A Copa das Confederações é normalmente usada como um torneio teste para o país organizador da Copa do Mundo. Desta vez, a Copa do Mundo 2022, que será no Catar, terá outros eventos testes: os Mundiais de Clubes de 2019 e 2020, conforme informado pela Fifa nesta segunda-feira, 3 de junho. A decisão foi tomada pelo Conselho da Fifa reunido em Paris para o 69º Congresso da entidade, a dias da abertura da Copa do Mundo Feminina na França.

O Catar será o quarto país a sediar o Mundial de Clubes desde 2005, quando passou a ser disputado anualmente sob a organização da Fifa. Em 2000, a Fifa criou o seu Mundial de Clubes, disputado em janeiro daquele ano com sede no Brasil. Só voltou a ser disputado a partir de 2005, quando se uniu com a competição chamada de Copa Intercontinental. Desde 2005, só Japão (três vezes), Emirados Árabes (duas vezes) e Marrocos (uma vez) sediaram o torneio.

Uma das razões dadas pela Fifa para o uso do Mundial de Clubes como eventos de teste é justamente o período que ele é realizado, dezembro. A Copa 2022 será justamente em novembro e dezembro, mais ou menos no mesmo período. Assim, o evento oferece as condições similares, inclusive de clima.

“Eu acho que é uma grande oportunidade para testar as instalações. Eu acho que atinge todas as marcas. Será bom para o Catar ter esses eventos nos próximos dois anos e testar seu transporte, suas acomodações, seus estádios. Eu acho que é um bom exercício”, afirmou Victor Montagliani, presidente da Concacaf.

O dirigente reconheceu que a Fifa tomou a decisão sem discutir questões de direitos humanos na reunião. “Não hoje, não na reunião do Conselho, mas essas questões são parte de uma discussão em andamento entre a administração especial que lida com isso diariamente e obviamente o Comitê Organizador Local”, afirmou Montagliani.

Na última semana, o Comitê Supremo do Catar, que organiza a Copa do Mundo 2022, divulgou um relatório sobre as condições dos trabalhadores. Segundo o documento, nove homens entre 26 e 49 anos morreram enquanto estavam em suas acomodações depois de terem ataques cardíacos, com dificuldades respiratórias ou tendo sido encontrados já sem darem sinais de vida. Um homem morreu no canteiro de obras. Tej Narayan Tharu, 23 anos, caiu no canteiro de obras do estádio Al Wakrah.

Segundo o relatório, foram feitas melhoras nas condições de segurança das obras e diversos dos responsáveis por segurança e saúde dos trabalhadores foram demitidos. Hassan al-Thawadi, presidente do Comitê Supremo do Catar, também falou à imprensa depois da reunião do Conselho da Fifa e admitiu que “ainda há um longo caminho pela frente” em relação ao bem-estar dos trabalhadores. “Toda morte é uma tragédia, é simples assim”, disse o dirigente. “Sobre os que são abordados no relatório como mortes não relacionadas ao trabalho, iniciamos um estudo médico com uma universidade local. Nós incluímos nos nossos projetos anuais inspeções de saúde”.

O dirigente se referiu a uma mudança nas leis do país, que implantou um salário mínimo de 750 rials por mês (algo como US$ 206), e afirmou que esse valor irá aumentar. Além disso, o Comitê Supremo do Catar ainda implantou um sistema de reembolso para trabalhadores que pagaram taxas para pessoas que os recrutaram em seus países de origem – algo que é proibido por lei no Catar agora. O governo do país do Golfo está trabalhando em um programa de reforma com a Organização Internacional do Trabalho.

“Enquanto progresso foi feito no Estado do Catar, ainda há um longo caminho a seguir”, afirmou Thawadi. “Nós estamos trabalhando muito duro com as ONGs, instituições médicas, sindicatos, universidades, para fazermos tudo que pudermos para resolver esses problemas”.

