Muricy Ramalho completará 423 jogos no comando do São Paulo na noite desta quarta-feira contra o Bragantino, pela Copa do Brasil, e ultrapassa José Poy como o segundo treinador que mais dirigiu o São Paulo na história, atrás apenas de Vicente Feola. Por isso, lembramos como foram os últimos dias do argentino no comando do clube do Morumbi, em 1983.

Por Alexandre Giesbrecht

Publicado originalmente no Jogos do São Paulo

Quem entrasse no vestiário são-paulino após o jogo de 30 de abril de 1983 imaginaria que os jogadores estavam comemorando um título. Mesmo apinhado de torcedores que festejavam, os dirigentes anunciavam um prêmio extra, além do que seria normalmente pago pela vitória sobre o Sport. É que essa vitória garantiu a classificação do São Paulo às quartas de final do Campeonato Brasileiro daquele ano, e a diferença de dois gols garantiu a primeira posição no grupo e consequente vantagem na fase seguinte. A vitória rendeu as jogadores o valor normal, 110 mil cruzeiros, mas a classificação valeu outros quatrocentos mil cruzeiros. Mas quem estava mais feliz era o técnico José Poy, que, até antes do jogo, estava numa situação delicada.

Seu time era o terceiro colocado no grupo, e apenas os dois primeiros classificar-se-iam às quartas de final. Grêmio e Sport lideravam, com sete pontos, tendo o São Paulo dois atrás. Uma vitória simples sobre o Sport poderia não bastar, já que o Grêmio pegaria, em casa, a já eliminada Ferroviária de Araraquara e o Sport tinha um gol de vantagem no saldo — a vitória valia dois pontos naqueles tempos. Ou seja, era a vitória por dois gols de diferença que interessava. Para complicar, o São Paulo tinha três desfalques: o zagueiro Oscar e os laterais-direitos Getúlio e Paulo, todos contundidos, e o também zagueiro Gassem, suspenso, que vinha substituindo Oscar.

Assim, antes do jogo, Poy dava a (batida) receita para o resultado desejado: “A ideia é abafar o Sport. E, de preferência, conseguir um gol logo no início. Dois gols classificam-nos, mas queremos mais. É muito perigoso segurar um resultado de 2 a 0 nessas circunstâncias. Na verdade, tentaremos golear.” O parceiro de Darío Pereyra na zaga seria o garoto Boni, vinte anos recém-completados, mas titular da seleção brasileira de juniores. Ele tinha passado bastante tempo na semana anterior pegando dicas com Darío e Oscar.

Careca e Renato tinham servido à Seleção no meio da semana — cada um marcou um gol na vitória por 3 a 2 sobre o Chile, em amistoso disputado no Maracanã, a primeira partida da Seleção desde o que tinha ficado conhecido como “Tragédia de Sarriá”, na Copa do Mundo de 1982 —, mas estavam de volta, como esperança de gols. Mas não gols de pênalti: como Careca havia perdido duas cobranças na rodada anterior, um empate contra o Grêmio, Poy decidiu não correr riscos. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a responsabilidade seria do volante Luís Gustavo (improvisado como lateral-direito, no lugar de Paulo), do meia Heriberto ou do ponta Paulo César. Careca parecia dar de ombros: “Não me preocupo em perder gols. A torcida pode ficar ficar segura de que, se for para chutar no mesmo canto, voltarei a chutar.”

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O São Paulo no ataque, tentando gols

A tarefa são-paulina começou a ficar mais fácil logo no início de jogo, porque Bozó tinha aberto o placar para a Ferroviária no Olímpico, em um contra-ataque. Aos 22 minutos, Casemiro marcou contra e ampliou a vantagem araraquarense. Mas o jogo no Morumbi seguia sem gols, e isso eliminava o São Paulo, tanto é que Poy diria, depois, que pouco se importou com a informação, divulgada no placar eletrônico do Morumbi: “Não me interessei por isso, porque primeiro queria ganhar o jogo, depois me interessar pelo que viesse.”

