Se fosse apenas pelo interesse dos dirigentes, e não pelas recomendações das autoridades sanitárias, algumas ligas nacionais já teriam retomado as suas atividades. A preocupação deveria ser óbvia, ao evitar a disseminação do coronavírus e proteger a saúde das pessoas. No entanto, muitos cartolas desejam colocar o esporte sob regime especial, em que times retomarão suas rotinas antes de outras áreas da economia e atletas terão à disposição um número de testes maior que o oferecido ao resto da população. Na França, porém, há uma pressão dos ultras para impedir os planos. Nesta semana, 45 grupos de torcidas publicaram um manifesto em que refutam essas ideias, inclusive quanto à realização de partidas com portões fechados.

A carta foi elaborada através da Associação Nacional de Torcedores, que une as torcidas organizadas na França. Para eles, os jogos só devem ser retomados quando existirem condições de saúde favoráveis a todos, e não se abra uma exceção para os jogadores atuarem sem torcida. A entidade criticou a dependência que o futebol possui do dinheiro da televisão e como isso se sobrepõe aos interesses de quem frequenta as arquibancadas.

“É urgente esperar. Não é concebível que o futebol seja retomado apenas para as câmeras. Ele deveria ser retomado no devido momento, quando as condições sanitárias e sociais forem atendidas. Quando todos, a começar pelos jogadores e pelos torcedores, puderem retornar aos estádios nas melhores condições. Humanamente. O futebol ‘a todo custo’ é vergonhoso e não tem lugar no futuro”, escreveram os ultras.

Mais do que refutar a volta da liga nacional sem público, o manifesto pede um novo modelo econômico que readapte as contas do futebol. A intenção de retomar as competições com arquibancadas vazias se concentra nos clubes profissionais, que recebem as maiores cotas de televisão. Às equipes semiprofissionais e amadoras, cujas bilheterias representam uma parcela muito maior de suas receitas, a paralisação tende a durar mais tempo. A estes, o futebol se torna viável apenas com os torcedores liberados.

“É urgente repensar o futuro. Se ainda há um pouco de moral, humanidade e lucidez no futebol profissional, é urgente que todos sejam convocados. Se o futebol profissional deseja restaurar sua grandeza, mas, acima de tudo, se proteger dos caprichos econômicos, deve aproveitar essa pausa para repensar. Acabar com a corrida inflacionária. Esse colossal fluxo de dinheiro, por um lado, sobe à cabeça de alguns e, por outro, evapora na bolha de transferências e comissões mafiosas. A mudança só pode ser feita com visão de longo prazo, recuperando a independência econômica da ditadura imediatista dos leilões da televisão. Isso só pode ser feito envolvendo todos que fazem o futebol, começando pelo local onde se vive: o estádio”, pontuaram.

Diversos desses grupos de ultras na França também participam de campanhas locais para auxiliar no combate ao coronavírus, oferecendo serviços voluntários à população de risco e organizando doações. A Associação Nacional de Torcedores pediu que as multas impostas pela Liga de Futebol Profissional ao “mau comportamento das torcidas” sejam revertidas a ações sociais. A LFP já arrecadou cerca de €600 mil nesta temporada.

Entre os ultras que participaram do movimento estão os principais grupos de clubes como Paris Saint-Germain, Saint-Étienne, Bordeaux, Lille, Rennes e Nantes. Apenas representações de quatro times da Ligue 1 se ausentaram do manifesto – Lyon, Monaco, Nice e Olympique de Marseille. Também há a participação de torcidas de 15 equipes da Ligue 2 e outras das divisões abaixo do nível profissional.