Desde o anúncio em 2009, passando por sua implantação há três anos e chegando até aos dias mais recentes, o Fair Play Financeiro da Uefa tem causado polêmicas no futebol europeu. Diante das reclamações por parte de alguns clubes e da pressão por mudanças, a entidade europeia anunciou nesta terça-feira alterações para atenuar a situação. O objetivo principal, de diminuir as dívidas das equipes e pavimentar o caminho para uma economia mais sustentável, continua, mas agora com brecha para o crescimento de equipes com planejamento bem definido.

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O comitê executivo da Uefa se reuniu em Praga, na República Tcheca, para uma reunião de dois dias, nesta segunda e terça, e o Fair Play Financeiro foi o principal assunto debatido. Nesta terça, Gianni Infantino, durante coletiva de imprensa, anunciou as mudanças no regulamento, válidas a partir desta quarta-feira. Os clubes ainda precisam respeitar a regra de não gastar mais do que arrecadam, mas o prazo para saldar essa diferença agora pode ser estendido para quatro anos, contanto que um planejamento prévio seja apresentado até dezembro do ano anterior aos investimentos previstos.

O planejamento deverá conter detalhes como os objetivos do plano de investimento, estimando os valores que fomentarão os gastos, como receita com acordos comerciais, direitos de televisão, venda de ingressos etc. Com isso, equipes como Manchester City e Paris Saint-Germain, novos ricos que pleiteiam um lugar na elite europeia, poderão voltar ao mercado com mais força, desde que respeitem essas exigências – no caso específico dos dois, a partir do momento que suas sanções chegarem ao fim, dentro de duas temporadas. Oficialmente, o discurso da Uefa é de que, depois de um período mais restritivo, a ideia é dar as boas-vindas a investimentos externos.

“O Fair Play Financeiro tem sido uma história de grande sucesso, e os números mostram isso. O prejuízo dos clubes europeus de futebol caiu, em apenas três anos, de € 1,7 bilhões para € 400 milhões. Agora podemos fortalecer as regras, permitindo investimentos de uma maneira mais fácil. Sempre dissemos que queremos investidores no futebol, mas bons investidores. Infelizmente, temos em muitos países por toda a Europa pessoas que vieram para o futebol, prometeram toda a sorte de coisas, e os clubes acabaram falindo”, afirmou Gianni Infantino.

Eram justamente os novos ricos os mais incomodados com o Fair Play Financeiro. Para eles, as regras favoreciam a manutenção do status quo, já que os clubes já estabelecidos naturalmente têm maiores receitas e, consequentemente, maior possibilidade de gastar, reduzindo a possibilidade de equipes com projetos de longo prazo de crescerem mais do que um determinado ponto e alcançarem esses gigantes.

O caso citado por Infantino, de investidores que chegam aos clubes prometendo mil e uma coisas e depois largam as equipes à beira da falência não é raridade, e empresários com pouco interesse em realmente acrescentar algo ao futebol devem ser evitados. Entretanto, há outros investidores sérios, como os donos do grupo que controla o Manchester City ou Roman Abramovich, que conseguiu no Chelsea o caso de maior sucesso e que hoje, pouco mais de dez anos após o início dos investimentos, já tornou o clube basicamente autossuficiente, sem a necessidade de novos aportes financeiros que não partam de suas próprias receitas. Se a vigilância prometida for feita e a abertura bem aproveitada, o futebol europeu pode seguir crescendo de maneira saudável. Isso depende também de variantes que não dizem respeito direto à Uefa, mas o mínimo que a entidade poderia fazer era buscar encontrar esse equilíbrio entre responsabilidade e crescimento.