A marcação do Sport não dava espaços e o goleiro País fazia cera sempre que tinha a bola nas mãos. Os mais de cinquenta mil pagantes aumentavam o nervosismo do time, o que, talvez, tenha contribuído para uma furada de Darío Pereyra em cobrança de falta, que levantou muita grama. Felizmente para a plateia, este foi o único momento em que o quarto-zagueiro fraquejou no jogo. Aos vinte minutos, uma má notícia para o São Paulo: o ponta Paulo César sentiu um estiramento muscular na perna direita e pediu para ser substituído. Para seu lugar, Poy escalou o inexperiente ponta Sídnei, de dezenove anos, que tinha poucas partidas no currículo, todas entrando no segundo tempo e nenhuma tão decisiva quanto esta.

Antes que a partida pudesse ganhar ares dramáticos, o lateral pernambucano Betão tentou rebater uma bola, mas ela sobrou nos pés de Careca, que passou pelo zagueiro Marião (que tinha defendido o São Paulo entre 1978 e 1980) e chutou cruzado. País defendeu, mas o rebote ficou com Heriberto, que chutou forte e abriu o placar. Naquele momento, independentemente da derrota do Grêmio, o São Paulo era o segundo do grupo, posição que o deixaria no caminho do Atlético Mineiro, primeiro colocado do grupo R com duas rodadas de antecipação. Um gol marcado a mais mudaria o adversário, que passaria a ser o segundo do grupo R, Atlético Paranaense ou Colorado, desde que a Ferroviária seguisse na frente em Porto Alegre. Isso sem falar que o segundo gol seria necessário, em caso de o Grêmio alcançar o empate.

O São Paulo seguiu pressionando até o fim do primeiro tempo, mais na base da garra que da técnica, sem sucesso. O Sport seguia seu jogo, pois a derrota por um gol não era de todo má, pois o classificava de qualquer maneira. E até conseguiu um lance agudo, aos 36 minutos, com Joãozinho desperdiçando boa chance. A torcida são-paulina seguia nervosa, sabendo que o resultado estava longe de ser seguro.

O segundo tempo continuou com o mesmo panorama. Waldir Peres fez uma grande defesa em falta cobrada por Wílson Carrasco, aos quinze minutos, mas nenhum dos dois times criou grandes emoções. Poy tentava mandar seu time para frente aos berros, o que gerou até um pedido de calma de Gilberto Tim, técnico do Sport. A intranquilidade aumentou quando foi informado que Bonamigo tinha diminuído para o Grêmio. Em uma briga generalizada depois do gol, o zagueiro araraquarense Arouca foi expulso por agredir Osvaldo. O atacante gremista Tita revidou com um chute no peito de Arouca e foi expulso também. Os gaúchos estavam pressionando bastante, em busca do gol da classificação. Ele quase veio pouco depois, mas quem comemorou foi a torcida são-paulina, que celebrou a anulação do gol gremista como se fosse um gol marcado no Morumbi pelo seu time.

Dario Pereira, o herói que chuta de bico

Pouco depois, ela pôde comemorar de verdade, quando Zé Mário passou para Darío Pereyra chutar de bico e marcar o gol que valeria a classificação em primeiro lugar. “[Gol de bico] vale do mesmo jeito, não vale?”, brincou Darío. “Foi, realmente, de bico. Não havia outro jeito. Numa jogada de bate-e-rebate, o Zé Mário, de costas para o gol, tocou a bola para mim. Não pensei duas vezes e dei de bico. Foi um prêmio ao meu esforço.” Esse gol tirava do Sport a garantia de classificação, e agora era ele que dependia do resultado de Porto Alegre. O time seguiu pressionando, enquanto o banco são-paulino tentava tranquilizar os jogadores pernambucanos, avisando que, naquele momento, os dois times estavam passando.