“Em relação a mortes, não importa o que nós dissermos, nunca será suficiente. Mas nós estamos fazendo tudo que nós podemos, e trabalhando para garantir que quaisquer soluções que nós coloquemos em vigor não sejam apenas soluções para resolver as questões em voga no momento, mas que sejam soluções que permanecem para depois de 2022”, afirmou ainda Thawadi.

O dirigente ainda afirmou que a oportunidade do Catar receber o Mundial de Clubes nas próximas duas edições como “momentos empolgantes” e uma chance de ensaiar os planos de operações e estádios antes da Copa 2022, que foi confirmada com 32 seleções – a última nesse formato. A partir de 2026, a Copa terá 48 países representados.

Direitos humanos foi incluído como um item para avaliação dos países candidatos a sediar uma Copa do Mundo, algo que veio na esteira do Fifagate e de países como Catar e Rússia terem recebido o torneio sem muita fiscalização em relação a esses aspectos. Mas se essa foi uma preocupação em relação à escolha da sede de 2026 (Estados Unidos, Canadá e México venceram a disputa), no que se refere ao Catar a Fifa parece ainda fechar muito os olhos e torcer para que ninguém descubra mais nenhuma violação deste tipo no país.

As denúncias de maus tratos dos trabalhadores são extensas e já mostramos em fevereiro que a Anistia Internacional segue denunciando que, embora tenham melhorado, as condições dos trabalhadores seguem ruins. Mais do que isso: há a estimativa que pode haver quatro mil mortes antes relacionadas a obras antes que a Copa de 2022 comece.

Em março de 2018, denúncia mostrava que os trabalhadores da Copa do Mundo ficaram até cinco meses sem folga. Sabendo que a questão Catar era complicada, a Fifa fez uma modificação e criou uma organização conjunta da Copa com o Catar. Mais do que isso: extinguiu a existência de Comitê Organizador Local para as próximas Copas e ela mesma será a organizadora, como forma de evitar mais problemas como esses. Já mostramos como a Copa 2022 tem muita coisa suspeita e você pode olhar nos nossos arquivos.

Um dos problemas para competições da Fifa no Catar é o consumo de álcool, que é proibido no país na maior parte dos ambientes. Segundo Thawadi, o Comitê Supremo do Catar irá designar lugares para que os torcedores possam consumir bebidas alcóolicas legalmente. Esta ainda é uma questão sem solução e que, ao contrário das questões de direitos humanos, a Fifa fará questão de resolver, porque tem entre seus patrocinadores uma cervejaria.

A Copa das Confederações foi abolida do calendário em março deste ano, quando foi aprovado o novo formato do Mundial de Clubes em 2021, justamente usando as datas da competição de seleções. O novo torneio terá 24 clubes, em vez dos sete atuais. A sede desta primeira edição ainda não está definida. Segundo a Fifa, serão analisadas potenciais sedes antes de fazer uma recomendação na próxima reunião do Conselho da Fifa, nos dias 23 e 24 de outubro, em Xangai, na China.

Dos sete participantes, cinco deles já estão definidos: o Liverpool, campeão da Champions League; Espérance de Tunis, campeão da África; Monterrey, campeão da Concacaf; e Hienghène Sport, campeão da Oceania. O Al-Sadd, campeão do país-sede, o Catar, que anunciou há poucos dias que Xavi Hernández pendurou as chuteiras e assumiu o cargo de técnico, irá participar caso nenhum time do país vença a Liga dos Campeões da Ásia. O próprio Al-Sadd e o Al-Duhail se enfrentam no mata-mata da competição e, caso um deles seja campeão, o vice-campeão do país será convidado a participar.

As datas do torneio ainda não estão definidas, nem quais cidades receberão os jogos, que serão divulgados mais adiante. Ainda restam definir os representantes da América do Sul, já que a Libertadores está em disputa, e também tem a segunda metade da disputa da Liga dos Campeões da Ásia.