Um choque entre reis

Depois de conquistas históricas em seus territórios, bretões de azul e a horda de insanos tentarão uma nova conquista na terra onde o sol nasce. Surgirão novos heróis?

Dizia um várias vezes condecorado capitão de um exército rival que “para conquistar o mundo, primeiro é preciso atravessá-lo”. Toda uma geração de uma nação inteira teve de ouvir essas palavras, repetidamente, como forma de escárnio, bem como de descrédito a suas conquistas passadas. Porque aquele povo já havia derrotado os pretensos melhores guerreiros do mundo, mas tudo aconteceu não muito longe de seus domínios, sob o sol escaldante de um típico verão do chamado Novo Mundo. Muitos deram de ombros para tal feito. Até porque, um mês antes, guerreiros acusados de terem um pacto com o cramulhão pregaram na cruz uma admirada santidade do catolicismo tupiniquim, comemorando exatamente a mesma conquista, só que nos tradicionais campos de batalha do oriente.

Pois a extensa horda de insanos, como eles próprios gostam de se autodenominar, engoliu calada, por muito tempo, todos os desaforos. Nada diminuiu, no entanto, o amor que nutrem por seus símbolos e seu jeito de ser. Não a ponto de desprezar conquistas, como bradaram da boca para fora, mas usando da mesma devoção com a qual continuaram conquistando adeptos, mesmo quando passaram anos a fio sem ganhar uma batalhinha sequer. Um amor comovente, que por vezes até cega, fazendo com quem o sente se renda à tentação de desacreditar as igualmente fortes crenças alheias. Sua estratégia bélica era conhecida continente afora: envolver seus próprios guerreiros, bem como seus inimigos, em meio a um mantra incessante e ensurdecedor, como forma de desorientar o oponente, antes de levá-lo a nocaute.

E foram várias as batalhas vencidas assim, com sangue, suor e lágrimas. Na marra e no gogó. Mas também várias perdidas, quando parte da horda de insanos até se voltava contra a sua própria tropa, mostrando descontrole emocional. Para estender um império que cobrisse um continente de uma ponta a outra, seria preciso equilíbrio. E-qui-lí-brio. E foi isso que prometeu um professor, com ares pouco convincentes de intelectual, assim que desembarcou por aquelas terras. Como gosta de falar difícil, sentindo-se mais garboso a cada verbete pouco convencional aplicado em suas preleções, muitas vezes passa por charlatão. Através do contato com esse povo, bem mais visceral e instintivo, todos acabaram lucrando, ao amealhar algo muito mais valioso que especiarias ou pedras preciosas: conhecimento. Ou melhor, autoconhecimento.

O que não quer dizer que as coisas correram bem desde o começo. Em uma jornada pelo maciço colombiano, bem ali ao pé dos Andes, viverem um fracasso daqueles impossíveis de apagar da memória. Pior do que ter de tratar as chagas de uma derrota, só mesmo saber que a queda se deu diante de adversários sem as mesmas força e tradição na arte da guerra. Os insanos, com alguma razão, pediram a cabeça do professor, mas o bronco pajé da tribo o poupou da guilhotina. Não que o desastre não tenha trazido suas consequências. Acabava ali a saga de um soldado que uniu a um vasto acervo de glórias fenomenais e cicatrizes de combate uma fisionomia saliente, imprópria para quem pretendia continuar desfilando sua reconhecida categoria pelos campos de batalha. Sobrou a ele a medida certa da aposentadoria.

Um recomeço

Diante de um grupo com menos estrelas do que céu nublado em noite de neblina, o professor parecia se sentir mais à vontade para colocar em prática os seus ensinamentos. Formou um exército solidário, que se defende por meio de seus ataques, onde um cobre o ponto cego do outro e cada peça do tabuleiro se move pela trincheira como que prevendo cada imprevisto. Um enxame de abelhas assassinas, que forma diferentes desenhos a cada movimentação, esperando o momento certo para tascar seus ferrões na vítima da vez. A horda de insanos passou a viver dias que lembravam o ambiente democrático de seus ancestrais mosqueteiros. Um por todos e todos por um. Todos por um só objetivo: conquistar a América.

Aquele povo, antes ridicularizado por não se impor frente ao resto do continente, vagou do Mar do Caribe às águas geladas da Patagônia, derrubando quem encontrasse pela frente. Não sofreram um reles arranhão durante essa campanha imperialista. Os guerreiros da ordem de Cruz de Malta controlavam a batalha, mas foram apunhalados em um raro momento de fraqueza. Os pescadores da vila da praia viram o seu arpão principal ser inutilizado, como que preso a um campo de força. Ou, em um exemplo que melhor lhes convém, aprisionado à rede que jogam ao mar para arrebanhar seu sustento. Nem mesmo os temidos estivadores da boca do cais do Prata conseguiram tirar os insanos mosqueteiros do sério.