Quase no fim do jogo, Waldir Peres começou a gritar, pedindo para que seu time deixasse de atacar, pois a classificação dos dois lados já estava garantida. “Foi quando me voltei e vi [no placar eletrônico] que a Ferroviária tinha marcado o terceiro gol”, contou Marião, sorrindo. O gol de Douglas, aos 46 minutos do segundo tempo, selou os 3 a 1 da Ferroviária em Porto Alegre, embora não o fim das confusões no Olímpico. Após o apito final, um torcedor do Grêmio invadiu o gramado e agrediu Bozó, que foi defendido pelo zagueiro Pinheirense. Sem saber o que estava acontecendo, o gremista Renato Gaúcho engalfinhou-se com Pinheirense, e a polícia teve de acalmar os ânimos.

Enquanto isso, no Morumbi, os são-paulinos faziam uma grande festa. Poy não sabia, mas tinha acabado de conquistar sua 213.ª vitória no comando do São Paulo, segundo maior total depois de Vicente Feola, marca que seria quebrada apenas por Muricy Ramalho em 26 de fevereiro de 2014. “Estou até emocionado, pois senti que todos se uniram”, comemorou o técnico. “Jogadores, torcida, diretores… e o time em campo lutou, esforçou-se e fez por merecer a classificação. Combinamos, no vestiário, partir em busca do que precisávamos: vencer por dois gols de diferença. E os que diziam que o São Paulo não tinha garra constataram que estavam enganados.”

“São Paulo e Sport estão classificados”

O melhor exemplo disso era Darío Pereyra, eleito o melhor em campo, ganhando elogios até de seu parceiro de zaga, o jovem Boni: “Ele é demais. Defende, ataca e arma com a mesma competência. É impossível não jogar bem ao seu lado.” Darío, por sua vez, não parava de dar entrevistas. Pediu uma chance na seleção uruguaia — “Não adianta me naturalizar [brasileiro, porque já tinha defendido o Uruguai nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1978], por isso espero uma chance na Celeste. Se estou tão bem, a convocação é questão de tempo, imagino.” —, falou sobre seus hábitos de leitura e até mandou uma mensagem para seus pais, que estavam ouvindo a transmissão do jogo em ondas curtas.

Mas também falou sobre a partida: “Não fui à frente como de costume, embora tenha ido ao ataque diversas vezes. Por um bom motivo: eu era o mais experiente da defesa. Quando joga o Oscar, vou mais ao ataque. Com o Boni há muito sem jogar, achei prudente não avançar tanto. Mas, apesar de o Sport ter sido um adversário valoroso, meus companheiros foram espetaculares.” O zagueiro também manifestou surpresa diante da classificação final do grupo: “O Grêmio não se classificou? Incrível! Mas futebol é estranho, mesmo. Há poucos dias, eles eram os mais cotados no grupo. Agora estão fora da competição. Melhor para o São Paulo, que cumpriu a sua obrigação: venceu o Sport por dois gols de vantagem e não dependeu de outro resultado.”

O adversário nas quartas de final seria o Atlético Paranaense, que tinha empatado com o já classificado Atlético Mineiro no Mineirão e ficou com a segunda vaga graças à derrota do conterrâneo Colorado para o América carioca, por 5 a 1. Nessa partida, Paulo Alves (filho do supervisor e técnico do Atlético Paranaense, Hélio Alves) foi ao Maracanã, com a missão de entregar um cheque de cinco milhões de cruzeiros ao América, como “mala branca”. Inocentemente, ele contou suas intenções publicamente e gerando algum escândalo. A imprensa também falou em supostas malas brancas de São Paulo e Sport para a Ferroviária, reveladas por um diretor do clube de Araraquara: “O São Paulo prometeu cinco milhões de cruzeiros e o Sport, três milhões, para que a Ferroviária vença o Grêmio.” Mas, ao contrário do filho do dirigente paranaense, nenhum representante de São Paulo ou Sport confirmou a oferta.

