Pape Souaré não aparece entre os nomes mais badalados do Crystal Palace. O lateral senegalês, projetado pelo Lille, fez apenas uma temporada como titular no Selhurst Park. Quando se preparava para se firmar na Premier League, entretanto, o futebol se tornou um assunto bem menor. Em setembro de 2016, o defensor se envolveu em um acidente automobilístico gravíssimo. Aos 26 anos, viu a morte passar diante de seus olhos e sofreu lesões que colocavam em dúvida sua continuidade como profissional. Quebrou o fêmur e o maxilar, sofrendo uma dolorosa recuperação ao longo dos últimos meses. Mas não desistiu. E, 373 dias depois de tudo, está pronto para retornar aos gramados. Estará no elenco que enfrentará o Huddersfield Town nesta terça, pela Copa da Liga Inglesa.

“A porta estava na minha perna e eu não sabia o que tinha acontecido. A única coisa que eu tinha ao crescer na África era meu sonho de ser jogador. Eu tinha apenas minhas pernas para fazer isso. Eu estava amedrontado, pensando sobre a minha carreira”, relembra Souaré, em entrevista ao jornal The Guardian. Depois que um carro desviou em sua frente e ele, encolhido, bateu sua Mercedes no muro central da rodovia, Souaré não se lembra de mais nada. Acordou já em choque, com a perna prensada pela porta do automóvel, em meio ao cenário de pânico. Por sorte, foi ajudado por um anônimo, que tentou manter a sua calma e a suas esperanças.

“Ele ficou dizendo meu nome, o que me surpreendeu. Eu não sabia como ele conhecia meu nome. Ele estava dizendo: ‘Fique comigo, fique comigo’. Eu realmente estava o ouvindo, esperando e esperando. Não podia me mover ou fazer qualquer coisa. Naquele momento, você pode tentar algo estúpido, mexer a sua perna ou sair do carro, então eu tenho que agradecer ao estranho por falar comigo, por me dizer para esperar e acreditar que a ambulância estava vindo. Mas mesmo que ele falasse comigo, eu estava nervoso”, complementa. O teto do carro precisou ser cortado e o jogador foi levado de helicóptero a um hospital de Londres.

No pronto socorro, Souaré se encontrou com o médico do Crystal Palace e fez os exames, que apontaram suas fraturas. Os resultados mostraram também que os danos foram menos sérios do que poderiam, sem afetar o quadril ou as articulações. E, principalmente, sem atingir a coluna. Se o impacto fosse centímetros mais alto, o senegalês corria o risco de ficar paraplégico. “Disseram a mim que eu tive muita sorte”, aponta. O lateral passou por cirurgias no fêmur e no maxilar. Ficou semanas se recuperando sequer sem poder se alimentar normalmente.

Enquanto isso, Pape Souaré convivia com outras sérias questões familiares. Seu pai tratava um câncer em Paris e recebeu a notícia de que não teria muito tempo de vida. Sua mãe, em Senegal, sofreu uma queda e quebrou a perna um dia depois do acidente automobilístico do filho. Então, o jogador optou por não contar os pais, naquele primeiro momento, o que havia acontecido consigo. “Havia muitas coisas acontecendo naquele momento. Eu estava pensando na minha carreira e as pessoas me diziam que ninguém voltava a jogar em alto nível com aquele tipo de lesão. Isso te faz pensar. Mas meu pai estava muito doente. Quando eu o visitei ao final do ano passado e vi como ele estava, e eu apenas tinha quebrado minha perna, isso me mostrou que eu não poderia desistir”, rememora. Em dezembro, o pai do senegalês faleceu.

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Os jogadores e os demais funcionários do Crystal Palace foram fundamentais na recuperação, acompanhando Souaré. Scott Dann e Damien Delaney foram os primeiros a visitá-lo. “Eles ficaram chocados porque meu rosto estava muito inchado. Ver alguém com quem você estava jogando outro dia e no outro estava daquela maneira… é loucura. Mas queria agradecê-los porque me apoiaram todo o tempo. Eles me empurraram, e recebi muitas mensagens dos torcedores”, reconta. Seu amigo de longa data, Idrissa Gueye foi outro que se manteve próximo no processo. Enquanto isso, a própria torcida no Selhurst Park levava faixas em apoio.

