Texto publicado originalmente em 30 de março de 2016

Um craque se descobre nos pés. Um gênio, não apenas neles. E a inteligência de Johan Cruyff conseguiu ir muito além dos limites de seu talento no trato com a bola. A lenda da camisa 14 ajudou a comandar uma revolução dentro de campo. E, outra, do lado de fora. Mentor de times históricos, o holandês também representou muito para a cultura futebolística. Um contestador por natureza, nascido para quebrar padrões e revirar as verdades estabelecidas. Não à toa, o todo-campista também foi um pioneiro do marketing. E um ícone que soube usar a grandeza de sua figura para fazer contestações políticas. Se Cruyff significa tanto, é porque compreendeu como pouquíssimos a essência do futebol – das estratégias à inserção na sociedade. Genialidade moldada desde os seus primórdios.

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Para entender a mente de Cruyff, é preciso mergulhar em suas origens. E no ambiente que o jovem craque nasceu, em 1947. Naquele momento, Amsterdã se reconstruía dos escombros após a Segunda Guerra Mundial. E o fim do conflito marcou a mudança de sua família para Betondorp – a “vila de concreto”, em holandês. O bairro de periferia, no leste da capital, era marcado pela vivacidade em busca do renascimento do país. Suas casas eram habitadas por proletários, enquanto as ruas contavam com grande presença de lojas e pequenos comércios. Além disso, a tendência política se contrapunha às feridas abertas deixadas pelo nazifascismo, conforme a mentalidade dos anos 1940.

“Quando cheguei para trabalhar em uma loja de roupas, a primeira coisa que perguntaram era se minha família simpatizava com o comunismo ou o socialismo. Se você não era uma coisa e nem outra, não era bem-vindo a Betondorp”, afirma Ali Lagard, veterano de 89 anos que viu a transformação da vizinhança ao longo das últimas sete décadas. Na antiga biblioteca, transformada em centro social, há uma inscrição em latim que evidencia esta postura de contestação: “Desconfie de pessoas que leem apenas um livro”. Uma ironia à bíblia – o que parecia natural em um bairro surgido nos anos 1920, foco de resistência de trabalhadores.

Neste ambiente é que os Cruyff se instalaram a partir da segunda metade dos anos 1940. O pai, Hermanus, cuidava da quitanda na entrada da residência e a mãe, Petronella, cuidava de seus dois filhos: Henny e Johan. Desde cedo, as duas crianças aprenderam o valor que tinha o trabalho duro desempenhado pelos pais, que fazia a família prosperar. E ocupavam a sua energia praticando esportes. Logo de início, os garotos foram seduzidos pelo beisebol. Mas também costumavam bater sua bolinha nos quarteirões de Betondorp. Johan era visto com a bola nos pés o tempo todo, seja jogando sozinho ou contra o muro de casa.

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Entre os vizinhos que se lembram do menino Cruyff, ninguém menos do que Sjaak Swart – o Mr. Ajax, atacante que permanece até hoje como recordista em jogos pelo clube. “A partir dos oito anos, Johan jogava o tempo na rua e parecia parte da paisagem. Ele parecia não ser de nada, muito magro. Mas evitava as entradas como se tivesse olhos na nuca”, recorda-se o senhor, hoje com 77 anos. O Ajax já fazia parte do cotidiano dos Cruyff. Enquanto Hermanus vendia frutas e legumes ao clube, Petronella trabalhava voluntariamente na cozinha. O antigo Estádio De Meer, casa dos alvirrubros entre 1934 e 1996, ficava a apenas alguns quarteirões da casa da família em Betondorp.

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Cruyff logo passou a ser observado pelos olheiros do Ajax que buscavam talentos nas ruas de Amsterdã. Aos 10 anos, ganhou o primeiro par de chuteiras dos pais e ingressou nas categorias de base do clube. Naquele momento, contrariava a própria vida: nascido com um problema de formação nos pés, o menino cresceu com dificuldades para caminhar. Por anos precisou usar sapatos ortopédicos. As chuteiras especiais representavam, de certa maneira, a vitória que a bola lhe deu, superando os problemas para torná-la sua principal companheira. O elemento que permitiu as suas revoluções.

O Ajax, aliás, parecia um ambiente perfeito para Cruyff se desenvolver. O clube aplicava uma visão sistêmica no desenvolvimento de suas categorias de base, a partir das ideias de Jack Reynolds, treinador em três diferentes passagens entre 1915 e 1947. O comandante ajudou a unificar a maneira de trabalho, espelhada no time principal, e tornou bastante prolíficas as canteras dos alvirrubros. Um trabalho que beneficiou Johan. Além disso, o Ajax estava encravado em uma sociedade em ebulição, entre os trabalhadores que ajudavam a reerguer a Holanda e a comunidade judaica que renascia após o terror do Holocausto – e que participaria firmemente da ascensão do time nos anos 1960, provendo apoio financeiro.