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Já Alves não foi nada discreto. Após o jogo, com o placar favorável ao América — e ao Atlético —, ele dirigiu-se ao vestiário da equipe carioca, onde exibiu um cheque do Bradesco, no valor de cinco milhões de cruzeiros, com a assinatura de Onaireves Moura, presidente do clube paranaense. “Eu vim para entregar este cheque aos jogadores do América, pela bela vitória”, anunciou, diante de estupefatos dirigentes do América.

Um deles, o diretor jurídico Gustavo Barroso, expulsou-o do local a pontapés e empurrões, enquanto outros cartolas pediam a policiais militares que prendessem o “emissário”. “Eu não vou permitir essa imoralidade!”, bradou o presidente do América, Lúcio Lacombe. “O América ganhou o jogo porque precisava mostrar a todos o valor de sua equipe. Quem suborna para ganhar também suborna para perder. Prendam esse homem!” Alves, entretanto, garantiu ao jornal Última Hora que tinha cumprido sua missão, entregando o cheque ao ponta-direita Gil, que teria sido o “intermediário” da negociação. O mesmo jornal publicou ainda uma foto de um cheque de 2,5 milhões de cruzeiros, que seria o valor em caso de empate, já devidamente rasgado.

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“Malaquias no Maracanã” (Reprodução Última Hora)

Diante da repercussão do caso, o América acabou devolvendo o cheque. Apesar de o presidente do Atlético ter afirmado que o valor continuaria à disposição dos cariocas “por trinta dias”, pouco depois ele anunciaria que a quantia seria disponibilizada “em alimentos para os desempregados” de Curitiba. A notícia espalhou-se rapidamente, e mais de cinco mil pessoas foram à sede do clube, debaixo de chuva, na esperança de ganhar uma sacola com cinco quilos de alimentos. O problema é que o Atlético pretendia encaminhar as doações ao governo estadual, para que fossem distribuídas por meio de sindicatos.

A fila não tinha organização alguma e também não andava, já que nada era distribuído. O tumulto era iminente. Quando, finalmente, cerca de duas mil sacolas passaram a ser distribuídas, os dirigentes controlavam quem já as tinha recebido marcando seus polegares em almofadas de carimbo. Mas a quantidade era insuficiente para todas as pessoas que estavam na fila. Quem não recebeu uma sacola com alimentos acabou tendo de se contentar com o gesto de uma rede de lojas de calçados, que ofereceu três mil pares a quem ainda aguardava na fila. “A iniciativa (…) deu um desfecho imprevisível e quase cômico à situação”, escreveu O Estado de S. Paulo. “Homens, mulheres e crianças, cansados de esperar e já sem esperança, acabaram aceitando, perplexos, caixas de sapatos com sandálias de saltos finos e tiras douradas.”

Voltando ao Morumbi, Poy inicialmente foi diplomático, quando questionado sobre o próximo adversário: “Não há adversários fáceis na reta final.” Mas houve quem aplaudisse a “sorte” tricolor. “Sorte do São Paulo, que se livrou do Atlético Mineiro!”, ouviu-se no vestiário. Mesmo Poy acabaria deixando de esconder sua empolgação: “Estou contente, pois os clubes do Paraná não possuem a estrutura do Atlético Mineiro, que, para nós, seria um adversário dificílimo.” Hélio Alves, técnico do Atlético Paranaense, via a situação sob uma ótica diferente: “Puxa vida! A gente acaba de sair de um Atlético Mineiro e cai num São Paulo. É uma barbaridade!”

Apesar dos discursos, foi o Atlético Paranaense que teve vida fácil nas quartas de final, como já parecia prever o presidente do clube, Onaireves Moura: “O São Paulo é nosso freguês, e as estatísticas estão aí para comprovar. E vou mais adiante: aqui [em Curitiba], não sei o que vai dar, mas, no Morumbi, não perderemos de jeito nenhum. Podem apostar que o Atlético vai passar pelo São Paulo e, se deixarem, decidir a Taça de Ouro.”