Técnico do Palace naquele momento, Alan Pardew não esconde a satisfação por assistir ao milagre ocorrido com Souaré. “Pape foi incrivelmente corajoso. Eu me lembro de visitá-lo no dia seguinte e ele ainda assim ofereceu um sorriso radiante, mesmo com o maxilar quebrado e depois de tudo o que aconteceu. Todos nós no clube o amamos. Ele era muito popular, uma estrela dentro e fora de campo, sentimos muita falta dele no time e no grupo depois do acidente. Vê-lo de volta, correndo e jogando, é o testemunho do compromisso e do trabalho duro dele, assim como da equipe médica. É maravilhoso vê-lo de volta”, relata.

A volta de Pape Souaré aos gramados, de qualquer forma, dependeu de longas etapas. Seu primeiro desafio era simplesmente voltar a andar. Ele precisava estimular seus músculos antes de recuperar sua força. Foram 10 semanas usando muletas, em que o convívio com a dor era diário, em meio aos exercícios de fisioterapia. Depois, dia após dia, o senegalês foi superando metas menores. “A lesão foi em um lugar muito sensível, e eu tive que trabalhar duro para reconstruir o músculo. Nunca foi confortável, e você pode sentir sua perna fraca, sem músculos o suficiente. Isso era muito difícil. Quando você não sabe o que acontecerá ao final, é duro. Eu não sabia quando a dor pararia ou como minhas pernas ficariam. Quando você está machucado e imagina se vai poder jogar futebol de novo, tem que ficar preocupado. Mas eu não desisti. Confiei no que os médicos me falavam e fiz o que eles me pediam”, diz.

“Minha família não colocou qualquer pressão sobre mim, mas eu coloquei. Quando você é da África e quer ser jogador, a única coisa na qual você pensa é fazer sua família orgulhosa e ajudá-los financeiramente. Essas são as coisas mais importantes. Eu apenas sei jogar futebol, então eu trabalhei dia e noite nos treinamentos. Foi duro emocionalmente, também, porque minha família estava de volta a Senegal. É por isso que eu disse que os torcedores e o clube foram tão incríveis comigo. Eu via as pessoas me mandando mensagens, dizendo que sentiam minha falta e me incentivando. Foi o que fiz. É como se eles tentassem de tudo, então ainda havia algo para mim na Inglaterra. Eles estavam ali por mim”, emociona-se.

Seis meses e meio depois da cirurgia, Souaré já estava dando voltas no campo novamente, ao lado dos companheiros. Todos aplaudiam seu retorno. “Quando eles viram que eu voltaria a treinar normalmente, ficaram mais felizes. Se eles entrariam forte em mim? Eu era o único a tentar dar carrinhos em todo mundo. Esse sou eu”. Por mais que a dor persista às vezes, o senegalês está pronto. Já atuou em três partidas pelo time sub-23 do Crystal Palace, fazendo seu primeiro jogo completo justamente um ano depois do acidente. Agora, vai recomeçar em um momento no qual as Águias tentam se reerguer, depois do péssimo início na Premier League, agora sob as ordens de Roy Hodgson. Um incentivo a mais em Selhurst Park.

Além do retorno ao futebol, Souaré também voltou a dirigir e se reencontrou com o homem que manteve suas esperanças durante o acidente. De longe, sua mãe acompanha a volta e também se recuperou. O senegalês sente apenas a falta do pai, mas ainda sorri ao resgatar suas memórias: “Eu apenas gostaria que ele estivesse aqui e me visse retornando. Ele realmente se preocupou com meu futuro, com minha perna. Agora não está mais aqui para ver. Mas eu penso que, onde ele estiver, sabe que estou bem agora”.