Os golpes podiam não ser dos mais plásticos. As batalhas, é verdade, despertavam bocejos em quem as via sem nenhum vínculo emocional. Mas eles conseguiram. De forma incontestável, pela primeira vez em sua longa história, tinham o continente todo aos seus pés. E como ensinara um certo Alexandre: o mundo é o limite. Era a hora de cruzar os mares e rumar ao oriente, para acabar de uma vez por todas com qualquer ranço de desconfiança que ainda existisse sobre os seus poderes. Na despedida, milhares acenaram seus lenços. Outros tantos deram o seu jeito de embarcar junto. Queriam mostrar ao mundo o que consideram ser os benefícios da insanidade. A primeira batalha em solo desconhecido até trouxe algum temor, mas nada que impedisse os mosqueteiros de mumificar a concorrência.

Para conquistar o mundo, mais do que atravessá-lo, será preciso enfeitiçá-lo. O mantra popular já se ouve, cada vez mais forte. Como a teia de uma aranha à espera de sua presa.

Enquanto isso, bastante longe dali…

Transcorreram nove dias e nove noites de festa: um para cada ano de espera. Desde que adotaram o Deus Abramovich como mecenas espiritual, os bretões de vestes azuis ansiavam pelo momento de mandar na Europa. Encerradas as celebrações e passada a ressaca contraída pela ingestão do sangue da divindade transubstanciado em vodca (servido acompanhado por deusas russas de carne, osso e pele macia que derrete na boca como hóstias), a dúvida tomava conta dos habitantes da ponte de Stamford: e agora? O que mais o futuro reserva? Por muitos anos, esse reino se acostumou a apenas assistir os outros lutando, pois sabia que só servia de figuração. A nova era de fartura não permitia acomodação, exigia ambição.

É verdade que o ebúrneo cavaleiro negro, fundamental na tomada do Velho Mundo, havia partido. Curiosamente, também escolheu lutar em algumas cruzadas pelo oriente, mas bem longe das arenas mais bem frequentadas do planeta. A decadência dos demais bispos-senadores, exceção feita ao tcheco de crânio trincado, demandava uma renovação. E o padroeiro russo mandou uma colheita de respeito. Novos guerreiros, cheios de talento, ainda cheirando ao leite que os amamentara, foram os escolhidos para perpetuar o domínio alcançado. Tudo corria muito bem, até que a tropa, em número reduzido e de pouca variedade armamentícia, começou a sucumbir à maratona de desafios que todo rei do pedaço precisa encarar.

A divindade das estepes petrolíferas não demorou a se manifestar, dizimando mais um comandante com seu tradicional raio de impaciência. Cabe agora a um rechonchudo foragido ibérico, com corpo de Sancho Pança e delírios de Dom Quixote, recolocar esse exército nos trilhos. Logo ele, que no comando de reinos rivais fazia troça com a nova crença adotada por aquele povo. Ele promete se redimir e desfazer a péssima impressão que deixou. Para tal, nutre esperança na recuperação de um conterrâneo matador, comparado em seu surgimento a devastadores tempestades e vendavais, mas que ultimamente não vinha conseguindo assassinar nem baratas embriagadas de inseticida.

O confronto final

Assim como na invasão à fortaleza bávara em forma de pneu, os bretões não contarão com os feitiços desleais de seu cafajeste sacerdote, que já não se impõe como antigamente. Mais calmo do que de costume, carrega no rosto a serenidade de quem já sente o peso da idade, bem como o sorriso de canto de boca de quem prometeu cuidar muito bem de todas as mulheres do reino, na ausência de seus bravos companheiros. A missão deles é recuperar a honra de todo um povo, que não quer mais saber de voto de pobreza, ao contrário de seus franciscanos, maloqueiros e sofredores rivais na batalha pelo topo do mundo. Que o digam os desavisados aztecas que cruzaram o seu caminho, logo em seus primeiros dias de reconhecimento de terreno no milenar arquipélago oriental.

Tanto os bretões de vestes azuis, quanto a horda de insanos, sabem que o que fizeram durante o último ano do preguiçoso calendário maia já é digno de colocar o nome de seus povos nos livros de História, independente do que acontecer no aguardado (ao menos de um lado do Atlântico) confronto final. Mas já que foram tão longe, tentarão de tudo para, quando içarem velas na volta para casa, terem o direito de subir à proa de suas embarcações e gritar a plenos pulmões que são, ao menos por um ano, os reis do mundo. E a satisfação de poder espalhar para os amigos, entre uma cerveja e outra, que sim, passaram o rodo na Kate Winslet. E passaram com gosto.

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