O projeto grandioso do Chelsea começou a ser concebido em 2003, com a chegada de Roman Abramovich. De uma equipe que brigava para entrar no Top Four da Premier League no final dos anos 1990, os londrinos tornaram-se uma potência. Foram três vezes campeões ingleses e, até a temporada passada, o pior resultado na liga foi um terceiro lugar. Levaram ainda quatro Copas da Inglaterra e duas Copas da Liga. No entanto, o clube sempre passou raspando na Liga dos Campeões. Nos últimos anos, faltou o título que confirmasse os Blues como um dos maiores times do começo do século.

Quando a base do elenco parecia se desfazer, porém, o Chelsea recobra suas esperanças. O clube tem a chance de entrar em definitivo na elite europeia, naquele que pode ser o último ato da geração de senadores. Uma vitória em Munique significa não apenas a conquista do cobiçado troféu, como também a garantia de poder buscar o bicampeonato na próxima temporada. Por outro lado, a derrota combinará a imensa dor com a obrigatoriedade de se refazer do trauma disputando a modesta Liga Europa.

Mandato iniciado em 2003

Quando Abramovich chegou ao comando do Chelsea, dois dos principais pilares do time na década seguinte já tinham chegado aos Stamford Bridge. O primeiro a aportar foi Terry, em 1995. Aos 14 anos de idade, o zagueiro trocou o West Ham pelos Blues e três anos depois fez sua estreia no time principal. Outro que veio dos Hammers foi Lampard, revelado na transição do século. O meia foi contratado na temporada 2001/02 por 14 milhões de euros, até então a segunda maior contratação da história do clube, chegando já com status de titular absoluto.

O ingresso do magnata russo despejou 151 milhões de libras e 17 novos nomes no elenco do Chelsea, entre eles Claude Makélélé, Joe Cole, Juan Sebastián Verón, Damien Duff e Hernán Crespo. Dinheirama gasta em vão, já que a maioria destas estrelas não se firmou e Claudio Ranieri não foi além do segundo lugar na Premier League.

De fato, a formação do esquadrão azul ganharia seu rosto principal com a chegada de José Mourinho, em junho de 2004. Com certa liberdade para fazer contratações (ainda que Abramovich impusesse as suas), o Special One gastou 142 milhões de libras em 12 atletas. Por outro lado, os londrinos também se desfizeram de alguns figurões, como Jimmy Floyd Hasselbaink, Boudewijn Zenden e Marcel Desailly.

Didier Drogba foi a contratação mais cara daquela leva. O marfinense vinha de duas temporadas fantásticas com Guingamp e Olympique de Marseille, credenciado para se tornar a grande referência ofensiva. Já no gol, os Blues ganhavam Petr Cech, nome promissor que explodiu com o título da República Tcheca no Europeu sub-21 de 2001 e ganhou experiência após passar os dois anos seguintes no Rennes. Junto com os dois, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e Arjen Robben também chegariam para formar a base do time que perderia apenas uma partida na Premier League e que seria campeão inglês com sobras naquela temporada.

Depois disso, os gastos com contratações caíram pela metade, embora seguissem altos. Os valores elevados eram explicados por contratações pontuais, como Michael Essien, Andriy Shevchenko, Shaun Wright-Philipps e John Obi Mikel. Ashley Cole chegou por valor relativamente baixo, enquanto Michael Ballack foi trazido de graça. Os investimentos chegaram ao piso de 25 milhões de libras em 2009/10 e só voltariam a passar dos 100 milhões na temporada seguinte, com as transferências de Fernando Torres, Ramires e David Luiz – acompanhados posteriormente por Juan Mata, Gary Cahill e Raul Meireles.

Os tropeços na Champions

Enquanto se mantinha firme no pódio do Campeonato Inglês, o Chelsea sempre registrou boas campanhas na Liga dos Campeões, mas nada suficiente para que levantasse o troféu. São nove participações consecutivas na competição continental, sempre se garantindo ao menos nos mata-matas. Além disso, a equipe alcançou as semifinais seis vezes no período, uma marca notável só igualada pelo Barcelona.