Ele só não acertou a previsão sobre decidir o Campeonato Brasileiro, mas as outras foram na mosca. O São Paulo até começou pressionando no Couto Pereira, mas foi o Atlético que abriu o placar, com Détti, numa falha generalizada da defesa. Renato ainda empatou o jogo, após Almir chutar na trave, mas os paranaenses voltaram a ficar na frente nos descontos do primeiro tempo, com um gol de pênalti de Washington. A pressão são-paulina no segundo tempo não resultou em nada, e o jogo terminou com o placar de 2 a 1 para os mandantes, que teriam a vantagem do empate no jogo de volta, no Morumbi, dali a três dias.

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“Se ganhar do Atlético-PR hoje à tarde, no Morumbi, o time garante a classificação e salva o emprego de Poy”

Poy lamentou a atuação do time: “Sou honesto comigo mesmo. Não merecíamos ganhar. A televisão mostrou para todo o País que o time foi mal. Não dá nem para arrumar desculpa.” Mas ele não deixava de lembrar que o São Paulo precisava apenas de uma vitória simples. O técnico dizia estar confiante: “Tenho certeza de que vamos vencer, e bem. Se jogarmos o futebol de costume, ganharemos. O adversário é fraco.” Mas seu time não jogou como se precisasse desesperadamente do resultado. Por outro lado, o Atlético jogou exatamente como quem estaria muito satisfeito com um empate. O São Paulo perdeu gols, mas foi ficando cada vez mais nervoso e perdeu as esperanças de classificação quando o ex-são-paulino Assis marcou o único gol do jogo, aos 31 minutos do segundo tempo.

Nos minutos finais, a torcida pediu a demissão de Poy e a saída de vários jogadores. O presidente da Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP) criticou até Careca, sem, claro, saber que ele ainda faria história com a camisa tricolor: “Os que se salvam são Darío Pereyra e Renato, pela garra e pelo futebol. Mas quem é Nelsinho? Quem é Careca, jogador que perde gols incríveis? Ele pode fazer gols contra o Arapiraca. E só.”

, e os repórteres perguntaram a ele, após a partida, sobre os rumores de sua demissão — o mais cotado para seu lugar era Mário Travaglini, embora Ênio Andrade e Cilinho também fossem cogitados. “Cada vez que o São Paulo perde, fala-se sobre isso”, reclamou Poy. “É preciso acabar com essa palhaçada. Mas, se a diretoria do clube achar que eu devo sair, tudo bem. Se achar que eu devo ficar, tudo bem, também. Não quero e não posso culpar ninguém, só lamento ter ficado sem sete titulares nestes últimos tempos.” Os dirigentes evitavam o assunto, como exemplificado por esta declaração do diretor de Futebol, Marcelo Martinez: “Estamos perturbados por esta derrota e não podemos falar sobre isso com a cabeça quente. Na segunda-feira, vamos reunir-nos e conversar, para, então, vermos o que será melhor para o clube. Eu, particularmente, acho que o Poy trabalhou muito e merece todo o nosso respeito.”

“A situação de Poy não é tão tranquila quanto pretendem demonstrar alguns dirigentes”, escreveu o Estadão em 10 de maio, três dias após a eliminação. “Ele tem sido muito criticado pela falta de padrão de jogo do time, por não ter jogadas ensaiadas e até por envolver-se emocionalmente — alusão aos seus [mais de] trinta anos de clube —, não conseguindo transmitir tranquilidade e garra ao time. Mas, evitando criticar publicamente os jogadores, Poy já não suporta mais a apatia de Waldir Peres e Renato, a instabilidade de Zé Sérgio e as indisciplinas de Careca.”

