O que mudou e o que continua igual um ano depois do Fifagate

Faz exatamente um ano que o salão do hotel Baur au Lac acordou com um cenário diferente. Agentes do FBI foram de quarto em quarto para prender dirigentes da Fifa, que estavam envolvidos em um amplo esquema de corrupção em escolhas de sedes da Copa do Mundo e contratos de direitos de televisão e marketing.

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A ação, que levou o apelido de Fifagate, foi um turbilhão que escancarou as práticas dos principais dirigentes do mundo. A entidade que deveria zelar pelos interesses do futebol preocupou-se prioritariamente com os interesses dos seus membros, lesando a paixão de milhões de pessoas.

Denúncias tão grandes dificilmente passariam sem mudanças profundas nas estruturas da entidade, e isso de fato ocorreu. Por outro lado, alguns hábitos nunca morrem. Um ano depois das primeiras prisões, separamos cinco aspectos que mudaram na administração da Fifa e cinco que continuam iguais.

O que mudou
Presidência
Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa (Foto: AP)

Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa (Foto: AP)

Joseph Blatter entregou o cargo quatro dias depois de ser reeleito para o quinto mandato consecutivo. Afirmou que convocaria um congresso extraordinário para eleger o seu sucessor, e em 26 de fevereiro deste ano, o também suíço Gianni Infantino tornou-se o novo presidente da Fifa.

A mudança no chefe máximo da entidade, claramente causada pelas denúncias do Fifagate, é a imagem mais simbólica do tamanho do abalo que a Fifa sofreu. A medida mais importante, porém, foi aprovada no mesmo congresso que elegeu Infantino: os mandatos dos presidentes, secretário-geral e membros do comitê executivo foram limitados em 12 anos.

Blatter ficou 18 anos à frente da Fifa. João Havelange, 24.

Escolha das sedes

As escolhas de Rússia e Catar como sedes da Copa do Mundo, vencendo Inglaterra e Estados Unidos, respectivamente, foram o estopim da investigação do Departamento de Justiça americano. A grande curiosidade era descobrir como países menos preparados conseguiram vencer as eleições, e a resposta surpreendeu absolutamente ninguém: mediante o pagamento de propinas. Alemanha, África do Sul e Catar foram os principais alvos de denúncias de dirigentes dando presentinhos financeiros para membros do comitê executivo em troca de votos.

A Fifa aprovou uma reforma na sua maneira de escolher as sedes do Mundial. O processo demorará quatro anos, ao invés de apenas dois, em quatro fases: consultas, elaboração das propostas, avaliação e decisão. A primeira etapa já irá levar em conta se o país atende aos requisitos técnicos, que agora envolvem o respeito aos direitos humanos e uma gestão sustentável dos eventos. Será escolhida apenas uma sede por vez, como era anteriormente.

Outro ponto importante foi a ampliação do comitê executivo, de 25 membros para 36, o que torna mais difícil para organizadores pagarem propinas (ficou mais caro), controlar os eleitores, e amplia os critérios usados para escolher as sedes.

Por outro lado, se agora o respeito aos direitos humanos é essencial, fica difícil explicar como o Catar continua como sede da Copa do Mundo, sem nem entrar no mérito das denúncias de corrupção.

A caixa preta da Libertadores

Nunca se soube quanto a Fox paga à Conmebol pelos direitos de transmissão da Libertadores, uma vez que a emissora é co-organizadora do torneio. No entanto, um dos principais envolvidos no Fifagate foi Alejandro Burzaco, o executivo-chefe da empresa argentina Torneos y Competencias, intermediária das negociações de direitos de transmissão da competição sul-americana.

O segredo sobre os valores resultava em outro mistério: o que faz a Fox sempre vencer a licitação pelos direitos da Libertadores? Será que de fato havia uma concorrência justa? Se essas questões dificilmente serão respondidas, pelo menos serão irrelevantes a partir de 2019, quando a Conmebol finalmente fará uma licitação aberta e pública pelos direitos do torneio.

A Fox abriu mão do contrato que tinha para o período entre 2019 e 2022, depois das prisões de Buzarco e José Hawilla, dono da Traffic, que também tinha seu dedos nas negociações dos direitos da Libertadores, e a concorrência será realizada em 2019.