Sob as ordens de Claudio Ranieri, os Blues chegaram a eliminar os “Invencíveis” do Arsenal nas quartas de final da LC, mas foram surpreendidos na fase seguinte pelo Monaco. José Mourinho também ficou entre os quatro melhores da Europa em seu primeiro ano no clube, barrado desta vez pelo Liverpool. Em 2005/06, o algoz foi o Barcelona, ainda nas oitavas de final, enquanto o Liverpool bateu os londrinos novamente nas semifinais no ano seguinte.

Curiosamente, a melhor campanha do Chelsea na LC aconteceu em outra temporada desacreditada. Mourinho deixou o clube em setembro e, com Avraam Grant no comando, os Blues fizeram sua primeira final. Contudo, o escorregão de Terry e o pênalti derradeiro perdido por Anelka deixaram o time com a prata. Nas três temporadas que vieram, a sorte foi definida pelo famoso gol de Iniesta nas semifinais de 2008/09, além das eliminações para Internazionale, nas oitavas, e para Manchester United, nas quartas.

Crise de poderes em Stamford Bridge

A maior prova da perda de privilégios dos veteranos no elenco foi dada por André Villas-Boas no início da atual temporada. Pela primeira vez com a camisa azul, Frank Lampard e Didier Drogba passaram a frequentar o banco de reservas. Mesmo com a hegemonia ameaçada, a dupla continuou decidindo a favor do clube, apesar de suas atuações estarem realmente abaixo de tempos passados.

Somando menos minutos do que gostaria, Lampard foi o artilheiro da equipe durante os primeiros meses da temporada. E Drogba salvou a equipe de uma trágica eliminação na primeira fase da LC, que chegou a se ensaiar. Já na defesa, John Terry permanecia absoluto, ainda que as confusões fora de campo e as derrapadas dentro dele não o deixassem mais como unanimidade.

O golpe nos vestiários veio em fevereiro, logo após a eliminação na Champions novamente parecer consumada, com a derrota para o Napoli no Stadio San Paolo. André Villas-Boas perdeu o cargo e Roberto Di Matteo, um homem da casa, ganhou a prancheta. E a entrega dos senadores acabou representada pelo jogo de volta contra os partenopei. Exatamente Drogba, Lampard e Terry fizeram os gols no tempo regulamentar, com Ivanovic selando a classificação na prorrogação.

O fôlego pode não ser o mesmo, mas o empenho dos veteranos pôde ser visto integralmente nas semifinais contra o Barcelona – exceção esta, obviamente, feita a Terry e sua falta de controle no Camp Nou. Ao lado do trio, Petr Cech retornou ao auge de sua carreira e Ashley Cole mantém a regularidade característica. Entretanto, o sexto lugar no Campeonato Inglês, pior colocação desde 2001/02, indica que os Blues precisam de uma renovação para aguentar maratonas mais longas nas próximas temporadas.

Infortúnios nacionais

A falta de um título de peso aos veteranos do Chelsea não se limitou apenas aos momentos com a camisa azul. O caso mais marcante é de Drogba. O atacante ajudou a classificar a seleção de Costa do Marfim para suas duas primeiras Copas do Mundo, mas nunca foi além da primeira fase. E pior sorte foi vista na Copa Africana de Nações. Foram dois vice-campeonatos, ambos com o artilheiro rasgando o papel de protagonista. Em 2006, desperdiçou sua cobrança na disputa de pênaltis contra o Egito. Seis anos depois, durante o tempo normal contra Zâmbia, falharia novamente nos 11 metros.

John Terry e Frank Lampard também nunca viveram grande momento com a seleção inglesa. Ficaram no caminho de Portugal por duas vezes, eliminados nos pênaltis na Euro 2004 e na Copa do Mundo de 2006. Dois anos depois, sequer foram para a competição continental. No Mundial da África do Sul, Lampard viu seu gol legítimo não ser validado na derrocada diante da Alemanha. E a Eurocopa deste ano também poderá ser a última chance de sucesso para ambos no English Team.