Valdés, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro e Messi. O time base de Guardiola tinha sete pratas da casa. Tinha outra coisa também: fetiche pela bola. Não a largava de jeito nenhum. Marcou época e foi bicampeão europeu com esse estilo de toques curtos e paciência, mas para voltar à decisão da Champions League precisou adotar uma estratégia, dentro e fora de campo, mais semelhante à do rival Real Madrid.

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A mudança não foi drástica, nem teria como ser depois de tanto tempo jogando de uma forma, mas os números indicam que o Barcelona trabalha menos a bola antes de chutar a gol. No auge do tiki-taka, chegou a trocar em média mais de 750 passes por partida do Campeonato Espanhol, a base da temporada. Com Luis Enrique, não chegou a 680. O Real Madrid de José Mourinho variou entre 477 e 537, e o de Carlo Ancelotti, 330.

Embora tenha tido mais posse de bola que nas temporadas passadas, os catalães souberam se adaptar às circunstâncias. Depois de perder por 2 a 1 no Camp Nou, Ancelotti disse que “os contra-ataques do Barça na última meia-hora foram devastadores”. A maior representação foi na semifinal contra o Bayern de Munique, quando Suárez e Neymar mataram o jogo na Allianz Arena dessa forma, a mesma que o Real Madrid usou para dominar os alemães na temporada anterior.

O time de Luis Enrique é muito mais direto e objetivo, como o José Mourinho e o de Carlo Ancelotti, seja por imposição do treinador, pelas características dos jogadores ou um pouco dos dois. Pedro e Villa participavam mais da troca de passes, e restava a Messi a função de ser a flecha que a complementava. Mas Neymar e Suárez também têm a ânsia de partirem em velocidade em direção ao gol, driblando e ocupando os espaços. Seria pouco inteligente desperdiçar isso.

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Ambos representam a mudança na forma como o Barcelona atua dentro de campo e também na política de transferências. Um clube que gastou R$ 100 milhões pelo Chygrynskiy não pode ser chamado de franciscano, mas a política de contratações de Guardiola não envolvia necessariamente grandes estrelas e investimentos faraônicos. As quatro temporadas dele e a única de Tito Vilanova retiraram R$ 1,5 bilhão dos cofres do clube. As duas desde então, R$ 1,1 bilhão.

Apenas Neymar custou aproximadamente R$ 430 milhões, mais do que todas as temporadas de Guardiola/Tito, exceto aquela que trouxe Ibrahimovic da Internazionale. Suárez exigiu investimento de R$ 340 milhões. Mais do que o dinheiro, a mudança foi no perfil de contratar estrelas com alto potencial de marketing, como faz o rival Real Madrid obrigatoriamente todas as temporadas. Nos cinco anos anteriores a Tata Martino, os únicos jogadores que se encaixariam nessa política seriam Ibra, Henry (em fim de carreira) e Fàbregas (voltando para casa).

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Outro exemplo de como o Barcelona passou a olhar mais para fora dos muros de La Masía foi a sucessão de Xavi. O genial capitão, líder de um time que fez história, não tinha mais fôlego para se manter como o motor barcelonista, ainda mais em um estilo de jogo mais lançado e agudo. Ao invés de buscar alguma solução caseira, e potencialmente quebrar a cara, os blaugranas desembolsaram € 18 milhões para tirar o croata Rakitic do Sevilla. Funcionou muito bem, e o meio-campo catalão tem um motor discreto e eficiente.

Essa nova política causou teve impacto direto na utilização dos jogadores da base no time principal. Apenas Iniesta, Busquets e Messi são titulares que saíram das categorias de base. Piqué e Alba têm a mesma formação, mas tiveram que ser recontratados. Enterra aquela impressão de que o Barcelona formava jogadores de primeiro nível em escala industrial. Ainda é o clube que mais revela no mundo, mas obviamente surgem mais Bojans, um jogador útil e nada mais, do que Xavis. As pratas da casa acabaram relegadas a opções de elenco, como Rafinha, Montoya, Munir e Bartra, que tem potencial de serem bons ou ótimos, mas dificilmente serão craques.

Quando as categorias de base deixaram de mostrar alternativas, o Barcelona teve que ir às compras. Esses jogadores novos motivaram uma mudança de filosofia dentro de campo e deixaram o clube catalão mais parecido com o Real Madrid do que se imagina. Sem exageros e megalomanias, isso não é necessariamente um demérito. Pelo contrário: levou o time de volta à decisão da Champions League.

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