Depois de quase uma década de serviços prestados ao Manchester United, Ashley Young deixa o clube, mas não saudades. O desgaste da relação com a torcida é ônus quase todo do atleta, com seu desempenho em campo nos últimos anos basicamente simbolizando uma era de nível técnico significativamente abaixo daquilo a que o clube se acostumou. A transferência para a Internazionale é um divórcio tardio, mas que confere a Young certo tempo e visibilidade para reconstruir a imagem de bom ponta que foi apagada com os últimos anos improvisado na lateral.

Que o problema do Manchester United desde a saída de Alex Ferguson está em um nível muito acima dos jogadores em campo ou do técnico que os comanda da linha lateral, não resta dúvidas. Os atletas, no entanto, carregam sua parcela de culpa, e poucos simbolizaram o declínio técnico do maior campeão inglês do que Ashley Young. O veterano virou uma metonímia do futebol convalescente dos Red Devils de 2014 para cá. Ao ponto de termos que atravessar algumas camadas de decepção, erros, derrotas e rejeição para chegarmos ao bom ponto que um dia ele foi.

Ashley Young foi revelado pelo Watford e contratado pelo Aston Villa em janeiro de 2007 pelo valor recorde de £ 8 milhões, então o maior pago pelo clube por um jogador. Em 2008/09, jogando como ponta esquerda em um time que contava também com Gareth Barry, James Milner e os atacantes John Carew e Gabby Agbonlahor, Young foi eleito o melhor jogador jovem da Premier League.

Naquela campanha, somou sete gols e oito assistências em 36 partidas de Premier League. Nas duas temporadas seguintes, deu sequência ao bom trabalho, com 5 gols e 10 assistências na liga em 2009/10 e 7 gols e 9 assistências em 2010/11. Nesses três últimos anos em Birmingham, foi acompanhado pelo Manchester United, que enfim o contratou para a campanha 2011/12.

Incisivo e dono de uma boa finalização, Young não era excelente e sequer apontava que seria craque, mas fazia muito bem o seu trabalho, servia os companheiros e levava perigo quando descia em diagonal a partir da ponta esquerda. Nessa mesma primeira temporada pelo United, para além dos bons números (11 assistências e seis gols em 25 jogos), foi protagonista de um dos mais memoráveis triunfos do time na década, o 8 a 2 sobre o Arsenal. Fez duas pinturas e ainda deu assistência para outros três gols. Decisivo também em um 3 a 1 contra o Tottenham, marcando dois gols e dando uma assistência.

Na última temporada de Alex Ferguson no comando do clube, também aquela do último título do Manchester United na Premier League, Young foi titular em basicamente metade da campanha, sempre que esteve em condições físicas. Esteve fora de 19 partidas na liga, mas, em sua grande maioria, por causa de lesões no joelho e no tornozelo, que, naquela temporada, o impediram de ter maior participação na conquista.

Se, por um lado, Young não parecia se encaminhar a ser uma lenda do clube, por outro, tampouco fazia o torcedor desejar sua saída. Sua sorte no United começa a mudar a partir do trabalho com Louis van Gaal, o primeiro técnico a utilizá-lo regularmente como lateral, mais especificamente pela esquerda.

Depois, com Mourinho, inicialmente o jogador não teve espaço, mas, diante da lesão e queda de rendimento de Antonio Valencia, acabou assumindo a titularidade da lateral direita.

Após a saída de Mourinho e o início do trabalho de Solskjaer, seguiu sendo utilizado como lateral, apesar de seus repetidos erros defensivos, de marcação ou de saída de bola. No ano passado, reiterou sua preferência por uma posição mais avançada, dizendo que ainda era um ponta, mesmo depois de tantos anos.

Mesmo chegando já próximo do fim da era Ferguson ao Manchester United, Young deixa o clube com títulos importantes no currículo: Premier League, Copa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa e Liga Europa.

Tendo virado um bode expiatório dos últimos anos terríveis de um clube até pouco tempo uma potência doméstica e continental, Young, aos 33 anos, ainda tem chance de reescrever a memória que se terá de sua carreira. Chega a uma equipe organizada na Internazionale, com um esquema, o 3-5-2, que favorece o seu futebol e com capacidade de lutar por seu espaço, já que Biraghi e Asamoah não estão estabelecidos.

Com Antonio Conte fazendo grande trabalho em um time que briga por título e que tem visibilidade continental, caberá quase que somente a ele, Young, conduzir a correção de curso de sua trajetória no futebol. Com a imagem bastante manchada, terá que fazer bastante para chegar lá. Mas o primeiro passo, e o mais importante, foi dado: dar fim à sua passagem agridoce pelo Manchester United.