São Paulo decide prestigiar Poy

Como a reunião citada por Martinez acabaria adiada, Poy seguia como técnico do São Paulo. Acreditava-se que isso duraria até 31 de maio, quando venceria seu contrato. Martinez chegou a ser enfático, quando questionado sobre o início do Campeonato Paulista, já naquele fim de semana: “No Campeonato Paulista, o São Paulo começa com Poy, afinal o time está treinando com ele. Depois, não sei o que acontece.” O ainda técnico, por sua vez, avisava: “Por baixo, eu não saio. Não entreguei o cargo, diga-se. Apenas pedi para sair, mas isso foi antes, e o presidente não concordou.” Ele referia-se a uma oferta para treinar a Portuguesa, recebida não muito tempo antes, mas o presidente do São Paulo, José Douglas Dallora, avisou que o técnico continuaria no Morumbi, e Poy recusou o convite, que acabaria sendo feito a Candinho.

Apesar do início iminente do campeonato estadual, foi divulgado que o técnico viajara à Argentina para visitar seu pai, que estaria doente — o auxiliar José Carlos Serrão comandou os treinamentos do time naquela semana. A história da viagem deu a deixa para muitos apostarem numa “saída honrosa”, mas Martinez novamente negou: “Quem decide as coisas aqui são duas pessoas: o presidente Dallora e eu, ninguém mais. O Poy está com o pai doente em Rosário e só por isso viajou. Essa história de quinze dias de licença não existe.”

Poy viaja – “uma saída honrosa”

Na sexta-feira, entretanto, Dallora teria jantado com Travaglini, e os jornais do sábado traziam a notícia de que o técnico tinha sido contratado (Estadão) ou que estava para ser anunciado (Folha). Segundo ambos os veículos, Poy teria ligado, ainda em seu país natal, no dia anterior, para pedir demissão. A informação veio de Dallora: “O Poy ligou-nos de Rosário e comunicou que não continuará como treinador. Insisti para que ficasse, pois, na minha opinião, ele não teve culpa pela eliminação. Dei-lhe total apoio, mesmo sabendo que poderia enfrentar uma verdadeira tempestade. Mas ele nem sequer aceitou ficar trabalhando nas divisões inferiores. Uma pena, pois é um grande são-paulino. Infelizmente, ficou irritado com as críticas e pressões e preferiu sair.”

Travaglini acabaria apresentado no sábado, mesmo, surpreendentemente ao lado de Poy. Enquanto o novo técnico falava sobre o futuro, Poy reclamava de “alguns diretores-auxiliares que querem subir na política do clube” e que teriam conspirado para derrubá-lo. “Não digo seus nomes, porque não quero perturbar o ambiente e porque eles também não merecem tanto”, explicou o argentino. Segundo O Estado, Poy não tinha nem sequer viajado a Rosário, ao contrário do que havia sido divulgado antes. No domingo, Serrão comandou o time na estreia do Paulista, uma vitória por 2 a 1 sobre o Taubaté, no Morumbi, sob os olhares de Travaglini, que estrearia três dias depois, contra o Marília — também no Morumbi e também com vitória por 2 a 1.

Chegava, assim, ao fim a sexta e última passagem de Poy como técnico do São Paulo, que comandou em um total de 422 jogos, com 213 vitórias, 129 empates e 80 derrotas. Sua última vitória acabou sendo o 2 a 0 contra o Sport, em 30 de abril de 1983. Em 27 de julho de 2014, Muricy Ramalho igualou seu total de partidas no comando do time. “Emociona-me chegar a esse número, pois, quando se fala de pessoas como o Poy, o Telê, a gente volta ao passado e lembra os momentos muito bons que passamos com eles”, disse Muricy. “O Poy foi meu treinador no juvenil, depois no profissional, e aprendi muita coisa com ele. Não é importante bater recordes por bater, mas porque seguimos o caminho de pessoas de que a gente gosta. Se ele e o Telê estivessem vivos, com certeza estariam muito contentes por eu estar chegando nesse número.”

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