Embora nascido em Salzburgo e radicado em Viena, Wolfgang Amadeus Mozart tinha uma relação especial com Praga. Foi na cidade tcheca, então parte da Monarquia de Habsburgo, que o músico lançou algumas de suas mais notáveis óperas. A conexão com o público local era evidente e o próprio compositor admitia que “os meus praguenses me entendem”. Por lá, o gênio passou algumas das últimas semanas de sua vida e recebeu amplas homenagens após sua morte. Desde então, sua memória é cultuada na cidade, a ponto de preservarem um museu na vila em que ele costumava ficar durante suas visitas.

Mais de três séculos depois, quem decidiu apelidar Tomas Rosicky de “O Pequeno Mozart”, ao se maravilhar com a categoria imensa do camisa 10, talvez não tivesse total dimensão da ligação entre o músico e Praga. Mas a alcunha, dada ao meia quando ele já defendia o Borussia Dortmund, parece se casar ainda mais com sua história. Nascido na capital tchecoslovaca e criado na base do Sparta Praga, o prodígio compôs as suas primeiras artes em campo quando permanecia na cidade. Depois, chegou ao ápice da sua forma na Alemanha, orquestrando o Dortmund campeão nacional em 2001/02. E lançaria mais algumas óperas em Londres, quando vestia a camisa do Arsenal, adorado pelos torcedores. Uma pena que nem sempre o melhor do armador pôde ser visto no Emirates, perseguido pelas lesões. Foram elas o motivo do fim de sua carreira, anunciado nesta quarta, aos 37 anos.

Sem considerar tanto os números brutos ou as listas de títulos, Rosicky foi um dos melhores meias de sua geração. Um dos mais inteligentes. Porque sua qualidade não se dimensiona exatamente por aquilo que seu currículo pôde apresentar, mas sim por aquilo que apenas quem conseguiu assisti-lo pode dizer. Era um deleite ver o talento apuradíssimo do armador, daqueles dignos de vestir smoking para jogar. Em um dia inspirado, a atuação do tcheco já valia o ingresso de quem estava nas arquibancadas.

Dono de uma visão de jogo privilegiada, Rosicky demonstrava sua excelência especialmente na criação de jogadas. Nos passes e lançamentos cirúrgicos, precisos como o movimento de uma batuta. Mais do que isso, o tcheco sabia controlar o espaço ao seu redor e tinha inteligência para antever as jogadas. Isso sem contar a habilidade para bater na bola. Combinava a ferocidade nos chutes de longe, a categoria nas cobranças de falta e o deslumbre de seus arremates com a parte de fora do pé.

Visto como uma das grandes promessas do Sparta Praga, Rosicky conquistou o Campeonato Tcheco duas vezes antes de sair. O Borussia Dortmund representava um passo maior e, em tempos nos quais os aurinegros mantinham um elenco notável, o garoto complementou muito bem a equipe comandada por Matthias Sammer. Ao lado de Jan Koller, Amoroso e Ewerthon, formou um quarteto imparável e campeão. As dificuldades financeiras vividas no Westfalenstadion não permitiram que o clube o mantivesse por tanto tempo, negociado com o Arsenal em 2006, quando era considerado uma das grandes estrelas do futebol alemão – além de ídolo de muitos da atual geração. E que não tenha atingido a projeção que se previa com os Gunners, limitado a uma porção de lampejos, era um dos jogadores mais queridos pela torcida. Foram dez anos de clube.

Concomitantemente, Rosicky brilhava pela seleção tcheca. Era visto como o herdeiro do protagonismo de Pavel Nedved, e junto com o craque, viveu o sonho na Eurocopa de 2004. Participaria ainda da Copa do Mundo de 2006, esta com campanha esquecível. Mas também na equipe nacional a falta de sequência atrapalhou, por mais que o camisa 10 tenha chegado à sua quarta Euro. Em 2016, despediu-se da seleção com 105 partidas no total, terceiro com mais aparições pelo país – contando também os tempos de Tchecoslováquia.

Após a última Eurocopa, ficou claro que Rosicky se preparava à sinfonia derradeira. E ela deveria ser composta no mesmo Sparta Praga onde surgiu, onde seu pai foi ídolo. Em agosto de 2016, o clube apresentou Rosicky como um filho egresso, pronto a reencontrar sua história. Contudo, os problemas físicos mais uma vez o impediram de cumprir seus desejos. Jogou por míseros 18 minutos na temporada passada, enquanto na atual conseguia entrar em campo com um pouco mais de frequência, participando de 11 jogos no Campeonato Tcheco, quase sempre saindo do banco. De qualquer maneira, a forma era insuficiente para satisfazer o camisa 10. A hora de admitir o revés e pendurar as chuteiras.

“Depois de uma avaliação cuidadosa, eu percebi que eu não estou mais apto a preparar meu corpo àquilo que o futebol profissional requisita. Eu gostaria de agradecer ao Sparta por me fazer crescer, por ser o primeiro passo da minha carreira em um grande clube e por me permitir dizer adeus no lugar em que mais amo”, afirmou Rosicky, em sua última coletiva. “Eu sabia que este momento estava chegando, foi cada vez mais difícil me preparar aos jogos. Minha mente queria jogar, mas o corpo se recusava. Recentemente, minha mente também parou de trabalhar desta forma. Eu tive uma grande carreira, amei o futebol e faria tudo de novo se pudesse”.

A emoção de Rosicky, ao dar-se por vencido, não deixa de tocar. E, pensando friamente, talvez este anúncio tenha vindo com alguns anos de atraso, considerando tudo o que passou nos últimos tempos. Mas não é exatamente algo a ser lamentado, e sim admirado, pela insistência do veterano em ainda tentar dar uma volta por cima. Infelizmente, seu talento fica agora apenas como lembrança. O Pequeno Mozart merece uma grande ovação por toda a classe que regeu boa parte de seus momentos em campo.


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