercado com centenas de milhões de libras em reforços mesmo na pandemia, finalmente gerou um equilíbrio maior entre a primeira e a segunda prateleira. É de fato verdade que clubes como Everton, Leicester e Wolverhampton estão próximos do Big 6 – especialmente de Manchester United, Arsenal, Tottenham e Chelsea.

Mesmo o Aston Villa não melhorou por acaso, mas fez um bom mercado que, se não lhe permitirá ser campeão invicto, pode pelo menos assegurar uma permanência mais tranquila nesta temporada. O Newcastle também se reforçou bem, e o trabalho de Bielsa faz do Leeds um dos times mais interessantes do país, como, em menores graus, o de Ralph Häsenhuttl eleva o Southampton, e o de Graham Potter, o Brighton.

Por um ponto de vista mais pessimista – ou realista -, é impossível ignorar as circunstâncias excepcionais sob as quais a temporada começou. Houve pouco mais de um mês de intervalo para a edição passada, menos para quem ainda estava vivo nas competições europeias, praticamente nenhuma pré-temporada e um mercado que, embora bilionário, teve certas restrições financeiras.

A sensação é de que a atual Premier League é meramente uma continuação da anterior. O intervalo foi pouco maior do que uma pausa de inverno. Os jogadores seguem sendo testados o tempo inteiro e os estádio seguirão vazios provavelmente até março. Segundo um estudo da BettingOdds, com 140 jogos disputados na elite inglesa desde a retomada, em junho, os pontos conquistados por mandantes e visitantes permanecem quase iguais, mas houve um acréscimo de 0,5 gol por jogo, em média.

Há quem defenda que jogar sem torcedores prejudica a concentração dos jogadores. Há quem diga que ajuda. Parece ser uma daquelas situações em que cada caso é diferente, mas é verdade que toda a situação é muito diferente. Há também uma distinção entre concentrar suas forças, física e mentais, para uma maratona específica de 10 jogos e ter que lidar com esse contexto por tempo indeterminado.

Estão marcadas quase 50 rodadas da Premier League em um intervalo de um ano, com copas nacionais e europeias e uma Eurocopa no fim da temporada. É uma maratona dura que gera uma compreensível administração de energia dos treinadores, com mais rotações no time titular, e também dos próprios jogadores dentro de um mesmo jogo.

E as duas principais potências do país ainda não engrenaram. O Manchester City parece até mais frágil do que em anos anteriores, em um certo período de transição com dois novos zagueiros, sem David Silva no meio-campo, e Sergio Agüero cada vez mais afastado por problemas físicos. O Liverpool, embora tenha se reforçado bem, ainda não chegou nem perto do nível que apresentou na temporada passada antes de selar o título e, daqui para frente, terá que lidar com a ausência de Virgil Van Dijk, sentida não apenas por ser seu principal zagueiro, mas também porque deixou a defesa com poucos corpos à disposição.

Mas, independentemente dos motivos, essa imprevisibilidade tornou este começo Premier League muito divertido. Aproveitemos enquanto isso dura e que dure bastante tempo.

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