Não é novidade a leniência das punições que as autoridades do futebol impõem a casos de racismo nas arquibancadas, nem que elas não estão funcionando. Têm sido usadas há mais de uma década e, em 2019, estamos em um dos momentos mais críticos da luta contra o preconceito no futebol europeu. No entanto, a repercussão de Bulgária x Inglaterra, pelas Eliminatórias da Eurocopa, foi tão grande que houve uma inocente esperança de que novas medidas, mais duras e implacáveis, fossem tomadas.

Pois é. Não foram. Apesar de o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, ter declarado “guerra” da família do futebol contra o racismo, ele segue travando-a com uma baioneta. Sua entidade sancionou uma punição de dois jogos com portões fechados à seleção búlgara e uma multa debilitante de € 75 mil depois que alguns de seus torcedores fizeram saudações nazistas sorrindo para a câmera e imitaram sons de macacos, em maior ou menor medida, ao longo de todo o jogo.

Esse caso, em meados de outubro, teve algumas particularidades que o tornaram ainda mais grave. A seleção búlgara já atuava com o estádio parcialmente fechado por ofensas dessa natureza em partidas anteriores, o que levou os jogadores ingleses a se reunirem antes do jogo para decidir como se comportariam em caso de reincidência.

Tammy Abraham chegou a dizer que os jogadores abandonariam o gramado, talvez sem nem cumprir o ridículo protocolo de três strikes determinado pela Uefa – um alerta pelo alto-falante; um segundo alerta pelo alto falante com os jogadores nos vestiários; e, enfim, o cancelamento da partida.

Autoridades do futebol búlgaro rebateram as preocupações, apontando a justa hipocrisia de que a Inglaterra tem um problema interno sério de racismo em seu futebol, mas sem reconhecer o seu próprio problema, e a discussão pública do assunto tornou os acontecimentos daquela noite muito previsíveis.

Os racistas desafiaram abertamente as autoridades, o que é o primeiro agravante. O segundo é que as ofensas apenas diminuíram por volta do fim do primeiro tempo, quando um grupo de torcedores búlgaros vestidos de preto deixaram o estádio, mas não desapareceram, segundo relatos dos jogadores ingleses, que decidiram, por conta própria, jogar até o fim e acabaram goleando por 6 a 0.

A decisão de continuar, desde que influenciada pelos jogadores negros da equipe, era um direito da seleção inglesa. No entanto, todo o contexto da partida e a inexorabilidade das ofensas deveriam ter sido levadas em conta pela Uefa na hora de aplicar a devida punição, e entidades anti-discriminação acreditavam que essa era uma boa oportunidade para tomar medidas mais dura.

Se era, a Uefa a desperdiçou, continuando a tomar as mesmas medidas esperando resultados diferentes e, seja essa uma frase de Albert Einstein ou não, a política de combate ao racismo da Uefa e de outras entidades do futebol europeu e mundial simplesmente não está funcionando e a evidência número um é que os casos de racismo parecem estar aumentando em vez de diminuindo – sensação que, pelo menos no futebol inglês, tem embasamento empírico.

Segundo o Guardian, a Uefa entendeu que o abuso contra os ingleses foram “apenas” a segunda ofensa, e que as suas orientações indicam punição de um jogo com portões fechados e multa de € 50 mil. Então, na letra da lei, a entidade europeia foi até um pouco além na punição à Bulgária e é preocupante que ela ache que foi uma rigidez extra suficiente para justificar seu discurso mais duro.

Somente a partir da segunda ofensa que pontos começam a se reduzidos e times são expulsos de competições, o que a instituição anti-discriminação Fare acreditava que dava para ter acontecido já nesse caso. A Bulgária não tem mais chances de se classificar diretamente à Eurocopa de 2020, mas ainda está posicionada para uma vaga na repescagem por meio da Liga das Nações.

“É bem-vinda a velocidade da decisão, mas estamos decepcionados que a Bulgária não foi expulsa das Eliminatórias da Eurocopa de 2020, dado seu retrospecto anterior e a óbvia incapacidade para lidar com o problema. Acreditamos que as evidências e as circunstâncias da partida justificariam que o futebol europeu desse um sinal mais forte da necessidade de combater o racismo”, disse.

A Kick It Out seguiu a mesma linha: “Estamos desanimados, mas não surpresos, ao descobrir a resposta da Uefa às ofensas racistas contra jogadores ingleses. Acreditamos que perderam uma oportunidade de enviar uma mensagem intransigente sobre racismo e discriminação. As atuais punições, por mais ‘duras’ que a Uefa acredita que sejam, claramente não estão funcionando e deixam as vítimas com pouca confiança na capacidade dela de impedir mais ofensas”.

Tanto o protocolo de três passos para as partidas quanto a rigidez gradual das punições de acordo com o número de ofensas indicam que a Uefa ainda mantém fé demais que seu processo disciplinar uma hora dará certo, ao contrário do que pensa a Kick it Out. “Acreditamos que todo esse processo precisa ser revolucionado e apelamos que eles expliquem o processo de tomada de decisão por trás das sanções a incidentes de discriminação”, disse.

Até são importantes declarações duras como o comunicado de Ceferin ou o discurso de Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a cerimônia de melhor jogador do mundo, mas, sem ações, palavras são vento.