Outro escândalo trouxe informações sobre o valor pago pela Libertadores. Segundo os documentos do Panamá Papers, uma empresa offshore sediada no país comprou os direitos do torneio para revender às emissoras por apenas 10% do que a Globo desembolsa pelo Campeonato Brasileiro.

Salários públicos

O enriquecimento ilícito dos principais dirigentes da Fifa chegou ao fim, ou, sendo menos otimista e muito mais realista, pelo menos está mais difícil. A entidade passará a publicar os salários que recebem o presidente, o secretário-geral e os membros do comitê executivo. Isso é essencial para a transparência da entidade e também para podermos avaliar se o patrimônio do profissional corresponde aos seus ganhos trabalhando pela Fifa.

Representatividade
A nova secretária-geral da Fifa

A nova secretária-geral da Fifa

Pode ser apenas uma medida simbólica, mas também mostra que a Fifa está tentando ser mais próxima da sociedade. O Comitê Executivo obrigatoriamente terá que ter pelo menos seis mulheres, no mínimo uma por continente. A representação mais importante, porém, veio em um dos cargos cruciais da entidade: Infantino nomeou a senegalesa Fatma Samba Diouf, de 54 anos, mulher e negra, como secretária-geral.

E ao contrário dos seus antecessores no cargo, Diouf traz um currículo pesado e alheio à entidade. Trabalhou 21 anos nas Nações Unidas, tem oito anos no setor comercial de uma multinacional senegalesa e possui um doutorado em relações internacionais e comércio exterior.

O que continua igual
Distribuir cargos por apoio

Todos sabem como funciona: vota comigo e eu o nomeio secretário de alguma coisa (ou até mesmo ministro). É uma prática tão disseminada, inclusive na política, que nem o Fifagate conseguiu mudar. No processo de escolha da sucessão da Conmebol, o novo presidente Alejandro Domínguez conseguiu o apoio de Brasil e Argentina em troca de cargos. Fernando Sarney foi nomeado representante da entidade sul-americana no Comitê Executivo da Fifa. O novo secretário-geral deve ser argentino.

Eleições pouco democráticas
Zico postou foto em um jantar com a esposa em rede social

Zico postou foto em um jantar com a esposa em rede social

Com a renúncia de Blatter, e a entidade fragilizada, criou-se a expectativa de que a Fifa pudesse, finalmente, ser governada por um rosto novo, sem os vícios estruturais da entidade. Zico, por exemplo, tentou se candidatar, mas não conseguiu, pois precisava do apoio de pelo menos cinco federações nacionais. A exigência faz com que a eleição não seja exatamente democrática e serve para manter um mínimo de status quo no futebol mundial.

O sucessor de Blatter foi Gianni Infantino, ex-secretário-geral da Uefa, e portanto, um dirigente de carreira como todos os outros. Sua candidatura ser viável, e a de um jogador como Zico não ser, mostra a distorção do processo e a dificuldade em realmente renovar a Fifa.

Transparência total

Quem apareceu no final do ano passado para pedir mais transparência na Fifa foram os patrocinadores, aqueles que, afinal, pagam pela eletricidade na luxuosa sede de Zurique. Eles cobravam auditoria externa e prestação de contas da entidade, que não costuma ser clara na maneira como gasta o dinheiro que recebe das empresas, ou, por exemplo, os R$ 8 bilhões que lucro com a Copa do Mundo de 2014. Se a entidade quer provar que não desvia dinheiro para fins particulares, e investe apenas no “crescimento do futebol mundial”, precisa abrir o extrato da sua conta do banco.

A CBF
Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF (Foto: AP)

Marco Polo Del Nero, presidente da CBF (Foto: AP)

Quer dizer, mudou para permanecer igual. Depois de prender José Maria Marin, o FBI indiciou Del Nero e Ricardo Teixeira por corrupção. Del Nero deixou momentaneamente o cargo de presidente da CBF, mas fez as suas manobras para que a oposição não chegasse ao poder.

Primeiro, pediu licença para se concentrar na sua defesa e para poder escolher o seu sucessor. Em caso de renúncia, assumiria o vice mais velho. Nomeou o capixaba Marcus Antônio Vicente. Em seguida, articulou para que o paraense Coronel Nunes se tornasse vice-presidente da entidade, colocando um homem mais velho que o opositor Delfim Peixoto. No começo de janeiro, Del Nero retornou à chefia da CBF como se nada tivesse acontecido.