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Dois anos depois de ingressar no clube, porém, Cruyff sofreu um grande baque. Hermanus faleceu aos 44 anos, vítima de um ataque cardíaco. A família representativa na vizinhança teve que fechar sua quitanda e se mudou para uma área mais afastada de Betondorp. No entanto, o Ajax tratou de acolhê-los. A mãe foi contratada pelo clube, trabalhando como faxineira, e também tornou-se empregada na  casa de Vic Buckingham, então técnico dos alvirrubros. Enquanto isso, o menino de 12 anos aprendeu a conviver com as chagas. Não tinha mais a sua grande referência e passou a contestar muito mais quem se impunha ao seu redor. Ao mesmo tempo, criou um enorme senso de responsabilidade.

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A morte do pai pode ser colocada como um episódio decisivo para a formação da personalidade forte de Cruyff. “Se ele trouxe alguma coisa à sociedade holandesa, foi sua desconfiança das autoridades, não sejam servos. Cruyff, devido ao seu status excepcional, nunca se submeteu ao poder. Isso é algo presente nele desde a morte do pai, quando a autoridade desapareceu”, afirma Henk Spaan, autor do livro ‘Os filhos de Cruyff e outros poemas’. Anos depois, na própria ficha do craque, o psicólogo contratado por Rinus Michels constatou: “Cruyff realmente recusa a autoridade porque inconscientemente compara a todos com seu pai”.

No colégio protestante onde estudava, Cruyff indagava as doutrinas do ensino religioso. Entre seus castigos, estava o de copiar 100 vezes a frase: “O futebol é para os pobres de espírito. Crer em Deus é a única verdade, o único esporte autêntico e profundo”. Anos depois, Johan negaria em campo a primeira frase. Aplicava os ensinamentos que teve do pai em sua dedicada rotina desde adolescente, tentando sempre absorver tudo ao seu redor e evoluir. “Eu não tive grande educação, então eu aprendi tudo o que sei na prática”, declarou ao jornalista Simon Kuper, em 2000.

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Cruyff passou a adolescência praticamente inteira no Ajax. Trabalhava em uma loja de artigos esportivos, enquanto tinha passe livre dentro do clube nas demais horas. Seu padrasto era Henk Angel, porteiro dos alvirrubros, que se tornou uma nova referência ao jovem. Almoçava com os treinadores e acompanhava a mãe nas tarefas pelos vestiários, cruzando com os ídolos da equipe principal. Sjaak Swart passou a conviver cada vez mais com o vizinho: “Cruyff ia para o clube logo após a escola, sempre levando a bola consigo. Estava presente a todo o tempo, como se fosse programado a integrar o time principal. Era como um Messi de antigamente e fazia truques com a bola que eu jamais tinha visto”. Sua dedicação rendia-lhe frutos. Em 1962, foi convidado para ser gandula na histórica final da Copa dos Campeões em que o Benfica de Eusébio e Coluna bateu o Real Madrid de Di Stefano e Puskás por 5 a 3.

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Pouco antes de chegar ao time principal, Cruyff encontrou um grande mestre em Jany van der Veen, técnico das categorias de base do Ajax. Ele percebeu como lidar com o gênio difícil do menino e manter a sua disciplina. Um dos poucos que Johan respeitou, a ponto de recontratá-lo para base quando voltou ao clube, nos anos 1980. Sob as ordens de Van der Veen, o jovem craque se firmou nas equipes juvenis. Logo ao completar 16 anos, assinou o seu primeiro contrato profissional. Já a estreia aconteceu 19 meses depois, em novembro de 1964, durante uma derrota para o GVAV – na qual o novato anotou justamente o único tento dos alvirrubros.

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Cruyff, então, era tratado como um grande prodígio no Ajax. Mas também um rebelde cujo gênio difícil nem sempre era compreendido por todos na equipe principal. Mesmo tão jovem, o talento causava receio aos mais velhos. Até suas visões serem respaldadas pelos companheiros. Logo perceberam a inteligência do garoto para ajudá-los em campo. E a fama do craque passou a se alastrar pelo resto da Holanda. A ponto de sua mãe proibi-lo de atuar fora de casa nos primeiros meses de carreira, diante da violência dos adversários.

Em 1965, por fim, chegou a outra mente brilhante para complementar Cruyff no Ajax: Rinus Michels. Ex-jogador do clube, o veterano trabalhava como professor de educação física para crianças surdas enquanto conciliava o início de sua carreira como treinador. Ao lado do jovem, transformou o Ajax e a Holanda em potências internacionais. Mais do que isso, ambos revolucionaram o futebol, por mais que o comandante também enfrentasse as suas dificuldades em lidar com a personalidade do craque.

Cruyff se eternizou para o futebol com muitas das características que o moldaram desde a infância. Alguém que lutava pelos próprios ideais e prezava por sua individualidade – o que também podia beneficiar o coletivo. Que não tinha problemas para questionar ou se impor diante de qualquer um. Que trabalhou muito duro para viver o seu sucesso. A ausência do pai se refletiu de diferentes maneiras: da dedicação em busca do conforto de sua família às soturnas noites em que imaginava conversar com Hermanus na cozinha de sua casa. Fato é que a perda se transformou em força. E o menino de uma casa simples na periferia de Amsterdã, que tinha dificuldades até mesmo para caminhar, acelerou os seus passos para virar o futebol do avesso a partir dos anos 1960. Gênio, na mais pura acepção da palavra.


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