*Por Charley Moreira

O relacionamento da seleção brasileira com os seus torcedores está no divã. O desgaste vivido na Copa do Mundo de 2018 piorou a situação, após o breve romance que se viveu durante as Eliminatórias. Para a Copa América que se aproxima, o sentimento que permeia a Seleção não é dos melhores, sobretudo pelos questionamentos a Tite e pela rejeição a Neymar. Apesar disso, muitos brasileiros aproveitarão os jogos da Canarinho para mostrar seu amor pelo clube de coração através de bandeiras personalizadas. Um hábito cada vez mais comum nos jogos da equipe nacional, que deverá se notar nos estádios do país.

Em todos os jogos da seleção brasileira, seja masculina, feminina ou categorias de base, não é difícil encontrar bandeiras do Brasil com escudos de times no lugar do círculo azul central. Nos estádios, elas geralmente ficam espalhadas nos muros que separam o gramado da arquibancada. A prática de exibir bandeiras e camisas de equipes em partidas da Canarinho existe há muito tempo, mas ganhou força na Copa de 2014, realizada no país. No Mundial da Rússia, quatro anos depois, vários brasileiros que moram na Europa aproveitaram a situação para expor ao mundo a paixão pelo time ao qual torce.

Contudo, o que explica esse amor maior pelo clube de coração do que pela seleção de seu país? O comentarista Mauro Cezar Pereira fez uma enquete no Twitter, em 18 de maio, e perguntou o que era mais importante para seus seguidores: 1) seleção brasileira, 2) time de coração, 3) outra seleção, ou 4) o jogador favorito. O questionário contou com 16.723 votos, e a opção “time de coração” ganhou de lavada, com 95% contra 5% dos votos repartidos entre as outras três alternativas.

As bandeiras exibidas no Brasil x Bélgica da Copa (Fred Lee/Getty Images)

Segundo o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, é da cultura do brasileiro que acompanha futebol diariamente dar mais importância ao seu time do que à Canarinho. “A relação do torcedor com o futebol, em geral, começa pelo clube, é mais forte em relação ao clube”, explica. E reflete: “Para o torcedor mais envolvido com o futebol, a relação com o clube é de amor. Já com a seleção, é só sexo”.

Para ressaltar a paixão clubística dos brasileiros, Unzelte usa exemplos de jogadores que foram vaiados por “torcida rival” quando defendiam a seleção. Em 2013, o Brasil realizou um amistoso com o Chile, no Mineirão, e a dupla de zaga daquela partida era composta por Dedé e Réver, respectivos xerifes de Cruzeiro e Atlético Mineiro. Ambos foram perseguidos e ovacionados pelos cruzeirenses e atleticanos no estádio, e o beque alvinegro, depois que marcou um gol, recebeu um misto de vaias e aplausos vindo das arquibancadas.

“Torcer mais para um jogador se destacar do que outro, por ele ter jogado em determinado clube, é muito comum. Mas insisto mais uma vez: é coisa de quem está envolvido no futebol quarta e domingo. O torcer contra ou a favor, ou preferir um título do clube a um da seleção, é mais de quem acompanha o futebol no dia a dia”, salientou.

Também acontece lá fora

Incluir escudo de time na bandeira do Brasil já virou um hábito normal. Mas não pense que essa mania ocorre apenas por aqui. “Isso rola lá fora também. Uns anos atrás eu até conversava com um amigo que é professor de história sobre essa mistura da heráldica de clubes com símbolos nacionais e acho até que na Catalunha é bem comum”, aponta Nelson Oliveira, editor-chefe da Calciopédia. “No Brasil acho – acho mesmo, puro palpite – que isso aconteça mais porque a nossa bandeira favorece isso, com o círculo azul no meio e tal. É fácil substituí-lo por um escudo de clube, já que muitos são redondos.”

A versão juventina da bandeira italiana (Daniele Buffa/Image Sport)

Curiosamente, um mineiro introduziu o brasão de seu clube de coração, o Tupi de Juiz de Fora, no centro da bandeira da Rússia e a exibiu nos estádios que visitou na Copa de 2018, despertando a curiosidade de outros torcedores. Uma foto do corretor de seguros Edésio Iung, durante a estreia do Brasil no Mundial, contra a Suíça, em Rostov, viralizou nas redes sociais. “A ideia da bandeira partiu do meu sobrinho, que, como eu, é apaixonado pelo Tupi. Não esperava nenhuma repercussão. O objetivo era mostrar para amigos em JF onde estaríamos e, claro, divulgar o Galo Carijó”, afirmou Iung, ao GloboEsporte.com.

A Copa América 2019 pode ser mais um bom momento para os torcedores clubistas mostrarem suas bandeiras personalizadas nas arquibancadas. A expectativa para o torneio que está prestes a começar não passa nem perto de uma Copa do Mundo, onde comercializantes vendiam, antes e durante o Mundial da Rússia, esse tipo de flâmula até em semáforos de cidades metropolitanas. Entretanto, apesar do baixo movimento, a expectativa é que não falte nos estádios bandeiras do Brasil com o brasão de times brasileiros.

* Charley Moreira é formado em Jornalismo pela Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, ex-coordenador de futebol internacional da VAVEL Brasil e administrador da AC Milan Brasil.