As seleções principais de Brasil e Camarões se enfrentaram apenas cinco vezes até o embate desta terça-feira, na Inglaterra. Quatro destes encontros foram válidos por competições oficiais: dois em Copas do Mundo (1994 e 2014), além de outros dois pela Copa da Confederações. O único amistoso anterior, porém, marca um momento peculiar do futebol brasileiro. Em tempos nos quais boa parte dos craques ainda atuava na Série A, Zagallo aproveitava o ciclo posterior ao tetra para pinçar talentos locais. E a vitória por 2 a 0 sobre os Leões Indomáveis, em novembro de 1996, marcou a primeira vez de vários nomes notáveis.

O período de renovação foi bastante aberto após a Copa de 1994. Sem grandes pressões e com uma geração que despontava, os testes se tornaram corriqueiros durante os jogos da Seleção. Assim, contra Camarões, Zagallo escalou um time praticamente inteiro de atletas pertencentes a clubes brasileiros. A única exceção ficou por conta do camisa 9: Giovanni, que trocara o Santos pelo Barcelona meses antes. De resto, apenas “produtos nacionais”. Capitão na ocasião, Zetti era o único remanescente do elenco tetracampeão do mundo. Liderava um bando de novatos.

Ao lado de Zetti, o outro jogador com mais de dez partidas pela Seleção era o lateral André Luiz, também do São Paulo. Mas só possuía uma rodagem maior porque integrou o elenco que disputou as Olimpíadas de Atlanta, meses antes, e foi usado recorrentemente em amistosos. O defensor tricolor entrou no segundo tempo, substituindo o estreante César Prates, então no Internacional. O miolo de zaga impunha respeito com o botafoguense Gonçalves e o palmeirense Clébão. Já na lateral esquerda, Zé Roberto começava a escrever sua história com a Canarinho, enquanto arrebentava na Portuguesa.

A cabeça de área contava, além do atleticano Doriva, com excelente Leandro Ávila, jogador do Palmeiras naquele momento. Flávio Conceição, lesionado, precisou ser descartado horas antes da partida. O encantamento e as novidades, de qualquer maneira, ficavam para o setor ofensivo. O palmeirense Djalminha vestia a 10, em seu segundo jogo pelo Brasil. Era acompanhado do outro lado pelo são-paulino Denílson, dono da 11 de Romário em sua primeira vez na Seleção. O supracitado Giovanni formou dupla com Oséas, outro estreante, reconhecido pela fase imparável com a camisa do Atlético Paranaense. No segundo tempo, o baiano seria substituído por Renaldo, o quarto novato da ocasião, também acumulando seus gols pelo Atlético Mineiro.

Aquela equipe de Camarões, em contrapartida, não botava muito medo. O francês Henri Depireux convocou um monte de garotos, dentre os quais poucos vingariam realmente com os Leões Indomáveis. O único presente na Copa de 1998 foi o defensor Pierre Womé, então com 17 anos. Também com 17, Geremi apareceu no meio-campo, futuro dono da posição na década seguinte. Era seu segundo jogo pela seleção principal, três anos antes de se tornar um dos carrascos dos brasileiros nos Jogos Olímpicos de Sydney. Naquela noite no finado Pinheirão, ao menos, o show ficou aos anfitriões.

O time pouco técnico de Camarões não teve vergonha de abusar da força. Não à toa, Oliver Sièwe foi expulso logo aos 36 do primeiro tempo. Melhor ao Brasil, que poderia ter estabelecido uma goleada, atrapalhado também pelo gramado encharcado do Pinheirão. Aclamado pela torcida paranaense, Oséas apareceu bastante na etapa inicial, mas quem abriu o placar foi Giovanni. A cobrança de falta rendeu seu segundo gol pela seleção principal. Já na etapa complementar, o protagonismo passou a Denílson e Djalminha. O tricolor serviu o alviverde, em seu primeiro tento pela equipe nacional. E o camisa 10 quase fez uma pintura do meio-campo, por cobertura, barrado pelo goleiro Bruno Njeukam. Noite de supremacia brasileira, que se torna mais significativa olhando 22 anos depois. A saudade de um futebol local recheado por grandes nomes bate mais forte.


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